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Atualizado às: 12 de janeiro, 2009 - 07h51 GMT (05h51 Brasília)
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Adeus! Hello!

Ivan Lessa (ilustração de Baptistão)
Adeus: cinco letras que choram. Hello: cinco letras que sorriem.

*

Bem que eu tinha notado. Qualquer coisa de diferente nos ares de Londres. Nada a ver com zepelim ou problemas no sistema de esgotos. Depois de algumas décadas da capital britânica mesmo os mais insensíveis percebem essas coisas.

É o que poderia se chamar de “afinação territorial”. Quem em Ipanema ou em Jaú, depois de algum tempo de aclimatação, não percebe, quase que por sexto sentido, essa tal de “qualquer coisa de diferente nos ares”. Generalizo e pontifico: um homem é 30% a cidade em que vive.

Em Londres estou entre os 20 e 25%.

Foi assim: de repente, numa manhã de primavera do ano passado, saindo do metrô com minha tralha debaixo do braço, notei praticamente com o faro, a pele e uma campainha soando lá no fundo da cabeça, que algo mudara.

Olhei em torno. Não, não havia obras na rua. O tráfego continuava em seu passinho de sempre, as pessoas... Aí foi me dando a luz. As pessoas. Isso, eram as pessoas. Algo não estava certo com as pessoas. Por uma fração de segundo, senti-me no meio de um filme de ficção científica de baixa qualidade.

Teriam extra-terrestres, no meio da noite, tomado conta dos londrinos a que neste tempo todo eu já começava a me acostumar? (Só se pode dizer em perfeita sintonia com Londres depois de 45 anos, não importa a cor de seu passaporte.) Enquanto caminhava ladeirinha acima para o trabalho (contar bobagens para vocês) fiz o que sempre fiz a vida toda: deixei a cabeça para lá, junto com qualquer tentativa de raciocinar, e deixei que o instinto, esse Pelé que bate-bola nos gramados das almas verde-amarelas, tomasse conta de mim.

Antes de chegar ao banco, no alto da rua, onde costumo dar uma paradinha para recuperar o fôlego, dei com a coisa. E quando digo coisa, não me refiro à Coisa (The Thing) daquele filme sci-fi já filmado duas vezes, mas sim a “coisa” que estava acontecendo.

Havia uma enorme ausência de londrinos na cidade. Isso eu depreendera em apenas um quarteirão da zona central da cidade. Foram todos embora sem sequer se despedir de mim. No sentido figurado, claro. Que as intimidades por aqui continuam parcimoniosas. Graças a Deus, ou à sua inexistência, conforme está na moda dizer, achar e proclamar do fundo vermelho dos ônibus de dois andares.

Que fiz eu então nessa situação de dúvida e incerteza? O que todos nós fazemos. Googlei. Não deu outra. Lá estava, logo na primeira página do engenhoso e ubíquo engenho de busca. Entre 1998 e 2007, dois milhões de londrinos deixaram a capital.

O número é o resultado de uma meticulosa pesquisa, como o são todas as pesquisas britânicas, do Bank of Scotland, publicada ainda agora nestes primeiros dias de janeiro. Friso que os números se referem aos que abandonaram Londres por outras partes da Grã-Bretanha. Os britânicos que partiram rumo Espanha, França e Itália, e que agora amargam o euro caro, não constam do estudo. Em 2007, foram 207 mil os britânicos a deixar o país. Um a cada três minutos, me asseguram. Epa, lá foi outro! Com o euro em alta e tudo. A debandada deverá prosseguir.

Fui ao outro lado da moeda, que os escoceses, principalmente os ligados a bancos, têm sempre um outro lado da moeda. Bobeou e mandam três ou quatro outros lados da mesma moeda. Ao que parece, Londres arrecadou (se é esse o verbo) o maior nível de migração internacional nos últimos dez anos: aqui no sudeste do Reino Unido, onde se situa Londres, chegaram, e tudo indica que ficaram e se instalaram, mais de 1 milhão e 800 mil estrangeiros.

Oba, lá está um deles! Good morning! How are you? pergunto e saúdo, nomeando-me a mim próprio embaixador honorário da capital, querendo deixá-los mais à vontade na cidade que, como eu, escolheram para morar e viver. Ou seja, reclamar dos preços, do trânsito, da falta de modos dos outros, da família real, da decadência de tudo e, last but not least, do excesso de estrangeiros à solta.

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