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Atualizado às: 29 de outubro, 2008 - 09h28 GMT (07h28 Brasília)
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Efemericidades

Ivan Lessa
Sexta-feira é Raloim. Raloim nos Estados Unidos onde, embora com árvore genealógica complicada e cheia de enforcados, chamam de Halloween, véspera ao nosso dia de Todos-os-Santos, logo seguido pelo dia dos Mortos, ou Finados, em 2 de novembro.

Halloween. All Hallows'Eve. Raloim no Brasil. Raloim aqui, onde se escreve à maneira americana também, Halloween. Parece que vem dos celtas e druidas. Só improbabilidades.

Há perto de 34 anos, quando aqui pela primeira vez arribei, não tinha essa josta. Começou a aparecer lá por meados dos anos 80. Junto com Thatcher, Reagan e outras fantasmagorias.

Acho sensacional ter pegado no Brasil. Raloim. E vão as crianças bater de porta em porta ameaçando um “trick” (truque) ou receber um “treat” (bom bocado?). Não há caso aí de casa ter confundido com “arrastão” e dado uma de Tropa de Elite ou de Cidade de Deus para cima da molecada? Já aprenderam a fazer jack-O-lantern com jerimuns na Rocinha? Tem apple-bobbing no Vidigal? No Complexo do Alemão as bruxas são aquelas de preto e chapéu em forma de cone voando em vassouras ou mantivemos nossas “pretas véias”, muito gordas e de branco, sentadonas no terreiro, jogando “os búzio” e prometendo, com os devidos santos nelas baixados, que esse e aquele desafeto vai sim quebrar uma perna e sofrer horrendamente?

Faço essas perguntas porque, se o Brasil me deixava atônito quando nele morava, aqui nas estranjas me derruba, joga no chão e pisa em cima.

Perdão, perdão, Brasil, eu prometo não fazer mais!

Espero, agora, que uma vez realizadas essas eleições de domingo passado, a problemática toda tenha sido resolvida e tanto os dicionários Houaiss, Aurélio e Caldas Aulete tenham consignado a grafia correta do dia que precede Todos-os-Santos e Finados: Ra-lo-im.

Mas, mais acima, eu falei en passant, quando o francês ainda fazia parte dos currículos escolares, em arribar nestas estranjas. Vou dar um vôo mais baixo e conferir de perto o que se passou e passa, ao menos em nas rodas concêntricas onde destoa uma batucada britânica.

Sexta-feira é aqui, pois, como aí, Halloween. Não era. Alguns dias depois terão lugar as eleições nos Estados Unidos da América do Norte para ver quem será o próximo Barack Obama, digo, próximo presidente do país. Vou abrir parágrafo. Por mera superstição.

Já peguei sete eleições gerais na Grã-Bretanha. De Edward Heath dando uma tunda em Harold Wilson em 1970, a 1974, o famoso ano das duas eleições gerais. Nunca me chatearam. O espaço necessário nos jornais e colunistas opinando, cada partido com um máximo de 10 minutos por semana na televisão. A lendária moderação que para cá me trouxe de forma que eu pudesse aprender a ir mais devagar nas coisas.

Vou direto ao que me interessa. Nunca em 34 anos de Reino Unido vi tanto fuzuê em torno de uma eleição quanto essa agora dos EUA. Os jornais, ditos de qualidade, vêm há semanas dando um mínimo de 3 a 4 páginas por dia sobre os candidatos, seus vices, seus tudos.

Sem falar na colunagem generalizada. Ligue a televisão e lá está: documentário após documentário, série após série. Um dos canais, o More 4, apresenta, dando bandeira, alguns de seus programas americanos com vinheta nas cores branco, azul e vermelho mais as estrelinhas.

A BBC, entre rádio e TV, deve ter entre 54 e 540 correspondentes nos EUA. As estações comerciais competem para não ficarem (muito) atrás. Frise-se: tudo isso antes mesmo da tal crise financeira que ameaça os mundos endinheirado, remediado e paupérrimo.

De concreto mesmo, pouquíssima coisa. O historiador Simon Schama apresentou uma série de quatro programas sobre os fundamentos libericidas dos EUA. O Channel 4 sapecou, aos sábados, em horário ingrato, 5 e meia da tarde, o documentário dramatizado, em sete partes de hora e meia, John Adams, segundo presidente americano, campeão de Emmys (o equivalente ao Oscar da TV) de todos os tempos. Às 8 e meia da noite, todo dia, o programa satírico de Jon Stewart, The Daily Show, sempre no More 4. Antecede-o, evidente, a tal vinheta com a bandeira americana estilizada.

Olhaí, sejamos claros: o Jon Stewart, o John Adams, o Simon Schama, são todos ótimos. Da melhor qualidade. Aqui não se faz mais, não há mais sátira política inclusive. Coisas do Raloim, me pergunto? Agora, vamos e venhamos. Está havendo um certo exagero nessa cobertura. Afinal, quem está cobrindo quem? No mais amplo sentido.

Churchill falou em special relationships, ou “relações especiais”, entre os dois países logo depois da Segunda Guerra. Tudo bem. Relação especial é uma coisa. Agora isso que está acontecendo aqui beira mais aquele romanção do Somerset Maugham, Of human bondage, que nós muito corretamente e, no momento apropriadamente, traduzimos para Servidão Humana.

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