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Atualizado às: 22 de setembro, 2008 - 09h55 GMT (06h55 Brasília)
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Gírias e o escambau

Ivan Lessa
Semana passada, na Folha de São Paulo, li uma crônica sobre Carlito Maia. Fui amigo dele. Quem não foi amigo do Carlito Maia? Homem de publicidade, homem de bem, homem bonérrimo.

Carlito Maia, com seu chapéu de publicitário (para traduzir irresponsavelmente uma expressão popular inglesa), foi o responsável por acrescentar à nossa língua, mais acostumada a emagrecer do que engordar, expressões que pegaram. Desde “É uma brasa, mora”, da época do Roberto Carlos, até o slogan “Lulalá” – ambas pegaram, a última ajudou a colocar o homem “lá”.

Lembrei-me do Carlito Maia e me lembrei também de gírias que se foram. Gíria é passarinho que fica pouco tempo na gaiola; foge logo. Pena. Sou um colecionador de gírias em desuso.

A três por dois (qual será a origem da expressão?) vêm-me à mente doentia (ou, mais provavelmente, por total falta do que fazer) gírias das mais antigas, mais obsoletas. (Recuso-me terminantemente a usar o verbo “datar”ou o termo “datado”. Quiuspa. Uma gíria gostosa feito o “homessa” passa e esse horror desse “datado” fica? Hem?)

Vivo dando braçada na net em busca de dicionário de gírias. Nossas, claro. Tem de lunfardo, tem do calão português, do francês, da malavita italiana, tudo. Nosso, que eu saiba, e acompanho com vivo interesse, só o Jornal da Gíria, publicado em Niterói (“Um jornal mensal dedicado ao idioma giário” é seu lema).

Temos ainda sítios (site é o cacete) sobre o caipirês e os bons Houaiss e Aurélio estão aí dando sopa (essa vai pegar). Muita coisa se pesca lá.

Sou vidrado, parado mesmo, também, na origem de expressões. Tem um livro lá em casa, do utilíssimo mosquito elétrico que foi o Raymundo Magalhães Jr. só sobre a origem de expressões, frases e provérbios. Reeditem-no, informatizem-no. Tá no ré?

Agora, outro dia mesmo, querendo saber a origem de “buchincho”, o Houaiss me remeteu, assim como quem me manda à PQP, a “buchinche”, que é, segundo ele, um regionalismo do sul do Brasil e que quer dizer baile “das classes menos favorecidas” (olha esse elitismo aí, “seu” Houaiss) ou ainda, e aí o volume informático dá uma colher de chá (outra expressão a conferir a origem) e informa tratar-se de “arrasta-pé”.

Tudo somado, noves fora (sim, essa eu sei a origem; tá na cara), o negócio é que aqui o prestigioso (esse treco merecia aspas de tão antigão) Dicionário Oxford mandou agorinha mesmo, neste setembro, para as livrarias, o seu volume dedicada ao que os ingleses, coitados, em sua ignorância, chamam de slang.

Vale coisa nova. Vale modismo que a televisão introduz às pencas (locução de origem óbvia, ou que está na cara, uma vez que o “nossa amizade” aí saiba o que quer dizer “penca”).

Coisas feito shagtastic, stud muffin e minging que, possivelmente, para o cidadão local, dispensam maiores explicações. Para o boneco aqui, ao menos, neca de dispensas. Procurei nos dicionários virtuais inglês-portugues e neris de petibiriba. Coisa boa não deve ser.

Manjo um pouco, por gostar de gibi, de certas onomatopéias. Phwoar, por exemplo, que não chega a ser bem uma ono-isso-aí-que eu-escrevi, é a exclamação a ser feita quando se vê um peixão passar. Por operários da construção civil principalmente.

Peixão é como nossos avós se referiam a uma mulher bem apanhada, bonita, gostosona, por aí. E soltavam um piropo (é galanteio, gente) feito “Foi isso aí que o médico me receitou três vezes por dia”. E se ela estivesse ou não levando um cão pela coleira, “O cachorrinho tem telefone?”.

Mas ao Phwoar. Corresponde, em brasileirês, àquele ruído obsceno que as gentes de baixa origem (certo, Houaiss?) fazem com a boca, bem alto, como se estivessem sugando algo, quando passa uma mulher para cem ou até duzentos talheres.

Os ingleses gostam muito da rhyming slang, a gíria rimada. Uma tolice tremendona na minha pouco modesta opinião. O novo Oxford da Gíria consigna, por exemplo, Britney, como gíria rimada para cerveja. Britney Spears, beers. Sacaram?

Esta é a segunda edição do Dicionário Oxford de Gírias, 16 anos depois de debutar nas livrarias locais. Seis mil verbetes, 350 novidades. Muitas delas vindas do outro lado do Atlântico, cortesia das séries de TV americanas, outras da Austrália, cortesia, ora! dos australianos.

Aguardo, pressuroso, a publicação do Dicionário Brasileiro de Gírias, empreitada financiada e elaborada por nossa Academia Brasileira de Letras, que, afinal, alguma coisa tem que fazer na vida.

***

Em tempo: alguém veio me explicar que eu estava por fora paca em matéria de minge e minging. É coisa antiga e quer dizer apenas malcheiroso, desagradável, e, também, muito bebum. Tãotá.

.

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