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Brasileiros enfrentam riscos em zonas de conflito no exterior | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Na contramão da onda de imigrantes que deixam o Brasil em busca de países no Primeiro Mundo, um pequeno grupo de brasileiros escolheu como destino nações marcadas por conflitos. São brasileiros que, seja por laços familiares, pela profissão que abraçaram ou, simplesmente, pelo espírito aventureiro, trocaram o Brasil por lugares em que salvar a própria é uma das preocupações diárias. A BBC Brasil descobriu alguns desses brasileiros em países como o Afeganistão, o Sudão, o Quênia e o Timor Leste. O mineiro Sérgio*, de 38 anos, é um deles. Ele disse ter visto "no caos do Afeganistão" a oportunidade de montar seu próprio negócio e ajudar na reconstrução do país após a queda do regime do Talebã em 2001. Ele está com a família em Cabul desde outubro de 2005 e, hoje, é dono de um centro educacional que oferece cursos profissionalizantes para 100 afegãos, e de uma pizzaria, que ganhou o nome de Pizza Brasil. "O que mais gosto aqui é da descoberta de um mundo completamente novo, diferente do Brasil. Os contrastes de religião e de cultura me fascinam", disse à BBC Brasil. O brasileiro diz "não viver com medo", mas a preocupação dele com segurança é grande o suficiente para que ele não queira revelar seu nome verdadeiro nem fotos da família. "O estrangeiro é muito visado aqui", explicou. Ele mencionou também já ter escapado de atentados a bomba só porque chegou "minutos" depois do incidente. Viver perigosamente Uma vida marcada por altos riscos é também a realidade de um motorista de táxi brasileiro que mora com a família no território palestino da Cisjordânia. Ghande Judeh, de 35 anos, conta que, em março de 2002 a cidade de Ramallah, onde mora com a família, foi ocupada por tropas israelenses.
Mais de 30 palestinos foram mortos e centenas foram expulsos de suas casas. "A nossa casa ficou cercada por tanques durante 24 dias e ficamos dentro de casa o tempo todo. As crianças não podiam nem abrir a porta para brincar fora de casa", contou. Filho de palestinos que emigraram para o Brasil depois da criação do estado de Israel, em 1948, Judeh resolveu acompanhar os pais quando eles decidiram voltar à terra natal para passar os últimos anos de vida. "O tempo foi passando e aí me casei e tive filhos. Quando vi, já estava totalmente atado a esta terra, não tinha mais como deixá-la." Segurança Apesar de estarem em zonas de conflito, alguns brasileiros consideram seus novos países mais seguros do que o Brasil, como o técnico de futebol Ricardo Ferreira, de 48 anos, que deixou o Rio para comandar o time de futebol mais popular do Sudão, na África.
"Aqui em Cartum, a segurança é muito grande. Não tem assalto e você pode deixar o carro aberto que ninguém mexe", disse Ricardo Ferreira. Mas o brasileiro admite já ter passado por maus pedaços logo depois de chegar ao país africano. Em agosto de 2005, o vice-presidente sudanês morreu em um suposto acidente de helicóptero poucas semanas após assumir o cargo. Frustrados com a morte do líder, dezenas de sudaneses incendiaram carros e destruíram o comércio local. "Fiquei três dias ilhado, em casa, só olhando os grupos de 30 pessoas com pedaços de pau e chicotes passando pela rua", lembrou o técnico. Na fronteira sudeste do Sudão, está o Quênia, onde mora, desde o ano passado, a médica Lucia Aleixo, de 46 anos, que trabalha para a organização Médicos sem Fronteiras. Ela chegou a Nairobi em novembro de 2007 com a missão de cuidar de um laboratório dedicado ao tratamento de infectados com o vírus HIV. Aleixo conta que, até o ano passado, o Quênia era considerado um dos países mais seguros da África para as missões da ONG no continente. Esta realidade, no entanto, mudou com a reeleição do presidente Mwai Kibaki, um mês depois que ela chegou ao país. A divulgação do resultado das eleições, realizadas em 27 de dezembro de 2007, provocaram protestos da oposição e mergulharam o país na pior onda de violência dos últimos anos. Cerca de 1,5 mil pessoas morreram e centenas de milhares tiveram de deixar suas casas. Causa humanitária A médica não poderia imaginar que da sala do laboratório teria de ir para o campo de batalha. Com a escassez de médicos disponíveis, Lucia trabalhou em hospitais atendendo pessoas feridas a facão e a bala. A mineira ainda atuou dentro de um dos vários campos de refugiados montados no país para receber centenas de milhares que fugiam da violência. "No campo, trabalhei com pessoas que perderam tudo, que sofreram muitas agressões, que não têm para onde ir", contou à BBC Brasil. "No início, trabalhei no atendimento médico e, depois, passei a cuidar dos portadores de HIV que haviam interrompido o tratamento por causa da violência".
Foi também a causa humanitária que levou a brasileira Monica Villarindo, de 43 anos, a abandonar o conforto da vida em Brasília para se tornar uma das coordenadoras do programa de voluntariado das Nações Unidas. Depois de passar dois anos no Afeganistão, ela chegou há dois meses ao Timor Leste para atuar na missão da ONU, presente no país desde 1999. O país asiático, que foi colônia portuguesa até 1975 e conseguiu independência da Indonésia em 2002, ainda sofre com a instabilidade política e é o país mais pobre da Ásia. Diferentemente da vida que levava no Afeganistão, onde os riscos de atentado impunham uma rotina que se resumia a ir "de casa para o trabalho e do trabalho para casa", ela conta que ao chegar ao Timor Leste "não sabia o que fazer com tanta liberdade". "Eu tive um pouco de choque cultutral porque, aqui, a gente é livre. Na primeira semana nem sabia como agir", contou. Mas a alegria durou pouco. Uma semana depois de chegar em Dili, o presidente timorense, José Ramos-Horta, sofreu um atentado que quase lhe tirou a vida e levou à imposição do estado de sítio no país, que só agora começa a ser relaxado. Mas ela minimiza a situação, dizendo já ter vivido "coisa muito pior". "Eu sinto que esta é a minha contribuição para o mundo, mostrar como o voluntariado pode fazer uma grande diferença para as sociedades que estão tentando se levantar". A missão da brasileira no Timor Leste terá duração de pelo menos um ano, mas ela pretende renovar o contrato. Do futuro, ela espera poder continuar passando por países onde haja espaço para atuação de voluntários da ONU. *nome fictício. *Colaborou Andrea Wellbaum. |
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