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Atualizado às: 20 de março, 2008 - 10h35 GMT (07h35 Brasília)
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'Le Monde' destaca guerra e mortes nas favelas cariocas
Favela da Rocinha
Segundo jornal, responsáveis por morte raramente são julgados
Os moradores das favelas vivem no fogo cruzado entre traficantes e a polícia, afirma o jornal Le Monde em artigo do correspondente no Rio de Janeiro, Jean-Pierre Langellier publicado nesta quinta-feira.

O artigo começa descrevendo a morte de Ágata Marques dos Santos, 11 anos, por uma bala perdida em um intenso tiroteio entre a polícia e traficantes na favela da Rocinha, em fevereiro deste ano, numa operação policial para capturar o traficante Francisco Bonfim Lopes, conhecido como Nem.

“Na Rocinha, a morte desta jovem, amada por todos, provoca tristeza e cólera”, afirma o jornal, destacando que dois dias depois, duas mil pessoas acompanharam o cortejo fúnebre da menina.

“Em janeiro e fevereiro, outras cinco crianças foram vítimas de balas perdidas em enfrentamentos entre a polícia e traficantes nas favelas do Rio. Três sucumbiram: Wesley, 3 anos, Ludmilla, 6 anos e Yorrane, 11 anos.”

“Os adultos são tão vulneráveis quanto as crianças”, afirma o artigo, que cita um protesto de moradores de Cidade de Deus, por ocasião da morte da empregada doméstica Michele da Silva, no início deste mês. “Os vizinhos e amigos expressaram sua indignação num ato público em que ergueram cartazes dizendo ‘até quando vamos aceitar tanta injustiça?’ e cantaram o refrão do Rap da Felicidade: ‘Eu só quero ser feliz/Andar tranqüilamente na favela onde eu nasci’.”

Segundo o correspondente do Le Monde, testemunhas e amigos afirmam que tanto Michele como Ágata foram mortas por disparos de policiais.

“Os níveis da violência no Brasil chegam a níveis vertiginosos. São registrados 5 mil homicídios por ano. O Estado do Rio bate recordes. Em sete meses, de janeiro a setembro de 2007, a polícia matou 1.300 pessoas, 60% a mais do que no mesmo período, no ano anterior. A cada dia, três jovens com idade entre 15 a 24 anos são assassinados. O Rio é um local estratégico para o tráfico de armas na América do Sul. Um carro é roubado a cada 12 minutos.”

O jornal ainda destaca a má remuneração entre os policiais e os protestos, dentro da força, contra a morte de colegas em ação, e afirma que a maioria dos casos de morte por bala perdida em choques entre policiais e traficantes raramente chegam a ser julgados.

“Ágata, Michele e muitos dos outros são as vítimas inocentes de um combate sem piedade contra os traficantes de drogas, impulsionado pelo governador do Estado do Rio, Sérgio Cabral, com o apoio do presidente (Luiz Inácio) Lula (da Silva). Trata-se de ir buscar os traficantes em sua área de ação, no coração das favelas, correndo o risco de transformar periodicamente essas colinas super populadas em campos de batalha.”

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