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Protagonismo não ajuda integração, diz Marco Aurélio Garcia | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, disse em entrevista à BBC Brasil que o governo prefere ter "uma posição mais discreta" na América do Sul porque uma posição "mais protagônica" ajudaria menos na integração. "A liderança não é uma coisa que se reivindica. A liderança é uma construção coletiva", afirmou. Garcia diz que vê uma situação paradoxal na região, que vive um bom momento econômico, com avanços sociais e presidentes eleitos democraticamente, em que a integração nunca foi tão discutida. Ao mesmo tempo, lembra que continuam existindo crises como a do início do mês, quando a Colômbia invadiu o território equatoriano para atacar um acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). BBC Brasil - Existe, por parte dos outros países da América do Sul, uma demanda por uma certa liderança brasileira e também um certo ceticismo, uma crítica que o Brasil não faz o suficiente. O Brasil não está fazendo o suficiente? Marco Aurélio Garcia - O Brasil tem feito o que tem de fazer. O grande problema é o seguinte: o Brasil não quer uma atitude arrogante, uma atitude de protagonismo exacerbado. A liderança não é uma coisa que se reivindica. A liderança é uma construção coletiva. Nós acreditamos que uma posição muito protagônica do Brasil ajudaria menos o processo de integração. Acho que é preferível estarmos numa posição mais solidária, mais discreta, mas nem por isso menos firme. Na semana passada, nós tomamos uma posição firme, sem nenhuma ambiguidade, e ao mesmo tempo uma posição de pacificação. Eu diria mesmo que o que terminou ocorrendo na República Dominicana (na reunião do Grupo do Rio que encerrou a crise entre Colômbia e Equador) e anteriormente na OEA (Organização dos Estados Americanos), foi em grande medida resultado da nossa própria ação. Ou se pelo menos não foi resultado, coincidiu com a nossa ação. BBC Brasil - Mas, com a ausência do presidente Lula na reunião, o Brasil não perdeu a oportunidade de liderar ou mesmo de participar deste fato? Garcia - O presidente tinha um compromisso com a vinda do presidente (de Portugal) Cavaco Silva que não era possível adiar. Era comemoração de um evento histórico (200 anos da chegada da Família Real), a convite do presidente Lula. Não havia a menor possibilidade de cancelar. BBC Brasil - Alguns críticos acham que ela não está acontecendo e alguns falam até em desintegração da região. Qual é a sua opinião? Garcia - Olha, depende muito dos parâmetros que nós temos. Eu acho que existe uma situação paradoxal. Nós temos um processo de integração em marcha, que está sendo beneficiado pelo fato de que a região está numa situação econômica muito razoável. Está com melhorias sociais também razoáveis, vive uma situação política importante, uma vez que todos os governos são governos democráticos, com eleições recentes, massivamente escolhidos e a região tem uma perspectiva forte de comparecer no mundo num papel relevante. Ao mesmo tempo vemos incidentes como este que surgiu agora. BBC Brasil - O senhor acha que isso dá um pouco o limite do papel do Brasil? Garcia - Acho que isso introduz um complicador, evidentemente. Se você está num processo de integração, e este processo de integração é afetado por incidentes, é evidente que isso torna mais complexo. BBC Brasil - Quais são os principais limitadores da integração? Garcia - Eu acho que hoje em dia temos dois grandes problemas para resolver e uma dificuldade. A situação social do continente ainda é muito desigual e temos também a desigualdade de natureza econômica, as chamadas assimetrias. Temos economias assimétricas na região e não dispomos de todos os mecanismos para corrigir essas assimetrias. Um dos mecanismos é exatamente o que está sendo discutido na Unasul: a integração física, a integração energética, a criação de um instrumento financeiro como o Banco do Sul. E enfrentamos uma dificuldade de natureza política: como os processos políticos são desiguais, como respondem a realidades muito particulares, muitas vezes eles afetam (a integração). BBC Brasil - Os críticos dizem que o Brasil deveria se concentrar mais nos mercados mais ricos e dar menos importância à região. O senhor acha que é realmente a melhor política concentrar tantos esforços na região? Garcia - Não tem a menor dúvida. A esses críticos eu pergunto o seguinte: quando as relações com os Estados Unidos estiveram melhor do que hoje? Nunca. Quando as relações com a União Européia estiveram melhor do que hoje? Nunca. Tanto que há seis meses a União Européia nos convidou para sermos parceiros estratégicos. Isso é uma rematada bobagem, que traz escondido um cacoete de subserviência. A nossa relação com os Estados Unidos é excelente. A nossa relação com a União Européia é excelente. E não é excelente porque Deus quis ou porque caiu do céu. É excelente porque houve uma construção política do governo brasileiro unânime a esse respeito. A questão é se o Brasil quer ser pólo sozinho ou se o Brasil quer ser pólo com a América do Sul. Nós queremos ser pólo com a América do Sul. E para sermos pólo com a América do Sul nós temos que nos empenhar para a construção da unidade sul-americana. Este é o aspecto fundamental. BBC Brasil - E justamente para esta integração, o Brasil, como maior país da região talvez, não teria que fazer um esforço maior, até financeiramente? Qual é o limite para isso? Garcia - Temos limites, mas estamos contornando alguns desses limites. A Petrobras não está investindo pesadamente na Bolívia, o Brasil não tem estimulado e criado todas as condições para a internacionalização das nossas empresas para que elas possam fazer investimentos na Colômbia, na Venezuela, no Peru etc? Nós não estamos financiando em condições relativamente vantajosas investimentos que são de fundamental importância para os nossos países, como as estradas ao norte na Bolívia, o projeto Manta-Manaus com o Equador? Agora, nós temos limites, porque nós também temos problemas internos pra resolver. BBC Brasil - Esse é o limite do Brasil, o fato de o país ter desigualdades internas dificulta a solução das desigualdades regionais? Garcia - Não, não é este porque o problema das desigualdades regionais nós entendemos como um problema nosso também. BBC Brasil - Mas o cobertor dá para tudo? Garcia - Não, o cobertor evidentemente não dá pra tudo. Mas temos feito uma série de mecanismos. Estamos participando do Banco do Sul. O BNDES está estudando mecanismos de ampliar sua atuação na região. Tem muita coisa que está sendo feita. BBC Brasil - Tem alguma relutância do Brasil em liderar este processo? Eu sei que esta palavra liderança é proibida aí no governo. Garcia - Nós temos procurado participar o mais possível. Há uma contradição dos nossos críticos. Tem uns que dizem que nós nos dedicamos exclusivamente à América do Sul e deixamos de nos ocupar com os grandes. E tem outros que dizem que nós não exercemos liderança na América do Sul. Das duas uma: uma posição dessas tem que estar errada. BBC - E qual delas procede? Garcia - Eu acho que as duas estão erradas. |
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