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Problemas internos limitam poder regional do Brasil | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A falta de consenso em torno das vantagens da integração sul-americana e os enormes problemas internos representam algumas das principais barreiras para o Brasil assumir um papel mais preponderante na busca de união regional. Especialistas, diplomatas e políticos divergem sobre a importância da integração para o país e sobre o grau de investimento que deve ser feito no processo. Um dos poucos pontos em comum é que a maioria acredita que os problemas internos do Brasil são um limite à capacidade brasileira de liderar e pagar os custos da integração. “As pessoas não querem (pagar pela integração). A avaliação é: nós não resolvemos os problemas de desigualdades internas, porque vamos resolver os outros, dos vizinhos”, analisa o historiador Amado Luiz Cervo, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco e um dos maiores defensores da atual política externa brasileira. Para analistas, um dos maiores desafios para a integração sul-americana é a grande diferença entre economias regionais e o fato de que muitos países menores acham que países maiores, como o Brasil, devem investir para diminuir essas diferenças, como foi feito na integração européia. Do ponto de vista brasileiro, porém, essa é uma proposta difícil de vender. “Num país com tanta pobreza e desigualdade fica muito difícil dar dinheiro para outro país sem pagar um custo político altíssimo”, diz o cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Disparidades A assimetria entre as economias sul-americanas é ampla. A economia brasileira (a maior da região) é mais de cem vezes maior do que a do Paraguai (a terceira menor, à frente de Guiana e Suriname). No ano passado, o Brasil exportou US$ 31 bilhões para os vizinhos regionais e importou US$ 18,5 bilhões. Um dos motivos da disparidade é a grande sofisticação da economia brasileira diante de países menores, como Bolívia, Peru ou Equador. O Brasil, junto com a Argentina, criou o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem) para tentar diminuir as disparidades dentro do Mercosul. Também foi criado um programa de substituição de importações com o objetivo de comprar mais da região sempre que for possível. No entanto, esses programas são pequenos (o Focem tem fundos de US$ 100 milhões) e o Brasil tem pouco fôlego ou, para alguns, ímpeto de fazer mais justamente por causa das diferentes visões dentro do país. De forma simplificada pode-se dizer que existem dois pólos nessa discussão: um que defende uma integração profunda e outro que olha com mais cautela para o projeto. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Sílvia avalia que uma integração ampla é fundamental para o futuro do país. Durante a recente crise entre Equador e Colômbia, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deixou claro porque o governo defende o aprofundamento da união regional. “Somos defensores de uma integração sul-americana dentro de um contexto mais amplo da integração da América Latina e do Caribe”, disse ele. “Vivemos num mundo de blocos econômicos e políticos. E quanto menos unidos estivermos, mais facilmente seremos vítimas de negociações inadequadas. Estaremos mais longe de conseguirmos nossos objetivos de progresso e desenvolvimento”. Por essa lógica, mesmo que tenha que perder em algumas disputas ou pagar mais caro pela integração, o Brasil se beneficiará no longo prazo. Oposição Mas há quem não concorde com essa estratégia. O ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Barbosa, hoje consultor de empresas, rejeita o argumento de que o Brasil precisa ser “generoso” com os vizinhos mais pobres. “Eu acho que a gente tem que colocar o interesse do Brasil na frente de tudo”, afirma. Barbosa diz que boa parte das demandas dos países menores não são questões relacionadas à integração, mas demandas bilaterais com o Brasil. E cita como exemplo a reclamação do Paraguai para modificar o Tratado de Itaipu para que o país receba mais pela energia que vende ao Brasil, ou o pleito da Bolívia pelo aumento do preço do gás. “São coisas que têm efeito internamente nesses países e que são apresentadas como concessões que o Brasil tem que fazer”, afirma. Ele discorda e acha que o governo não defendeu o interesse nacional quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que compreendia a nacionalização do setor de gás e petróleo na Bolívia. O cientista político e consultor Amaury de Souza também é contra a visão de uma integração como quer o governo e defende uma integração seletiva, que se aprofunde primeiro nos aspectos econômicos para depois se expandir para outras áreas. Ele diz que o Brasil deveria se concentrar em fortalecer o comércio dentro da região, proteger e expandir os investimentos externos e consolidar uma infra-estrutura de transportes e energia.“Já seria uma agenda suficientemente grande para nos ocupar pelos próximos 15 anos”, afirma Souza. A estratégia do governo, porém, tem defensores. Luiz Cervo acha que o Brasil está avançando até o limite possível da integração regional, defendendo o interesse do país. “O Brasil faz como os Estados Unidos, defende o interesse nacional sobre todas as coisas (…) o interesse das empresas, o interesse do trabalhador, do consumidor, do assalariado. Isso está indo bem”, diz. Para ele, um dos limites é o nacionalismo dos outros países. Por isso, ele acha que o governo está certo quando recua e “engole sapos” como no caso da Bolívia. “Não se pode confrontar porque isso colocaria em risco os benefícios da integração e a expansão dos negócios brasileiros”, afirma. Para celebração de alguns e irritação de outros, o Brasil ainda parece distante de chegar um consenso sobre seu papel à frente da integração regional e do preço que está disposta a pagar por isso. |
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