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Repórter registra dificuldades de refugiados no Líbano; veja | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Meses após o conflito em Nahr el-Bared, refugiados palestinos enfrentam frio, falta de medicamentos, comida e indiferença de governo e da imprensa. A BBC Brasil mostra, com exclusividade, imagens de dentro do campo, onde a imprensa não tem permissão para entrar. O palestino Milad Salmeh chegou ao posto de controle militar na entrada do campo de Nahr el-Bared, palco de um violento conflito entre o Exército libanês e militantes radicais do Fatah al-Islam há mais de cinco meses. Ao ver a fila que passa pelo posto, ele sussurrou para outro palestino que esperava junto com outras dezenas de pessoas para entrar no campo. "Teremos problemas para entrar?", perguntou Salmeh ao conterrâneo. "Eles estão complicando de novo, principalmente para os mais jovens", respondeu o outro homem. Quando chegou a vez de Salmeh entrar, os soldados ordenaram que voltasse para o fim da fila. Inconformado, o rapaz teve que voltar outras três vezes ao final da numerosa fila de palestinos para que finalmente o deixassem entrar. Enquanto isso, outros palestinos passavam por humilhações piores. Uma mulher e sua filha de quatro anos foram levadas para uma sala separada para serem revistadas por soldados. A ação causou revolta entre os homens, alguns foram presos. Sem saber que falava com um jornalista, o tenente Haniya resumiu o sentimento de muitos dos soldados libaneses. "Odeio essa gente, e eu não estou aqui para fazê-los se sentir melhor", afirmou. "Vários de nossos colegas morreram, e a culpa é deles." Sobrevivência A recepção fria dos soldados libaneses aos refugiados faz jus ao nome do campo. Em árabe, Nahr el-Bared quer dizer "rio frio". Localizado a 85 km de Beirute e situado entre as geladas montanhas libanesas e a costa do país, o campo é cortado pelo rio que empresta seu nome. Nahr el-Bared é um campo em ruínas. Durante o conflito, mais de 35 mil pessoas fugiram do campo e cerca de 400 morreram, a maioria soldados libaneses e militantes do Fatah al-Islam. Mesmo com o fim dos combates, os problemas dos refugiados apenas começaram. Pouco restou do que um dia foi um dos mais prósperos campos palestinos no Líbano, com lojas de variedades e eletrônicos, freqüentadas inclusive por libaneses. Com pouca ajuda, muitos do campo acharam soluções caseiras para amenizar a situação de famílias que perderam quase tudo. A luta agora é para sobreviver ao rigoroso inverno e à falta de comida e medicamentos. Clínica O médico Tawfic Assad mantém uma pequena clínica em uma rua destruída em Nahr el-Bared e atende em média 30 pessoas por dia. "Quando voltei ao campo, eu sabia que teríamos muito trabalho por fazer", disse. "A falta de medicamentos era um dos principais problemas, especialmente para os mais idosos e as crianças." Assad conseguiu arrecadar dinheiro por meio dos estrangeiros que visitavam o campo e abriu a clínica em um prédio semidestruído. "Eu recebo muitas crianças com desnutrição ou porque só comem arroz e batatas há sete meses", diz. "Verduras e frutas estão escassas e as agências não distribuem o suficiente." O médico, que também perdeu sua casa, salientou a indiferença da mídia e de outras agências humanitárias. "Durante e logo após o conflito, imprensa e ONGs estavam em grande número aqui", conta. "Mas nós caímos no esquecimento, ninguém vem mais aqui." Desde que os combates terminaram, o governo libanês prometeu reconstruir Nahr el-Bared. "Não só não fizeram nada do que prometeram, como ainda dificultam qualquer tentativa dos refugiados em ver suas casas destruídas." Heróis Em várias ruas, soldados libaneses patrulhavam a área e o acesso à parte antiga do campo, a mais atingida pelos bombardeios, foi proibido aos palestinos. As discussões entre soldados e refugiados são comuns. Sem eletricidade, muitas familias, como a de Mohamad Akl, usam a madeira de árvores que foram derrubadas por tanques durante o conflito para fazer fogueiras e se aquecer. "Não temos eletricidade, falta comida e a água é precária. A fogueira é nossa única maneira de nos mantermos aquecidos contra o frio", disse Akl. Quanto mais se avança em direção ao centro do campo, maior é a destruição. Em uma única rua, um pequeno parque, um ônibus escolar e uma clínica da ONU foram destruídas. "Os bombardeios foram tão intensos que nem mesmo escolas e escritórios da ONU eram seguros", diz Salmeh. Idosos Enquanto muitos palestinos fugiram do campo durante os primeiros dias do conflito, outros, como os idosos Ahmad Dib, Ali al-Khatib e Miriam al-Khatib, ficaram por opção. Sentados numa esquina para tomar sol, eles são testemunhas de um drama anterior. Em 1948, eles ainda eram jovens quando, junto com suas famílias, se tornaram refugiados depois da criação de Israel. Com medo de perder novamente suas casas, eles decidiram ficar escondidos em Nahr el-Bared por 30 dias, apesar dos bombardeios. "Muitos nos chamaram de loucos. Mas os mais jovens nos admiram por nossa coragem. Para eles, nós somos agora heróis." |
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