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Mídia explora briga entre Bush e Chávez, diz Lula a TV dos EUA | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em uma entrevista à TV pública americana PBS que a ''briga'' entre o presidente americano, George W. Bush, e o líder da Venezuela, Hugo Chávez, ''está sendo um pouco explorada pela imprensa, pela mídia''. Os comentários do presidente foram feitos durante a entrevista que concedeu em Nova York, a um dos mais tradicionais programas de entrevistas da TV americana, o Charlie Rose, da PBS. A entrevista editada foi ao ar nesta quarta-feira e a BBC Brasil teve acesso à transcrição completa da conversa entre Lula e o apresentador Charlie Rose. ''De vez em quando, eu brinco com o presidente Bush e com o presidente Chávez também. Porque Chávez precisa de Bush para vender seu petróleo. E Bush precisa de Chávez para comprar o petróleo deles. E não sei porque eles se atacam tanto'', comentou o presidente. Mas Lula acrescentou que a tensão entre os dois líderes ''não irá causar qualquer dano às relações democráticas que temos atualmente na América Latina''. O presidente qualificou o seu contato com Chávez como sendo ''muito pessoal'' e disse que a relação entre os dois é a ''a melhor possível''. Bush flexível Indagado pelo entrevistador se ele acredita que Bush irá recomendar que o etanol produzido no Brasil possa ser exportado para os Estados Unidos sem que sejam cobradas tarifas, Lula respondeu: ''Acho que ele está preparado para convencer os produtores de milho nos Estados Unidos a produzir etanol, mas ele não está preparado a reduzir a tarifa de US$ 0,54 cobrada sobre o etanol brasileiro. Mas este é um processo.'' ''Eu sinto que o presidente Bush agora está mais flexível, mais disposto a discutir esse tema.'' Mas o presidente fez críticas ao modelo americano de etanol, produzido a partir de milho, e defendeu o etanol brasileiro, feito de cana de açúcar. ''O milho é uma ração que serve a muitos animais cultivados pelo ser humano. E você pode fazer com que o preço do milho fique muito caro para o resto do mundo. Os preços subiriam. E, acima de tudo, isso tornaria impraticável a compra de carne, devido ao preço do milho, especialmente para o México e os centro-americanos que consomem muita tortilla (uma espécie de pão feito à base de milho). Portanto, eles sofreriam as consequências.'' Lula acrescentou que ''outra coisa importante é que o etanol feito de cana é mais barato que o feito de milho". "Gostaria de pedir a Deus que não apenas os americanos e os brasileiros, mas o mundo todo leve a sério o tema de construir uma nova matriz energética, porque, afinal, não é apenas meu carro que precisa desse tipo de combustível. É o mundo, o planeta que precisa ser mais cuidadoso.'' Conselho da ONU Na entrevista, Lula tratou ainda de um dos principais temas da política internacional do atual governo, o de obter uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, tema de seu discurso na abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira. ''Eu acredito que até o presidente Bush e outras pessoas do governo americano deveriam defender o Brasil, devido à importância que o Brasil tem para a América Latina. O Brasil é um país pacífico, que dá prioridade para políticas de paz.'' O presidente disse acreditar que a postura dos Estados Unidos para os países sul-americanos deveria ser mais ''pró-ativa'', especialmente em relação às nações menores da região. ''Se nós não dermos uma chance para esses países, deixá-los crescer economicamente, criar empregos nesses países, o que essas pessoas farão com suas vidas?'' Segundo Lula, vive-se atualmente um momento de fortalecimento da democracia no continente, ''agora que não temos mais o temor do comunismo, agora que o mundo está mais confortável, que as pessoas aprenderam a resolver conflitos políticos através da democracia''. Doha A Rodada de Doha para a liberalização do comércio mundial - que Lula disse nesta semana estar mais próxima de um acordo do que em qualquer outro momento histórico - também foi um dos tópicos tratados. ''Os Estados Unidos deveriam ter uma postura mais pró-ativa e dizer que é por isso que estamos lutando na Organização Mundial do Comércio e nas rodadas comerciais, para que possamos ter um acordo perfeito. Os Estados Unidos, por um lado, reduziriam os subsídios agrícolas, a União Européia facilitaria o acesso aos nossos produtos agrícolas, e nós, do G20, flexibilizaríamos nossos produtos industriais.'' Assim como afirmou à imprensa brasileira em Nova York, o presidente voltou a falar em tom otmista sobre um desfecho positivo para a rodada.''Estamos perto de alcançar um acordo. Certamente, quem vai ganhar não serão os Estados Unidos, o Brasil ou a União Européia, serão os países mais pobres. É isso que queremos.'' Experiência e corrupção Em determinado trecho, o entrevistador afirmou que Lula chegou à presidência por ''um caminho inusitado'' e pergunta o que ele aprendeu sobre o exercício do poder. O presidente disse que ''há muito tempo, eu nem tinha a intenção de entrar para a política'' e acrescenta que ''por um lado, eu não gosto da política. Eu não gosto daqueles que gostam da política. Nunca pensei que fosse concorrer a qualquer cargo''. Indagado se sentia-se preparado quando assumiu a presidência, Lula comentou que ''hoje posso dizer que graças a Deus que eu não fui eleito em 1989'' e acrescentou que sente isso ''porque acredito que ao esperar 12 anos para ser eleito presidente, eu me preparei bem para isso. Me senti preparado para o exercício do poder''. Charlie Rose também perguntou sobre escândalos de corrupção que surgiram na administração de Lula. ''Corrupção é um assunto muito sério. Não é um problema só para o Brasil. É um problema em todo o mundo. Quanto mais você combate a corrupção, mais aparece corrupção. Se você quer varrer a coisa para debaixo do tapete, isso não vai aparecer na mídia.'' Ao fazer elogios ao programa Charlie Rose, exibido pela emissora pública PBS, Lula voltou a dar uma estocada na mídia. ''Nós precisamos assistir mais a uma TV mais séria. No Brasil, nós não temos uma verdade que permanece na TV.'' |
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