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Disputas devem marcar reunião de bispos em Aparecida | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Tensões entre progressistas e conservadores deverão nortear a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, em Aparecida (SP), durante as discussões sobre grandes temas da atualidade que definirão o futuro da Igreja Católica nos próximos anos. Na assembléia, que começa neste domingo com a presença do papa Bento 16, os participantes se posicionarão a respeito das conseqüências da globalização, que agravou o problema da pobreza, a exclusão do continente e até o aquecimento global. Será determinada ainda a forma como os bispos do continente enfrentarão problemas como a perda de fiéis, a falta de padres e o confronto com questões polêmicas como o aborto, a eutanásia e o uso da camisinha. A "opção preferencial pelos pobres", destacada nas conferências de Medellín e de Puebla, voltará ao centro do debate das duas visões de Igreja que serão confrontadas na conferência latino-americana. De um lado, estão os comprometidos com as bases, em um continente marcado por injustiças, que defendem esta opção não por motivações ideológicas, mas por convicções evangélicas com o intuito de imitar o que Cristo fez. Do outro, a parte do clero mais afinada com o Vaticano, que pretende acentuar a fidelidade à doutrina e a visão de que o problema não é a preferência pelos pobres, mas o modo pelo qual se dá esta opção, porque Cristo não excluiu ninguém. Ênfase Caso os participantes decidam aprovar o documento-base elaborado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), esta opção não terá a mesma ênfase. O texto diz apenas que "a Igreja não pode ficar indiferente à situação de injustiça e de desigualdade social na América Latina". Da conferência de Aparecida, deverão sair as definições da campanha de evangelização que o Celam pretende realizar nos próximos anos. Em seus discursos iniciais no Brasil, o papa Bento 16 descreveu como uma "justa preocupação" da Igreja a fuga de milhões de fiéis católicos atraídos pelo "proselitismo agressivo das seitas". Mas o pontífice afirmou que a causa principal deste abandono é a falta de uma evangelização em que Cristo e sua Igreja estejam no centro de toda a explicação. "Duas posições sobre a figura de Jesus serão analisadas: aquela de um Jesus mais histórico, que está no alto, ou do Jesus defendido pelo teólogo da libertação Jon Sobrino, de um Cristo que questiona os grandes problemas", diz o sociólogo Luiz Alberto Gomez de Souza.
"Será que a teologia defendida pelos bispos será mais questionadora, ou de uma doutrina mais impositiva?" Segundo o teólogo José Oscar Beozzo, há uma aposta pessoal do papa de que os protagonistas desta nova evangelização sejam movimentos mais conservadores (como Shalom, Focolares, Opus Dei, Comunhão e Libertação), com papel importante junto à classe média, mas não a Igreja dos pobres (como as pastorais sociais e as comunidades eclesiais de base). Resta saber também se a campanha será na linha tradicional, dirigida àqueles que já estão dentro da Igreja (pedindo, por exemplo, que sejam amorosos e guardem a castidade), ou se buscará os que estão fora (ampliando o diálogo com os jovens) por meio de um discurso mais desafiador e adequado à realidade. Compromisso político Os progressistas defendem que a evangelização deverá caminhar junto com a promoção humana. Para eles, trata-se de um compromisso político que faz parte do essencial da fé, e não deveria ser utilizada em um confronto direto com as seitas. Para os conservadores, a maneira de tornar a Igreja mais atraente é não ceder à pressão das suas concorrentes evangélicas, investindo na educação religiosa, no combate em defesa da vida e contra o aborto. Muitas polêmicas em torno dos grandes problemas da América Latina, como a exclusão social e a violência, serão analisados na conferência até o final do mês. Temas políticos e ideológicos, como grandes lutas sociais, não deverão ter muito espaço. Mas a atuação da Igreja diante de governos mais comprometidos com os pobres, indígenas e trabalhadores na América Latina também entrará em discussão. "É um novo cenário, que mostra um protagonismo dos pobres no continente", diz Souza. "Isso não poderá deixar de sensibilizar o episcopado em Aparecida". "Anseio de felicidade" No documento do Celam, consta a frase "todo o homem tem um anseio de felicidade". O objetivo é substituir uma visão sócio-analítica do mundo por outra, antropológica e universal, em que a Igreja pretende dar respostas a cada indivíduo. Para isso, o texto defende o ponto de vista de que o exercício da fé cotidiana não significa a participação na vida político-partidária. Neste sentido, o papa apresentou em inúmeras ocasiões a pauta de seu pontificado, em que questões da natureza moral de cada indivíduo se sobrepõem a questões coletivas. Trata-se, por exemplo, de combater o casamento entre homossexuais, a eutánasia, o aborto, o sexo fora do matrimônio. Desafios pastorais, como a união de pessoas do mesmo sexo, o casamento de padres que abandonaram o ministério e o atendimento aos católicos que se divorciaram e se casaram de novo, aparecem brevemente em um mesmo parágrafo no documento. "A Igreja precisa acompanhá-los com amor compassivo", diz o texto do Celam, que também defende o celibato dos padres. No documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), um dos pontos trata da necessidade de repensar os ministérios da Igreja, discutir o celibato para os padres e reconhecer a presença da mulher e de sua participação na vida e na missão da Igreja. O Celam não levou em conta a observação do documento inicial da CNBB, segundo a qual "o acesso das mulheres ao ministério ordenado é uma dívida pendente", e mantém a obrigatoriedade do celibato. O papel das comunidades eclesiais de base também entrará em debate. Segundo o texto, elas "foram com freqüência verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor". Mas hoje "atravessam um momento de dificuldade e de estancamento", o que exige uma análise do episcopado "para detectar as causas e encontrar novas expressões que renovem essa rica experiência da Igreja latino-americana". |
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