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Atualizado às: 13 de maio, 2007 - 14h21 GMT (11h21 Brasília)
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Disputas devem marcar reunião de bispos em Aparecida

Papa Bento 16 reza o rosário na basílica de Aparecida
Analistas dizem que evento é um dos pontos altos da visita do papa
Tensões entre progressistas e conservadores deverão nortear a 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, em Aparecida (SP), durante as discussões sobre grandes temas da atualidade que definirão o futuro da Igreja Católica nos próximos anos.

Na assembléia, que começa neste domingo com a presença do papa Bento 16, os participantes se posicionarão a respeito das conseqüências da globalização, que agravou o problema da pobreza, a exclusão do continente e até o aquecimento global.

Será determinada ainda a forma como os bispos do continente enfrentarão problemas como a perda de fiéis, a falta de padres e o confronto com questões polêmicas como o aborto, a eutanásia e o uso da camisinha.

A "opção preferencial pelos pobres", destacada nas conferências de Medellín e de Puebla, voltará ao centro do debate das duas visões de Igreja que serão confrontadas na conferência latino-americana.

De um lado, estão os comprometidos com as bases, em um continente marcado por injustiças, que defendem esta opção não por motivações ideológicas, mas por convicções evangélicas com o intuito de imitar o que Cristo fez.

Do outro, a parte do clero mais afinada com o Vaticano, que pretende acentuar a fidelidade à doutrina e a visão de que o problema não é a preferência pelos pobres, mas o modo pelo qual se dá esta opção, porque Cristo não excluiu ninguém.

Ênfase

Caso os participantes decidam aprovar o documento-base elaborado pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), esta opção não terá a mesma ênfase. O texto diz apenas que "a Igreja não pode ficar indiferente à situação de injustiça e de desigualdade social na América Latina".

Da conferência de Aparecida, deverão sair as definições da campanha de evangelização que o Celam pretende realizar nos próximos anos.

Em seus discursos iniciais no Brasil, o papa Bento 16 descreveu como uma "justa preocupação" da Igreja a fuga de milhões de fiéis católicos atraídos pelo "proselitismo agressivo das seitas".

Mas o pontífice afirmou que a causa principal deste abandono é a falta de uma evangelização em que Cristo e sua Igreja estejam no centro de toda a explicação.

"Duas posições sobre a figura de Jesus serão analisadas: aquela de um Jesus mais histórico, que está no alto, ou do Jesus defendido pelo teólogo da libertação Jon Sobrino, de um Cristo que questiona os grandes problemas", diz o sociólogo Luiz Alberto Gomez de Souza.

Devota reza em Aparecida cerca de um mês antes da visita do papa
Bispos devem se posicionar sobre como se dará 'nova evangelização'

"Será que a teologia defendida pelos bispos será mais questionadora, ou de uma doutrina mais impositiva?"

Segundo o teólogo José Oscar Beozzo, há uma aposta pessoal do papa de que os protagonistas desta nova evangelização sejam movimentos mais conservadores (como Shalom, Focolares, Opus Dei, Comunhão e Libertação), com papel importante junto à classe média, mas não a Igreja dos pobres (como as pastorais sociais e as comunidades eclesiais de base).

Resta saber também se a campanha será na linha tradicional, dirigida àqueles que já estão dentro da Igreja (pedindo, por exemplo, que sejam amorosos e guardem a castidade), ou se buscará os que estão fora (ampliando o diálogo com os jovens) por meio de um discurso mais desafiador e adequado à realidade.

Compromisso político

Os progressistas defendem que a evangelização deverá caminhar junto com a promoção humana. Para eles, trata-se de um compromisso político que faz parte do essencial da fé, e não deveria ser utilizada em um confronto direto com as seitas.

Para os conservadores, a maneira de tornar a Igreja mais atraente é não ceder à pressão das suas concorrentes evangélicas, investindo na educação religiosa, no combate em defesa da vida e contra o aborto.

Muitas polêmicas em torno dos grandes problemas da América Latina, como a exclusão social e a violência, serão analisados na conferência até o final do mês.

Temas políticos e ideológicos, como grandes lutas sociais, não deverão ter muito espaço. Mas a atuação da Igreja diante de governos mais comprometidos com os pobres, indígenas e trabalhadores na América Latina também entrará em discussão.

"É um novo cenário, que mostra um protagonismo dos pobres no continente", diz Souza. "Isso não poderá deixar de sensibilizar o episcopado em Aparecida".

"Anseio de felicidade"

No documento do Celam, consta a frase "todo o homem tem um anseio de felicidade". O objetivo é substituir uma visão sócio-analítica do mundo por outra, antropológica e universal, em que a Igreja pretende dar respostas a cada indivíduo.

Para isso, o texto defende o ponto de vista de que o exercício da fé cotidiana não significa a participação na vida político-partidária.

 Duas posições sobre a figura de Jesus serão analisadas: aquela de um Jesus que está no alto, e aquela de um Cristo que questiona os grandes problemas.
Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo

Neste sentido, o papa apresentou em inúmeras ocasiões a pauta de seu pontificado, em que questões da natureza moral de cada indivíduo se sobrepõem a questões coletivas. Trata-se, por exemplo, de combater o casamento entre homossexuais, a eutánasia, o aborto, o sexo fora do matrimônio.

Desafios pastorais, como a união de pessoas do mesmo sexo, o casamento de padres que abandonaram o ministério e o atendimento aos católicos que se divorciaram e se casaram de novo, aparecem brevemente em um mesmo parágrafo no documento.

"A Igreja precisa acompanhá-los com amor compassivo", diz o texto do Celam, que também defende o celibato dos padres.

No documento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), um dos pontos trata da necessidade de repensar os ministérios da Igreja, discutir o celibato para os padres e reconhecer a presença da mulher e de sua participação na vida e na missão da Igreja.

O Celam não levou em conta a observação do documento inicial da CNBB, segundo a qual "o acesso das mulheres ao ministério ordenado é uma dívida pendente", e mantém a obrigatoriedade do celibato.

O papel das comunidades eclesiais de base também entrará em debate. Segundo o texto, elas "foram com freqüência verdadeiras escolas que formaram discípulos e missionários do Senhor".

Mas hoje "atravessam um momento de dificuldade e de estancamento", o que exige uma análise do episcopado "para detectar as causas e encontrar novas expressões que renovem essa rica experiência da Igreja latino-americana".

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