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Atualizado às: 10 de novembro, 2006 - 19h48 GMT (17h48 Brasília)
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Brasil não tem infra-estrutura para crescer 5% ao ano

Homens descarregam mercadoria de caminhão
Em 30 anos, gasto com transporte caiu de 2% para 0,5% do PIB
O Brasil não tem infra-estrutura para crescer no ritmo de 5% ao ano desejado pelo governo, segundo a avaliação de especialistas e representantes da indústria ouvidos pela BBC Brasil.

De acordo com os especialistas em infra-estrutura, o crescimento brasileiro não depende apenas da política monetária - que envolve a definição da taxa de juros e do superávit primário - mas também de limitações físicas ao crescimento e ao escoamento da produção.

Os principais gargalos da infra-estrutura são, segundo eles, as estradas, os portos e os projetos de geração de energia.

Eles apontam dois problemas fundamentais: a escassez dos investimentos públicos e a ausência de marcos regulatórios que atraiam o capital privado em áreas que o Estado não consegue investir.

Procurado pela BBC Brasil, o Ministério do Planejamento não quis se pronunciar, mas o pesquisador Fabio Giambiagi, do Ipea (Instituto Econômico de Pesquisa Aplicada), que é ligado ao Ministério, disse concordar em "gênero, número e grau" com a avaliação dos especialistas.

Para Giambiagi, um dos principais desafios do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é justamente criar as condições de infra-estrutura para suportar um crescimento mais robusto. Ainda assim, o economista diz acreditar que uma expansão na casa dos 5% só seja possível na próxima década. "Não temos porto, estrada, energia (para tanto)", afirma Giambiagi.

"Déficit"

A preocupação com infra-estrutura ajuda a explicar a iniciativa do presidente Lula de ter se reunido, na última terça-feira, com os ministros dos Transportes (Paulo Sérgio Passos) e Energia (Silas Rondeau) para pedir ações na área.

“A infra-estrutura atual tanto de transportes e logística como de energia é deficitária”, afirma o diretor da divisão de Infra-estrutura e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Saturnino Sérgio da Silva.

Segundo projeções da Fiesp, se a economia brasileira crescer 4% ao ano, haveria escassez de energia elétrica a partir de 2009. De acordo com os cálculos feitos pela federação, o consumo de energia aumentaria 5,5%, caso o PIB brasileiro crescesse 4%.

 Se o Brasil começasse a ter um crescimento chinês, ele teria que ter investimentos chineses em energia
Pedro Cavalcanti Ferreira, economista da FGV

“Se você projeta esse tipo de crescimento, os projetos de geração de energia previstos hoje já deveriam estar em andamento, mas eles não estão saindo”, afirma Silva, citando o atraso no cronograma de construção das hidrelétricas de Serra do Facão e de Estreito, em Tocantins.

No caso do transporte, ele afirma que o principal corredor de exportações do país, por exemplo, ainda passa pelo meio da cidade de São Paulo. O atraso na conclusão do Rodoanel - que permitiria o escoamento da produção sem passar pela capital paulista - é um dos gargalos de transporte do país.

Teto de 4%

Para o diretor da empresa de consultoria Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (Cieb), Adriano Pires, a economia brasileira tem um teto de 4% para crescer anualmente. A infra-aestrutura atual de transportes e energia impediria um ritmo mais acelerado de expansão.

“Hoje não se tem estrada, porto e energia para superar um crescimento econômico de 4%”, avalia Pires.

“Mesmo crescendo 4%, para ter fornecimento de energia suficiente, você precisa torcer para que chova bastante e para que problemas como a Bolívia (que está renegociando o preço do gás natural vendido às termoelétricas brasileiras) não se repitam.”

Outro problema, segundo Pires, é que investimentos em infra-estrutura demoram entre três e sete anos para poderem ser utilizados pela indústria.

Investimento público e regulação

São Paulo à noite
Para a Fiesp, Brasil pode ter problemas de energia já em 2009

O investimento público em infra-estrutura tem caído no Brasil nas últimas décadas. Segundo um estudo do economista Pedro Cavalcanti Ferreira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a média anual de investimento no setor caiu de 5,3% do PIB, em 1969, para 2,2% em 2004.

“Em transporte, por exemplo, já houve momentos em que se gastou quase 2% do PIB, durante os anos 1970. Hoje o governo gasta menos que 0,5%, chegando no máximo a 0,7% em um ou outro ano”, diz Ferreira.

“Se o Brasil começasse a ter um crescimento chinês, ele teria que ter investimentos chineses em energia”, afirma Ferreira. “Mas que demoram muito tempo para se concretizar ou ficam muito caros.”

No caso da energia, Ferreira acredita que um crescimento acelerado seria acompanhado pela instalação de mais termoelétricas, que podem ser construídas em curto prazo. No entanto, a energia gerada por termoelétricas é mais cara do que a produzida por investimentos de longo prazo, como hidroelétricas.

“Sem infra-estrutura, você não chega a parar de produzir, mas acaba aumentando muito o custo. A produção fica mais cara e as decisões de longo prazo não são ótimas”, afirma.

Para os especialistas, os investimentos privados em infra-estrutura esbarram na falta de marcos regulatórios que incentivem a produção.

“A falta de regulação é o principal obstáculo para todos os setores de infra-estrutura. Faltam marcos legais que atraiam o capital privado”, afirma Pires.

“Esses marcos precisam ter duas características: uma é a modéstia, ou seja, não se tentar inventar um modelo inédito. A outra é o pragmatismo para atender as demandas.”

*Colaborou Carolina Glycerio

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