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Atualizado às: 30 de setembro, 2006 - 14h05 GMT (11h05 Brasília)
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Perda de apoio radicaliza discurso de Morales, diz analista

Evo Morales e General Freddy Bersatti Tudela
Popularidade de Morales caiu para 53% no mês de setembro
A professora de ciências políticas da Universidade Maior de San Andrés, em La Paz, Jimena Costa, acredita que o governo do presidente da Bolívia, Evo Morales, radicaliza seu discurso à medida que perde apoio popular. Segundo a analista, a popularidade de Morales caiu de cerca de 80% em maio, logo após a nacionalização dos hidrocarbonetos, para 53% este mês.

“García Linera (vice-presidente) falou em defender as medidas de Morales com balas. Ministros e deputados oficialistas também sugeriram a violência para proteger ações do presidente”, disse ela, por telefone, em entrevista à BBC Brasil. “Mas desde que chegou de viagem, na semana passada, Morales não desmentiu o que seus seguidores propagaram.” Para ela, um “sinal perigoso para a normalidade institucional”.

Na opinião da analista, o governo Morales possui um duplo discurso. Mas governos e empresas que têm acordos com a Bolívia, destacou, devem agarrar-se às leis do país na hora de discutir com a gestão atual. “A Lei de Hidrocarbonetos, que está em vigor, é, juridicamente, mais forte que o decreto de nacionalização.”

A seguir, os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil - O vice-presidente da Bolívia, Alvaro García Linera, era definido como o mais conciliador e moderado do governo. Mas na semana passada defendeu, segundo a imprensa boliviana, que os indígenas apóiem as medidas do presidente Morales, mesmo que seja com armas e a própria vida. Mais tarde, ele voltou atrás.

Jimena Costa - À medida que o tempo passa, a realidade vai mostrando-se mais clara. García Linera está repetindo um hábito deste governo: o discurso duplo. Para os indígenas, ele diz uma coisa, defende a violência, e para os prefeitos (governadores) dos departamentos (Estados) de oposição, ele fala em diálogo. Mas acredito que ele é mais ele mesmo quando fala para os indígenas.

BBC Brasil - O que dizer para os governos e as empresas que neste momento negociam ou dependem de decisões do governo boliviano?

Costa - Que têm a opção de exigir o respeito às leis. Essa é a única maneira de conseguir que o governo respeite a via institucional e não siga a tentação do caminho autoritário.

BBC Brasil - No caso da nacionalização de hidrocarbonetos, que interessa ao Brasil, esse argumento é possível?

Costa - A Lei de Hidrocarbonetos, aprovada no Congresso Nacional no ano passado, supera, juridicamente, o decreto de nacionalização anunciado em maio. E por enquanto é a lei que está em vigor. Essa lei fala na melhor distribuição dos lucros das petroleiras, mas não define os 82% para o Estado e 18% para as empresas. São discussões de fundo e que envolvem outros assuntos, como no caso da assembléia constituinte. A lei de convocatória da assembléia é clara ao determinar que os projetos sejam aprovados por dois terços e não por maioria simples (como defende o MAS, com apoio do governo Morales). Ou seja, outro desrespeito às leis e que, nesse caso, provoca a rejeição da oposição. E tudo contribui para a instabilidade, a incerteza.

BBC Brasil - Como a senhora define hoje, oito meses depois da posse, o governo do presidente Morales?

Costa - É um governo da dualidade. Morales governa de olho na sua base de apoio, o MAS, que é um partido com diferentes linhas. E à medida que o presidente perde sua capacidade de hegemonia, ele, integrantes do seu partido e agora García Linera radicalizam o discurso. O que, gradualmente, vai afetando seu apoio popular. Em maio, Morales tinha cerca de 80% de apoio popular, em agosto, 67%, e agora, em setembro, 53%, segundo pesquisa do instituto Equipos Mori. É uma fotografia da realidade.

BBC Brasil - Recentemente, voltaram a ser realizados protestos nos departamentos (Estados), como o de Santa Cruz de la Sierra, contra medidas oficiais. Os indígenas, por sua vez, bloquearam o trânsito ao lugar, em defesa das iniciativas do governo, como a assembléia constituinte. A Bolívia está voltando a se dividir?

Costa - O MAS sempre tem um “plano a” e um “plano b”. O “plano a” é o da via institucional, mas que pode ser substituído pelo plano da violência quando não se consegue avançar nas reformas desejadas, quando a oposição começa a gerar problemas para o governo e quando surgem os conflitos sociais. O “plano b” é a perigosa via da violência e do autoritarismo, da defesa das medidas oficiais à bala. E esse jogo envolve tanto Morales quanto García Linera. E quando percebem que perdem apoio, radicalizam o discurso.

BBC Brasil - A senhora tinha dito que a troca do ex-ministro Andrés Soliz Rada por Carlos Villegas, no Ministério de Hidrocarbonetos, enfraquecia Morales, já que o primeiro é ligado a ele e o segundo a García Linera.

Costa - Como te disse, esse é um filme que cada dia vai ficando mais claro.

BBC Brasil - Muitos diziam que García Linera, que esteve no Brasil, negociando, é mais moderado que Morales. Então, os dois são iguais? Defendem as mesmas idéias?

Costa - Em termos de defesa da democracia, ganha Morales. Ele foi sindicalista, foi deputado, defendeu eleições. Mas suas decisões dependem das pressões que sofra das bases, do MAS. García Linera não entrou para a política pela via institucional. Ele esteve preso, defendeu a luta armada e não surpreendeu em falar em armas diante dos indígenas (na semana passada). Mas ele reúne, dentro do MAS, o maior grupo de tecnocratas, de profissionais, como é o caso do Villegas.

BBC Brasil - García Linera esteve em Brasília, onde reuniu-se com o governo brasileiro para falar sobre a nacionalização dos hidrocarbonetos, e também esteve nos Estados Unidos para discutir a renovação do acordo de preferências comerciais (em troca do combate à plantação da folha de coca).

Costa - Ele atua como o verdadeiro chanceler. Mas não é que radicalizou sua postura depois destas viagens. Esse é um governo do duplo discurso. Quando García Linera estava nos Estados Unidos, Morales chamou (George W.) Bush de terrorista. E quando faltava pouco para a reunião com o governo brasileiro e a Petrobras, Soliz Rada, que é de seu grupo político, adotou a medida das refinarias. Insisto, é o governo da dualidade e tomara que não continue radicalizando seus discursos e medidas, porque temo pelo que poderá acontecer, outra vez, com a Bolívia.

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