BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 28 de setembro, 2006 - 03h31 GMT (00h31 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Caio Blinder: Bush tenta conter 'fogo amigo' entre aliados

Pervez Musharraf, George W. Bush e Hamid Karzai
Musharraf (E), Bush (C) e Karzai estiveram reunidos em Washington
Nas guerras de George W. Bush há as provocações e insultos de inimigos como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad e o venezueleno Hugo Chávez, mas existe também o esforço cada vez mais suado e crucial para conter o "fogo amigo" de aliados como os presidentes do Paquistão, Pervez Musharraf, e do Afeganistão, Hamid Karzai.

Na quarta-feira à noite, os dois dirigentes foram convocados por Bush para um jantar na Casa Branca. O cardápio era leve (sopa, salada e peixe), mas a conversa pesada, destinada a aparar as arestas em um momento especialmente inquietante de ressurgimento do Talebã e de necessidade de mais coordenação para capturar Osama bin Laden.

Nos últimos dias, acirrou-se a troca de recriminações entre os dois dirigentes, em particular em intermináveis entrevistas às televisões americanas, nas quais Musharraf aproveita também para promover sua autobiografia com o sugestivo titulo "In the Line of Fire".

Para Karzai, o presidente paquistanês fornece santuário para militantes do Talebã, e o acordo que ele fez com chefes tribais na fronteira dá munição para o ressentimento do líder afegão, pois para todos os efeitos deixa a área, conhecida como "Jihadistão", sob o controle de radicais islâmicos. Musharraf rebate que Karzai deveria assumir sua própria incompetência para conter o ressurgimento do Talebã.

Na troca de recriminações há verdades. Musharraf atua com sua tradicional dubiedade, jogando ao lado dos americanos, mas também se autopreservando dentro de casa (ele já sofreu três tentativas de assassinato). Vale lembrar que até sua derrubada com a invasão americana em outubro de 2001, o Talebã governava com apoio paquistanês. Já Karzai é caridosamente apelidado de "prefeito de Cabul", pois sua esfera de influência não vai além da capital.

Os americanos apóiam Musharraf na falta de outra alternativa, e de tempos em tempos ele precisa ser amaciado com jatos F-16 ou prensado na parede. O próprio Musharraf alegou em uma entrevista à TV CBS que após os atentados do 11 de setembro seu chefe de inteligência foi advertido por Richard Armitage, o então lugar-tenente do ex-secretário de Estado Colin Powell, que o Paquistáo seria bombardeado até "voltar à Idade da Pedra" caso não cooperasse na chamada guerra contra o terror.

Dificuldades subestimadas

A rigor, sem cooperação de Musharraf é praticamente impossível neutralizar o Talebã e fica muito díficil capturar Osama Bin Laden. Mas é dentro do Afeganistão que a situação está cada vez mais dramática. Ao contrário de Musharraf, Karzai sempre foi homem de confiança de Bush, escolhido para ser garoto-propaganda da transformação democrática e modernização pós-11 de setembro.

Mas agora, como no Iraque, a tarefa de reconstrução afegã é uma decepção, mais um caso de subestimação das dificuldades pelo governo Bush. Existem desilusão popular, fraqueza do governo central, corrupção e o Talebã ocupa o vácuo de poder criado pela presença relativamente leve de tropas americanas e da Otan.

A resistência dos radicais islâmicos se revelou mais resoluta do que se imaginava. Na avaliação de James Dobbins, o enviado americano do Afeganistão de 2001 a 2002, não se soube tirar vantagem da relativa tranqüilidade no país que se seguiu à invasão. Agora será bem mais difícil consolidar uma nova ordem em meio às advertências de que o Afeganistão pode se tornar outro Estado falido.

Mais do que isto, o comandante supremo da Otan, general Jim Jones, disse em depoimento no Congresso americano na semana passada que o país está a caminho de se tornar um "narcoestado". O presidente Karzai permitiu o rearmamento de milícias privadas, cujos chefes também comandam o tráfico de ópio e heroína.

Do lado do Talebã, também há alianças com os traficantes. Um dos poucos negócios que florescem no Afeganistão é o cultivo de ópio. A produção este ano disparou para 6 mil toneladas, um aumento de quase 50% em relação a 2005.

Este novo-velho Afeganistão é um pesadelo para Bush. Como Musharraf, seu aliado pouco confiável, o presidente americano está na linha de fogo, acusado pela oposição democrata e vários generais da reserva de ter desviado recursos e atenção da missão afegã para a guerra no Iraque.

George W. BushCaio Blinder
Bush recupera saúde política, mas futuro ainda é incerto.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade