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Atualizado às: 11 de agosto, 2006 - 18h20 GMT (15h20 Brasília)
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Bons salários 'compensam' abusos de domésticas em Massachusetts

Padaria brasileira em Framingham
Estima-se que um quarto da população de Framingham seja brasileira
Basta andar pelas ruas de Framingham para se sentir no Brasil: na padaria, que vende pão francês e queijo branco, o cheiro de pão-de-queijo fresquinho e o caldo-de-cana feito na hora não deixam dúvidas de que todos que trabalham ali são brasileiros. Assim como os clientes.

Ao passar pelo salão de beleza, pelo restaurante por quilo e pela loja de remessas de dinheiro, percebe-se que Framingham é mesmo diferente. Apesar de ficar perto de Boston, em Massachusetts, no nordeste dos Estados Unidos, a maioria das pessoas nas ruas e dentro das lojas só fala português.

Estima-se que um quarto da população de 67 mil habitantes da cidade seja brasileira. De acordo com a Câmara do Comércio da região de Metrowest, as lojas brasileiras representam 52% do total de estabelecimentos comerciais da cidade.

Uma pesquisa da associação comunitária BRAMAS (Brazilian American Association), realizada com 500 brasileiros, revela que a maioria da comunidade brasileira é formada por jovens, sendo mais da metade proveniente de Minas Gerais.

O estudo também revela que a maioria das mulheres na cidade trabalha com limpeza.

De acordo com o professor-assistente da Universidade de Massachusetts-Lowell, Eduardo Siqueira, a maioria das mulheres que chega do Brasil acaba no ramo da limpeza porque é o trabalho mais rentável existente para imigrantes que não têm visto para permanecer no país e que não falam inglês.

"A renda delas é a melhor renda do trabalhador brasileiro aqui. É renda de classe média. Elas ganham mais do que eu, se bobear", afirma Siqueira.

A maioria das housecleaners – como são chamadas as pessoas que limpam casas – recebe por casa limpa e não por hora. Dependendo do tamanho da casa, este valor varia de US$ 30 a mais de US$ 200. Com uma equipe de duas a quatro pessoas, elas podem limpar até sete casas por dia.

"Se pensarmos no pagamento por hora, as housecleaners costumam receber entre US$ 30 e US$ 40", afirma Mônica Chianelli, que trabalha no Centro da Mulher Brasileira e é housecleaner.

O salário mínimo nos Estados Unidos é de US$ 5,15 por hora e o de Massachusetts é um pouco maior, de US$ 6,75.

Hierarquia da limpeza

Muitas mulheres, principalmente as recém-chegadas, recebem bem menos do que os US$ 40 por hora mencionados por Mônica. Muitas vezes o valor chega a ser inferior ao salário mínimo de Massachusetts, como no caso da mineira Priscila da Silva, de 22 anos.

Priscila limpa de seis a sete casas por dia e chega a trabalhar até 12 horas diariamente. Ela é helper, ou seja, ajuda a "housecleaner-titular" na limpeza. São as helpers que normalmente ficam com o trabalho mais pesado, como a limpeza dos banheiros e das cozinhas.

No Brasil, Priscila era merendeira num colégio em Ipatinga, Minas Gerais. Recebia R$ 500 por mês.

"Não era muito bom. Eu tinha muita conta para pagar e era muito pouco."

Dois anos atrás, Priscila resolveu deixar seu filho no Brasil para ganhar dinheiro nos Estados Unidos. Começou a trabalhar como housecleaner, para uma brasileira que, diferentemente dela, falava inglês e tinha visto de permanência no país.

"O brasileiro aqui não é unido. É só falar um pouco de inglês que eles te maltratam. Tem brasileiro que nem fala português com a gente. E eles acham que por você não ter documento você não pode trabalhar com nada e te maltratam", explica Priscila.

"A primeira pessoa para quem eu trabalhei me tratava como um cachorro, gritava comigo. Eu não podia comer na casa que eu limpava porque ela dizia que a comida fedia. Tinha de comer bolacha ou comer no carro, quando ia de uma casa para outra."

Priscila agüentava a situação para liquidar a dívida de US$ 15 mil que fez para entrar nos Estados Unidos. Além disso, por não ter documento para ficar no país, ela achava que não tinha direito de reclamar.

Direitos dos indocumentados

Porém, o Centro do Imigrante Brasileiro, uma organização não-governamental fundada para auxiliar os brasileiros em Boston, descobriu que a Procuradoria-Geral de Massachusetts julga casos trabalhistas sem levar em conta o status legal do imigrante.

"A maioria das pessoas não sabe que a lei de Massachusetts protege também os imigrantes indocumentados. Por isso, as pessoas acabam se sujeitando a condições de abuso durante meses e até anos", diz Fausto da Rocha, diretor do centro.

A lei trabalhista é diferente de estado para estado nos Estados Unidos. Em Massachusetts, o valor da hora extra é 50% maior do que a hora normal e todo o tempo trabalhado após 40 horas semanais é hora extra.

Além disso, o trabalhador tem direito a férias, que podem ser não-remuneradas, além de meia hora de almoço a cada seis horas trabalhadas.

"Na limpeza de casas, normalmente nada é respeitado, só o salário", diz Rocha.

Mulheres grávidas têm 40 dias de licença-maternidade, que podem ser não-remunerados.

"O que normalmente acontece é que, quando a mulher engravida, outra é contratada para substitui-la e na hora em que ela tenta voltar, não é mais recontratada", explica Rocha.

Outro golpe comum, segundo Rocha, é o calote. "Oitenta por cento dos donos de 'empresas de limpeza' pagam; o resto dá calote. Além disso, praticamente todos os empregadores ignoram o adicional de 50% na hora extra. Se pagarem menos de US$ 12, podem ser enquadrados por trabalho escravo", diz.

Exploração

Os casos mais comuns de abusos na área de limpeza de casas registrados pelo Centro do Imigrante estão relacionados a pessoas que não receberam o salário combinado previamente com o empregador.

Fundado há 11 anos, o centro, que conta com uma equipe de 7 pessoas, recuperou no ano passado US$ 1,5 milhão não pagos a funcionários.

Outro grupo criado na mesma época é o Centro da Mulher Brasileira, que, diferentemente do Centro do Imigrante, não se considera uma entidade prestadora de serviços.

"O que nós queremos é que a sociedade brasileira da região se conscientize de sua capacidade de resolver seus próprios problemas", explica Heloísa Galvão, uma das fundadoras.

Segundo ela, a discriminação em relação ao brasileiro em geral e à housecleaner em particular, é muito grande.

"Ela (a discriminação) vem de todo mundo. O americano acha que todo mundo é indocumentado, vem de um país atrasado e, portanto, é menos culto. O brasileiro que está aqui há mais tempo e fala inglês acha que o novato é menos qualificado e muitos aproveitam para explorá-lo."

A exploração fez Priscila refletir se valeu a pena sacrificar sua vida junto ao filho, que ficou no Brasil, para ganhar dinheiro nos Estados Unidos. Ela liquidou a dívida de US$ 12 mil em um ano e há um ano está juntando dinheiro.

"Meu trabalho no Brasil não dava muito dinheiro. Mas pelo menos lá ninguém grita com você, ninguém te explora. Ninguém se acha mais do que você e ninguém quer te humilhar."

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