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Atualizado às: 07 de julho, 2006 - 11h16 GMT (08h16 Brasília)
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Depoimento: A tragédia de Londres que passou por um triz

King's Cross
Maior parte das vítimas de ataques morreu na estação de King's Cross
No dia 7 de julho de 2005, Londres amanheceu mais feliz. Um dia antes, a cidade havia sido escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 2012, vencendo Paris na reta final. As manchetes dos jornais e mesmo o semblante dos londrinos deixavam claro o bom-humor que tomara conta da maior parte dos habitantes da capital.

Por conta de um atraso, decidi aposentar a bicicleta com a qual costumava ir ao trabalho e optei pelo metrô. A estação mais próxima à minha casa era a de Finsbury Park, no norte da cidade. Acabei só chegando à estação por volta de 8h45 (5h45 em Brasília), 30 minutos após o horário que pretendia.

Logo descobri que aquele atraso talvez tenha salvo a minha vida. O metrô tardou mais do que o habitual e após finalmente ter saído da estação de Finsbury Park, o metrô empacou na estação seguinte, sem razão aparente. Alguns minutos depois, surge o anúncio no alto falante de que estávamos enfrentando uma falha de energia, mas que dentro de alguns minutos o trem iria partir.

Os minutos foram se passando, novos anúncios em tom semelhante sendo feitos nos alto-falantes, mas nada de o trem prosseguir. O vagão estava cheio e fazia calor, mas nada disso parecia arrefecer o humor dos londrinos.

Quando, finalmente, um funcionário do metrô entrou no trem para realizar alguma operação de manutenção, ele teve de passar entre a multidão com certa pressa para ir de um vagão ao outro, mas acrescentou: "Com licença, senhoras e senhores, vou dar a volta olímpica". O comentário foi recebido às gargalhadas.

Após mais de uma hora dentro do vagão, os anúncios começaram a se tornar mais incisivos. Primeiro, a falha energética era em toda uma linha do metrô. Mais tarde, após mais de uma hora e meia, novo anúncio, mas, desta vez, a retificação de que a aparente falha era em toda a rede de metrô.

Por esse motivo, nós teríamos de voltar para estação anterior. De onde saltaríamos do trem e teríamos de buscar transportes alternativos de modo a prosseguir viagem.

Sem indícios

O incidente todo parecia estranhíssimo, mas até então a idéia de que a cidade havia sido atingida por uma série de atentados à bomba não me passara pela cabeça. Mas comecei a dar como certo de que o metrô fora vítima de alguma forma de sabotagem. Mas nada além disso.

A maneira como se deu a retirada dos passageiros do trem reforçou essa idéia. O condutor anunciou que um outro trem encostaria naquele em que nos encontávamos. Seríamos todos transferidos para o novo trem, que retornaria uma estação e seria esvaziado.

Quando conseguimos saltar e voltar à superfície, estava claro que alguma coisa grave havia se passado. Era difícil precisar exatamente o que ocorrera. Telefones celulares não podiam ser usados porque não havia cobertura.

Finalmente, consegui ligar para a redação da BBC Brasil e fui orientado a seguir para a estação de Liverpool Street, onde ocorreu a primeira de uma série de explosões na cidade.

Mais tarde, soube que a primeira explosão foi registrada às 8h49, minutos após minha chegada à estação de metrô. Nos dias seguintes, soube também que entre as vítimas dos ataques havia pessoas que tinham pego o metrô na mesma estação, a de Finsbury Park. Muitas destas faziam um percurso idêntico ao meu, passando pela estação de King's Cross, uma das mais movimentadas da cidade e local em que morreram a maior parte das vítimas dos ataques.

Cidade fantasma

Todo o sistema de transportes da cidade estava parado. A maneira mais fácil de se deslocar pela cidade era a pé. Os táxis chegavam a fazer lotações. Ao se aproximar de Liverpool Street, região do movimentado coração financeiro da cidade, parecia que estava indo para uma cidade fantasma, uma vez que andava em sentido oposto ao da multidão.

Os tradicionalmente reservados britânicos puxavam assunto com qualquer um para saber mais sobre os atentados. Pessoas que você nunca havia visto davam conselhos em tom fraterno: "Se cuide, tome cuidado". Era comum ver homens e mulheres chorando pelos cantos. Mas outros, mais munidos de iniciativa, se prontificavam a ajudar bombeiros e policiais.

Naquele dia, participei da cobertura da BBC Brasil e percorri vários pontos onde houve atentados, fazendo relatos por telefone. A impressão era de que me encontrava em uma cidade diferente. Os ataques revelaram um lado pouco conhecido dos britânicos. Eles se mostravam afetivos, solidários e com emoções à flor da pele.

Se é possível reter qualquer memória positiva daquela tragédia que passou tão perto de mim, é essa a lembrança que preservo. Londres perdeu muitos de seus habitantes no dia 7 de julho de 2005. Mas o espírito solidário dos moradores da cidade impediu que a capital britânica caísse no desespero.

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