BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 19 de setembro, 2005 - 22h04 GMT (19h04 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Incapacidade de identificar classe social causa pobreza invisível, dizem especialistas

Casa na Cidade de Deus
Casa na Cidade de Deus, onde vivem 24 famílias no norte de MG
"Eu quero um lugar para morar, não tenho lugar para morar. Tenho três filhos, e meu marido é parado, não tenho lugar para ficar."

O lamento é de Sueli Rodrigues, moradora de Cidade de Deus, um acampamento onde vivem 24 famílias na periferia de Montes Claros, norte de Minas Gerais.

A região é uma das que têm menor Índice de Desenvolvimento Humano no sudeste brasileiro, e Sueli engorda as estatísticas sobre a pobreza extrema no país.

"Este não é um país pobre, mas é um país com muitos pobres", comenta André Urani, economista e diretor do Iets, o Instituto de Estudos do Trabalho e da Sociedade e pesquisador sobre temas como pobreza e desigualdade.

"Setenta e oito por cento da humanidade vivem em países mais pobres que o Brasil, segundo dados de 1993. A principal causa da pobreza é a desigualdade. Se nós tivéssemos uma desigualdade compatível com a nossa capacidade de gerar renda, nós teríamos 60% de pobres a menos", diz ele.

Problema de identificação

Segundo o economista, um dos problemas que hoje contribuem para esta desigualdade é a incapacidade dos brasileiros de identificar a própria classe social.

"Para você estar no 1% mais rico do Brasil, você precisa ter renda familiar per capita, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio) de 2002, de R$ 3.150. Para fazer parte dos 10% mais ricos, basta ter uma renda familiar per capita acima de R$ 815. Para estar na metade mais rica do Brasil, a renda precisa ser de R$ 200", diz Urani.

"As pessoas se chocam muito ao perceber que, na verdade, elas não estão onde imaginam."

Para os especialistas, este problema de identificação de classe social acaba causando o que hoje é chamado de pobreza invisível.

É uma pobreza que não é registrada, que muitas vezes não está em cadastros. Faz parte desse grupo a camada da população mais necessitada e que deveria ser priorizada no acesso aos programas sociais do governo, mas que acaba escondida por outras, menos pobres, mas mais organizadas e "visíveis".

Gastos sociais

Segundo o economista e pesquisador do Ipea Ricardo Paes de Barros, um dos maiores especialistas em políticas sociais do Brasil, as políticas existentes hoje no país são suficientes, bem como o orçamento.

"Hoje o governo gasta 20% do PIB em políticas sociais. O Brasil tem praticamente um leque completo de políticas sociais, programas de toda a natureza, nas áreas de saúde e assistência social", diz ele.

Mas grande parte desses programas – como o seguro desemprego e o abono salarial - não chega aos mais pobres, já que são voltados para quem tem, pelo menos, um vínculo de emprego formal. Uma das características de quem vive na pobreza extrema é não ter emprego formal, ou carteira assinada, o que os priva desses benefícios.

"A gente também tem uma série de programas que chegam aos mais pobres, mas hoje não sabemos muito bem qual é a efetividade que eles têm, em que medida eles são bem adaptados, desenhados para mudar a cara da pobreza. Para isso, a gente precisaria ter um sistema de avaliação das políticas sociais muito mais desenvolvido do que temos", diz Paes de Barros.

Na verdade, um dos grandes problemas para que os programas cheguem a eles, e para que esta avaliação seja feita, é identificar quem são esses mais pobres. Hoje sabe-se que metade das crianças entre zero e dois anos de idade e dois terços dos negros e mestiços engrossam este número.

Programas

A pobreza extrema está em todo o país, mas principalmente nas periferias das grandes cidades, em algumas áreas rurais, e esses grupos são formados normalmente por famílias chefiadas por alguém que não tem vínculo empregatício formal e tem pouca escolaridade. Mas, com esses dados, ainda não é possível encontrá-los um a um.

Paes de Barros explica que o governo espera a publicação da última Pnad, com dados de 2004, para ter uma idéia, pelo menos, de quantos desses pobres não estão sendo beneficiados hoje pelos programas de transferência de renda do governo, como o Bolsa Escola, o Bolsa Família ou o Peti – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

"Vamos saber quantos são, mas não quem são ou onde estão, que é o mais importante. Para a gente conseguir saber quem são os pobres que estão de fora, onde eles estão, qual o endereço deles, a gente precisa melhorar o cadastro único que temos no Brasil, que é a base para a distribuição do Bolsa Família", diz.

Apesar de não ter informações precisas sobre quantos são os que estão de fora, o economista afirma que se trata de uma parcela considerável da população.

Sem entrar para algum banco de dados como os "mais necessitados", essa camada da população não tem muitas chances de ser incluída em qualquer programa.

Às vezes, eles estão incluídos em um, mas têm direito a vários outros, dos quais não têm sequer conhecimento.

66Quiz
Quem tem poder no mundo? Teste seus conhecimentos.
66Em imagens
Celebridades contam quem manda no mundo delas.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade