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Violência comanda o mundo de moradores de favela do RJ | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
"O mais difícil agora na Nova Holanda é a violência. Isso é o que está marcando tanto jovem, como adulto, como criança... isso é o que está marcando. Eu tenho visto muita coisa, muita crueldade, muita maldade, e isso é o que deixa a gente muito triste de morar em uma área mais carente." Dona Ana, moradora da comunidade de Nova Holanda, no Complexo da Maré, na cidade do Rio de Janeiro, desabafa dentro de casa sobre as condições em que vive. Com 132 mil habitantes, nos arredores da Avenida Brasil e de outras comunidades populares, o Complexo da Maré é hoje uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Além de problemas como a falta de escolas suficientes para as crianças e jovens - são apenas dez escolas primárias e duas secundárias, quando 40% da população tem até 24 anos -, a comunidade também sofre, principalmente, com a falta de perspectivas para seus jovens. Violência Apesar da falta de estrutura, ainda é a violência o principal motivo de queixa. Fábio Douglas, estudante universitário e também morador de Nova Holanda, afirma que os moradores se sentem constrangidos ao falar da violência. "Existe violência do tráfico e da polícia. Nós falamos pouco sobre a violência da polícia porque há um certo constrangimento. A violência física é violência física, aquela que tem conseqüências maiores", diz ele. Mas se nas ruas é difícil encontrar alguém disposto a falar, dentro de casa, uma moradora, dona Helena, conta que perdeu um filho de criação com bala perdida em tiroteio. A irmã dela, dona Ana, também fala sobre o caso de um amigo evangélico, morto por tiro da polícia na comunidade. "No tráfico, em si, há briga, há violência ente eles, mas quando a polícia está presente, é muito mais, porque eles não respeitam, e todos que moram na favela são considerados marginais. Eu perdi um amigo que era evangélico. Rapaz direito, estava chegando do trabalho quando teve uma invasão de policiais encapuzados. Morreu porque a polícia não quis saber se era bandido ou não e saiu atirando", diz Ana. "Os moradores pobres da periferia em geral são negados de sua condição de cidadão pleno da cidade, então, embora sendo cidadãos, eles são vistos de forma tutelada ou como carentes", explica Jaílson de Souza e Silva Filho, coordenador geral do Observatório de Favelas, um instituto que estuda direitos humanos, violência e serviços públicos nas favelas. Jaílson - que cresceu na periferia do Rio de Janeiro - defende que se trate os moradores de comunidades populares como qualquer cidadão, para que eles tenham seus direitos respeitados desde o princípio. "A cidadania tem que ser ponto de partida, não de chegada", diz ele, que afirma também que, a partir do momento em que alguém é classificado como "excluído", isso reforça a idéia de dois mundos, um com incluídos e o outro, dos pobres e renegados. Para Jaílson, essa divisão em dois mundos também contribui para que os moradores das favelas sejam vistos como muito mais "descartáveis" do que os das áreas nobres da cidade, e os jovens, como potenciais criminosos. Segundo ele, não foi à toa que as grandes chacinas cometidas nos últimos anos no Rio de Janeiro ocorreram em Vigário Geral, Acari, Queimados ou mesmo contra os meninos de rua na Candelária - todas áreas com população de baixa renda. "Para mim não faz o menor sentido falar da existência de um cara com fuzil no Leblon, Ipanema ou outros espaços formais da cidade, assim como não faz o menor sentido aceitar que haja uma pessoa de fuzil dentro do Cantagalo, da Maré, do Alemão ou da Rocinha", diz ele. "Só vai haver uma cidade plena, efetivamente democrática, quando houver uma mesma política que leve em conta as diferenças." |
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