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Queda de Dirceu acirra embate no Congresso | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O anúncio da saída de José Dirceu do cargo de ministro-chefe da Casa Civil marca o início de uma reestruturação do governo após a crise desencadeada pelas denúncias de irregularidades nos Correios e do suposto pagamento de uma 'mesada' pelo PT a parlamentares da base aliada. Na opinião do cientista político Fabiano Santos, diretor executivo do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro), o governo tenta apresentar a queda de Dirceu como um esforço de rearticulação de sua base de apoio no Congresso e como uma reação aos ataques da oposição. “A estratégia do governo está muito clara que é a de retomar a iniciativa no Legislativo”, afirma. “Há algum tempo, o governo tinha perdido essa capacidade de agir e, agora, demonstra uma vontade de reagir nesse sentido.” Por outro lado, Santos destaca que a oposição procura apontar a mudança na Casa Civil como a “capitulação” da “principal figura” do governo Lula. “Isso seria um indicador (para a oposição) de que Lula teve que fazer isso porque certamente alguma coisa ele (Dirceu) fez de errado”, diz o cientista político. “Vamos ficar nesse embate, e vai caber ao governo tentar virar o jogo ao longo do processo na CPI (dos Correios) e na sociedade”, acrescenta o diretor do Iuperj. Afastamento Em pronunciamento no início da noite de quinta-feira, ao anunciar que estava deixando a Casa Civil, Dirceu afirmou que sai do ministério “de cabeça erguida”. “Não me envergonho de nada que fiz no governo do presidente Lula”, disse. “Tenho as mãos limpas, o coração sem amargura e tenho a mente sempre colocada naquilo por que sempre lutei, que é pelo Brasil, pelo povo brasileiro.” Já na carta enviada ao presidente Lula para pedir o afastamento do cargo, Dirceu declarou que tomou a decisão “diante dos graves ataques desferidos nos últimos dias” ao governo. O ministro acrescentou ainda que, como parlamentar, poderá “esclarecer os temas que ocupam a atenção da opinião pública” e rebater “aqueles que tentam agredir o Executivo, o Partido dos Trabalhadores” e o próprio Dirceu. Em resposta ao pedido de afastamento do ministro, Lula enviou a Dirceu uma carta em que expressa “apreço” por sua “lealdade, dedicação, competência e honestidade no trato da coisa pública”. “Compartilho seu sentimento de que esta decisão permitirá a você melhor defender nosso Governo, nosso partido e sua própria pessoa”, afirma o presidente. Waldomiro No Congresso, alguns dos principais líderes da oposição elogiaram a saída de Dirceu do governo, mas afirmaram que a decisão já deveria ter sido tomada há mais tempo. “Ele deveria ter tomado (a decisão) há mais de um ano, quando estourou o episódio Waldomiro Diniz”, disse o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, em uma referência ao escândalo que envolveu o ex-assessor de Dirceu. “Isso dá ao presidente Lula a oportunidade de mexer fundo no seu governo”, acrescentou. Virgílio declarou ainda que a mudança no governo não deve interferir nas investigações das denúncias contra os partidos da base de apoio ao governo. “Se o ministro José Dirceu, eu ou qualquer outro morrermos todos, ainda assim tudo vai ser investigado até o fim no Congresso, pois isso é o que a sociedade deseja”, afirmou o líder do PSDB. Para o líder do PFL no Senado, Agripino Maia, a saída de Dirceu do governo era inevitável. “Não havia alternativa. Isso estava contingenciado, a não ser que Lula fosse conivente com a impunidade”, disse. “Dirceu foi demitido porque é acusado de saber do pagamento de mesada a parlamentares”, afirmou o senador do PFL. “O presidente Lula está se livrando de um aspecto negativo”, acrescentou. Reforma Em Brasília, a expectativa é de que a saída de Dirceu seja o primeiro passo de uma reforma ministerial mais ampla, que incluiria a extinção de algumas pastas, uma presença maior do PMDB e do PP no governo e a volta ao Congresso de outros parlamentares petistas que atualmente ocupam cargos no governo. “Pode ser que seja necessário recolocar um conjunto maior de lideranças no Congresso, lideranças que estão no ministérios”, afirma o cientista político Fabiano Santos. “Vai caber ao governo avaliar.” Para Santos, o governo terá o desafio de convencer a opinião pública de que a tentativa de fortalecer a ação política governamental no Congresso não é apenas uma satisfação à imprensa e à oposição. “A mensagem a ser transmitida para a sociedade é que não há, por parte do governo, uma ação de fraqueza, e sim uma iniciativa”, conclui o diretor do Iuperj. |
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