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Grandes instalações de arte mudam visual de Veneza na bienal | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um turista desavisado poderia até mesmo pensar que estava na cidade errada, mas em tempo de Bienal Internacional de Artes – que começa domingo em Veneza –, tudo pode acontecer aos cinco sentidos do visitante. Uma enorme escultura em forma de vela ou de barco se ergue a uma altura de 44 metros à beira do Grande Canal. Pela sua superfície escorrem imagens de água eletrônica. Obra do veneziano Fabrizio Plessi. Bem ao lado, um pouco mais baixa, está a instalação do albanês Sislej Xhafa, com 33 metros de altura, representando a máscara de Sevilha, mas também usada pela organização racista americana Ku Klux Klan. A poucos metros da famosa Piazza di San Marco, há um contêiner de metal, cheio de jogos eletrônicos – e de jovens que pagam para usá-los – montado no principal calçadão da orla. 'Alívio' Um turista se aproximou de uma mesa ao lado pensando que ali pudesse incluir o seu nome num abaixo-assinado contra o que considera uma agressão visual, mas foi recebido com simpatia pela autora da instalação, a artista sueca Annika Eriksson. “Você precisa ver o sorriso de alívio de quem descobre que esta é uma crítica à sociedade em que vivemos e não uma concessão da prefeitura", disse ela. Na 51ª edição da bienal, mais uma vez a arte se expõe a críticas ferozes e admirações sinceras e serve de instrumento para questionar o mundo de hoje fazer previsões para o de amanhã. É isso o que indica a japonesa Mariko Mori, criadora de UFO, um objeto voador não identificado em fibra de carbono e forma arrojada – que não voa mas pelo menos abre as portas para o terráqueo mais curioso. Espanha Pela primeira vez nos 110 anos de história do evento, a curadoria ficou a cargo de duas mulheres, as espanholas Rosa Martinez e Maria de Corral. Martinez se ocupou da mostra Sempre um pouco mais longe, e Corral criou A experiência da arte. Elas cortaram drasticamente o número de artistas convidados - apenas 91 comparados aos mais de 200 das edições anteriores. O resultado foi uma concentração ainda maior de qualidade, criatividade e originalidade. Rosa Martinez montou sua exposição no espaço cultural do Arsenale, um velho estaleiro naval do século 16. Ali, os seus 49 artistas eleitos exibem vídeos, instalações, painéis fotográficos, esculturas e pinturas. Absorvente Logo na entrada, um enorme lustre feito com 25 mil absorverventes critica o que seria uma suposta hipocrisia da noiva que entra na igreja vestida de branco mesmo não sendo mais virgem. O recado foi dado: esta é uma bienal cor de rosa. Nunca tantas mulheres participaram do evento. São 31 no total, entre elas as brasileiras Laura Belém, Rivane “Na verdade, existem muitas mulheres artistas. Acho normal, portanto, ter uma exposição mais feminina, no sentido de sermos em grande número, não tanto pelo percentual de presença, mas pela qualidade do trabalho apresentado”, disse a artista de Lisboa. A mostra Sempre um pouco mais longe está montada de forma a criar contraposições e provocar a reflexão do visitante. Futebol O francês Stephen Dean elaborou um vídeo sobre festas populares. Entre elas a comemoração de torcedores em um clássico paulista de futebol, com imagem e narração em português. Do outro lado do corredor, sem paredes divisórias é exibido o vídeo mudo da guatemalteca Regina José, mostrando a própria numa cirurgia para reconstruir o hímen. Este vídeo ganhou o Leão de Ouro da Bienal. Ursos de pelúcia decapitados, hipopótamo em tamanho natural feito de argila, holografias e até um mapa astral com os movimentos e as datas dos próximos eventos astronômicos estão espalhados pelos galpões de 9 mil metros quadrados. “Eu me inspirei no personagem da história em quadrinhos de Corto Maltese que personifica a idéia do viajante romântico, independente e aberto ao acaso e ao risco e guiado por sonhos e utopias”, disse a curadora Rosa Martínez. Dotes físicos O outro percurso leva o visitante a vivenciar A experiência da arte, título da exposição montada dentro do pavilhão italiano, a poucos metros do Arsenale. Nele, artistas famosos como Francis Bacon dividem alas com estreantes quase anônimos. Num labirinto de corredores e salas, estão lá um lança-chamas que funciona como um grande secador de cabelos, e vários painéis eletrônicos montados no ângulo de duas paredes, mas que à distância provocam a ilusão de ser apenas uma tela plana. Mas uma das obras que mais chama a atenção atende pelo nome de Doméstica, uma grande escada de forma impossível, desenhada sob uma perspectiva inspirada nas obras de Escher. Uma outra mostra uma tela em branco. Embaixo lê-se sobre os dotes físicos de Brigitte Bardort na época em que ela foi lançada no filme E Deus Criou a Mulher. O autor é o português João Louro. Mostra internacional A Bienal proporciona ainda ao visitante a chance de conhecer a produção de arte mais recente de 70 países, cada um com seu próprio pavilhão, no Giardino dell’Arsenale ou em outros palácios e praças de Veneza. O Brasil tem a sua estrutura permanente e trouxe duas exposições. Uma é do fotógrafo Caio Reiwitz, que retratou o poder no país através do tempo e da arquitetura. Estão lá um igreja barroca, a biblioteca do Real Gabinete Português, as linhas modernas do Palácio do Itamaraty e o escritório da prefeitura da cidade de São Paulo. Já o Chelpa Ferro, grupo formado pelos artistas plásticos Barrão e Luiz Zerbini, Quem está de passagem pára no meio da ponte de madeira e vê as luzes das lâmpadas piscando de um lado no ritmo dos sons enviados pela caixa acústica montada na outra extremidade. O visitante sente um estranho alívio de não levar nenhum choque, a não ser o da criatividade. |
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