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Plebiscito sobre inseminação opõe Igreja e cientistas na Itália | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os italianos vão às urnas, neste domingo e na segunda-feira, para decidir em referendo se mudam quatro artigos da lei sobre inseminação artificial, aprovada no ano passado. As mudanças tornariam menos rígida a lei, que é considerada uma das mais restritivas do mundo. A campanha eleitoral foi marcada pelas críticas à interferência da Igreja Católica. Os bispos, com o apoio do papa Bento 16, pedem que os católicos não votem. O objetivo deles é derrubar o referendo e manter a lei como está para que eventuais mudanças sejam feitas no Parlamento. Para alguns cientistas, entre eles Renato Dulbecco e Rita Levi Montalcini, vencedores do prêmio Nobel de medicina, a lei atual cria sérias dificuldades para a pesquisa italiana. Dulbecco e Montalcini assinaram um manifesto, com centenas de outros cientistas e pesquisadores, pedindo que os italianos votem sim no referendo. Segundo o professor de teologia dogmática da Universidade Gregoriana de Roma, padre Felix Pastor, a Igreja Católica não considera ideal a lei italiana, mas a vê como “mal menor”. "Ingerência" “Somos (...) contra este referendo em particular. Os quatro itens colocados em votação são imorais, portanto seria melhor ficar com a lei atual”, disse. Alguns padres chegaram a pregar que, em vez de participar do plebiscito, seria melhor que os fiéis fossem à praia. “Isso não acontece em nenhum outro país do mundo”, disse Daniele Capezzone, do Partido Radical, um dos promotores do referendo. “A intervenção da Igreja Católica deste modo, com os meios que usou, aparecendo em todas as televisões, é sem precedentes.” Na opinião de Capezzone, uma coisa é falar em geral de alguns temas, outra é dizer, às vésperas da eleição, como se deve votar. Ele critica os presidentes da Câmara e do Senado, que, em sua opinião, não fizeram nada contra o que define como “ingerência nas questões de um Estado laico”. A lei atual admite o recurso à inseminação artificial apenas para os casais estéreis e proíbe o uso de doadores externos, impedindo que os homossexuais tenham acesso à técnica. Além disso, ela veta os exames clínicos que detectam doenças graves no embrião antes que seja implantado no útero; não permite que sejam criados mais de três embriões in vitro, e obriga o implante dos três ao mesmo tempo. A lei também proíbe o congelamento e qualquer tipo de experiência com embriões, inclusive com as células-tronco. Os cerca de 50 milhões de italianos com direito ao voto deverão decidir se derrubam esses artigos. Embriões “As pesquisas com células tronco embrionárias podem levar a grandes resultados, com novas tecnologias, patentes e know how", disse o embriologista Giulio Cossu, do instituto São Rafael de Milão. "Corremos o risco de ficar de fora e ter que comprar no exterior, pagando muito caro.” As experiências com células-tronco de embriões são um dos pontos mais criticados pelos católicos. “Se o embrião pode ser considerado como um ser humano, não deve ser usado como cobaia”, disse a jurista Marina Casini, do Instituto de Bioética da Universidade Católica de Roma. Segundo ela, as células-tronco embrionárias não deram resultado até agora, enquanto que as células adultas curam 58 doenças degenerativas. Mas para ter certeza sobre os potenciais das células-tronco embrionárias é preciso muito mais tempo, dizem os pesquisadores como Giulio Cossu. Ele argumenta que não é necessário sacrificar a vida humana para isto. “O referendo trata apenas de pesquisa com os embriões excedentes congelados, que são cerca de 30 mil. Parte foi jogada no lixo antes e outros poderão ser eliminados depois que a poeira do voto baixar", disse o embriologista. "O importante para eles é salvar o princípio, o que acontece na prática não os interessa e isto é hipocrisia”, diz o embriologista. Hitler Para o padre Felix Pastor, as experiências com embriões trazem péssimas recordações. “Isso é o que pedia Hitler, que procurava a raça pura. Aliás, quem começou com a política 'eugenética' foram os ingleses e os americanos, que não chegaram ao extremo como Hitler”, disse o padre. Segundo ele, problemas tão delicados não deveriam ser decididos com um voto popular. Para ser válido, o referendo precisa ter um comparecimento mínimo de 51% dos italianos com direito a voto. Os organizadores admitem que não será fácil levar a maioria dos eleitores às urnas. Alem da maciça campanha católica, há outros problemas. Os 2,5 milhões de italianos que moram no exterior podem votar, mas 1 milhão deles não receberam os documentos necessários, assim como os soldados italianos em missão em outros países. |
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