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Atualizado às: 08 de abril, 2005 - 10h38 GMT (07h38 Brasília)
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Novo governo do Iraque ainda depende dos EUA

Ibrahim Jaafari vai comandar governo que reúne diferentes facções
Ibrahim Jaafari vai comandar governo que reúne diferentes facções
Habemus governo. Temos um novo no Iraque. Foram dois meses de negociações caóticas entre os partidos após as eleições de 30 janeiro, com barganhas dignas de um bazar persa.

Em meio à frustração popular, de fato, uma certa ordem foi estabelecida no sistema político. Condescendente, o presidente americano George W. Bush disse que é assim que se constrói uma democracia e isto está acontecendo a ferro e fogo.

Para aprender alguma coisa, Saddam Hussein e comparsas assistiram da prisão, pela televisão, à implantação da nova ordem. O presidente é o curdo Jalal Talabani.

O cargo é cerimonial. Mesmo assim, é algo sem precedentes no mundo árabe. O cargo poderoso é o de primeiro-ministro. Foi para Ibrahim Jaafari, da maioria xiita oprimida pela minoria sunita, beneficiada no regime de Saddam.

As duas vice-presidências foram repartidas entre o sunita Ghazi al-Yawer e o xiita Abel Abd al-Mahdi. O presidente do Parlamento é o sunita Hakim al-Hassani, que viveu 20 anos nos EUA e é bem visto pela Casa Branca.

Transição

Mas os aplausos de Washington podem diminuir sua influência junto aos sunitas que resistem à nova ordem e em grande parte boicotaram as eleições.

É o terceiro governo interino desde a invasão liderada pelos EUA em março de 2003, o mais legítimo em um quadro de precariedade.

Bush diz que o acordo de divisão de poderes entre partidos e grupos étnicos e religiosos é um grande passo na transição para a democracia. Mas esta não era a transição visualizada pela Casa Branca.

Em primeiro lugar, o passo não deveria ter sido tão apressado. O processo foi acelerado pelo aiatolá Ali Sistani, a grande força espiritual da maioria xiita, ansioso para que os seus seguidores chegassem ao poder.

Em segundo lugar, os "xiitas" de Washington foram uma decepção. A aposta inicial e vexaminosa foi em Ahmed Chalabi, secular e ex-exilado, com um prontuário nebuloso de ligações com os neoconservadores.

O governo Bush então investiu em Iyad Allawi, igualmente secular e ex-exilado, ligado a órgaos de inteligência da Grã-Bretanha e dos EUA. A expectativa era de que Allawi, que assumiu a chefia do governo em junho passado, se saísse melhor nas eleições de janeiro e com a legitimidade dos votos deixasse de ser visto como um instrumento americano.

O desfecho, no entanto, é a ascensão de Jafaari. Como Allawi, ele é médico e esteve exilado em Londres (e também no Irã). A diferença fundamental é que seu partido, o Daawa, que integrou a lista xiita vitoriosa nas eleições de janeiro, sempre advogou um governo religioso.

Jafaari promete moderar seu projeto e se ajustar não só a iraquianos seculares como a não- muçulmanos, não caindo na armadilha do sectarismo. Em uma entrevista ao jornal Washington Post, ele disse que seu objetivo não é "implantar um Estado islâmico".

O projeto abençoado por Washington é este reparte do poder entre facções étnicas e religiosas. A inclusão seria a única forma tanto para abafar a insurgência liderada pelos sunitas, como para realmente conter os sonhos de independência dos curdos, algo capaz de provocar terremotos regionais, particularmente na Turquia.

Para as lideranças iraquianas que participam deste grande acordo o próximo passo é trabalhar na redação de uma Constituição permanente e preparar as eleições de dezembro.

Para os americanos, uma prioridade é incrementar o treinamento das forças militares locais, com o impulso de um governo mais legítimo. Não há ilusão de uma "iraquização" a curto prazo da contra-insurgência, mas comandantes militares americanos, como o general Lance Smith, dizem existir uma possibilidade de retirada substancial de tropas já no final deste ano desde que não haja um aumento das atividades rebeldes. Esta conversa otimista também circulou no final de 2003.

Ironicamente, interessa ao governo Bush um governo iraquiano dependente do poder militar americano para sua própria sobrevivência. Pragmáticos, por ora, Jafaari e os demais políticos com fatias no bolo do novo e tênue regime aceitam esta relação clientelista com Washington.

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