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Mostra revela 'nova arte africana' em Londres | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quando pensam em arte africana, muitas pessoas costumam imaginar obras feitas de materiais simples, como a madeira, e com temas associados à cultura local, como a religião. Para visitantes que se encaixam nesse perfil, a mostra Africa Remix – Arte Contemporânea de um Continente, que foi aberta nesta quinta-feira na Hayward Gallery de Londres, guarda muitas surpresas. A exposição é a maior já feita com artistas africanos contemporâneos na Europa, reunindo 75 artistas de 23 países e com perfis variados, desde os mais tradicionais até os que ousam e se distanciam por completo de suas raízes no continente. Da forma como os trabalhos estão distribuídos, em três andares do museu, o choque de estilos fica ainda mais claro. Contrastes No primeiro andar, por exemplo, uma pintura de Cyprien Tokugagba, do Benin, mostrando um sapo – o símbolo do Deus da Água de uma religião africana – é vizinha de duas complexas videoinstalações sem referências à cultura tradicional do continente. Outra obra vizinha, Grace, de Eileen Perrier, só tem algo de "africano" na seleção de cinco pessoas negras e mulatas, que aparecem em fotos junto com as de outras cinco pessoas brancas. Todas as pessoas nas fotos aparecem sorrindo e olhando para a esquerda. Além disso, eles também estão unidos pelo fato de possuírem um pequeno vão entre os dentes incisivos superiores. Emma Townson e Liz Edwards, duas estudantes que visitaram a mostra, disseram ter mudado sua percepção da arte africana. "Eu pensei que as obras iriam representar a cultura africana", disse Liz. "Minha visão da África era de que o continente era formado por desertos e com pobreza. Mas há fotos aqui que mostram riqueza, que são coloridas." "Eu acho que essas obras de arte poderiam ser de qualquer lugar do mundo, não necessariamente da África. Eu acho que a exposição está tentando mostrar uma África como parte do mundo", completou. Diversidade A mostra foi dividida em três eixos temáticos abrangentes: Cidade e Terra, que traz trabalhos que abordam a questão do contraste entre a vida urbana e a rural; Identidade e História, que tem obras relacionadas aos temas poder e autoridade, e Corpo e Alma, em que os artistas tratam de identidade individual, religião, espiritualidade, emoção e sexualidade. Simon Njami, principal curador da exposição, disse que o que tentou fazer ao selecionar as obras foi "mostrar às pessoas a complexidade da África e lembrar a elas que não se trata de um país, mas de um continente – algo que as pessoas costumam esquecer com freqüência". "A única coisa que eu fiz foi reunir obras de que gosto. (...) Mas tenho certeza de que algumas pessos com idéias pré-concebidas sobre a África vão ficar chocadas porque vão descobrir coisas que eles não sabiam que a África podia produzir." No entanto, para Njami, que é editor-chefe da publicação especializada em arte Revue Noire, da França, a mostra aumenta o conhecimento das pessoas em geral a respeito do que é a arte africana. "Não é difícil fazer algo que começou do zero aumentar. Tem sido um longo caminho. Venho trabalhando com arte nos últimos 20 anos, e ainda hoje esse conhecimento não é como o que existe em relação à arte de outros continentes. Mas as pessoas estão entendendo aos poucos, e este tipo de mostra ajuda isso a acontecer mais rápido." Pós-colonialismo No terceiro andar da mostra, uma grande pintura do sudanês Hassan Musa, mostrando um Osama Bin Laden nu, deitado de bruços com a bandeira americana ao fundo, decora uma das salas do eixo Identidade e História. Perto dali, uma escultura feita com metal reciclado, do sul-africano Willie Bester, mostra o que parece ser um general africano com uma metralhadora e um cão de aparência feroz ao seu lado, em uma possível referência aos violentos ditadores militares que governaram e ainda governam alguns países. O artista plástico Attia Kader, nascido na Argélia, disse ter vindo especialmente de Paris, onde mora, para ver a exposição. Ele se disse satisfeito com o que estava vendo. "É uma rara oportunidade de ver artistas africanos, e não há apenas os mais conhecidos", afirmou. "Há uma mudança na arte contemporânea dos países do terceiro mundo, sobretudo dos países da África que, em muitos casos, se distanciam da relação que esses países tinham com seus antigos colonizadores, como a França e a Inglaterra."
'Africa 05' A mostra Africa Remix, que termina em abril, faz parte de um ano de eventos culturais em Londres em homenagem à África, o Africa 05, que segue até o final de outubro. Desde o dia 2 de fevereiro, o Museu Britânico está exibindo a obra Tree of Life ("Árvore da Vida"), feita por artistas de Moçambique com metralhadoras, pistolas e outras armas usadas durante o período de guerra civil no país. Uma outra mostra em cartaz no Museu Britânico, a Wealth of Africa ("Riqueza da África"), examina a história do continente por meio do seu dinheiro – de conchas a moedas. Mais de 40 museus e instituições da Grã-Bretanha estão participando do ano de eventos culturais, que ainda traz mostras de cinema, literatura, artesanato e espetáculos musicais e teatrais. |
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