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A Semana: Palestinos dão o último adeus ao seu líder | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As extraordinárias cenas vistas nesta sexta-feira, em Ramallah (Cisjordânia), deram ao mundo a dimensão da importância da morte do presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat. Milhares de palestinos lotaram a semi-destruída área onde fica a sede da Autoridade Palestina, alvo de pesados ataques israelenses dois anos atrás, para dizer adeus ao seu líder. A impressionante demonstração de admiração pelo homem que liderou seu povo por quatro décadas marcou o fim de mais uma semana de apreensão em relação ao futuro dos palestinos. Desde o início da semana, a liderança palestina preparava-se para a perda do seu presidente. Uma comissão de políticos palestinos foi a Paris conferir com os próprios olhos qual era o estado de saúde de Arafat. Na terça-feira, autoridades em Ramallah confirmaram que Arafat havia sofrido uma hemorragia cerebral, enquanto em Paris os enviados especiais negaram qualquer possibilidade de eutanásia para acelerar a morte do presidente palestino. Aumentava a suspeita de que a morte de Arafat estava mesmo próxima, e ela veio nas primeiras horas de quinta-feira. O presidente francês, Jacques Chirac, fez questão de ser o primeiro chefe de Estado ou governo a registrar seus pêsames. Disse que Arafat foi um homem de "coragem e convicção", deixando claro que a França se diferenciava das outras potências ocidentais por sua relação mais amistosa com os palestinos. Essa relação foi reafirmada pelo requinte da cerimônia realizada no aeroporto militar em Paris de onde partiu o avião levando do caixão de Arafat ao Egito. Na presença do primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin, honras militares marcaram a homenagem francesa a Arafat. Outros líderes ocidentais foram mais tímidos, apenas oferecendo suas condolências, como o primeiro-ministro britânico, Tony Blair. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse apenas que se tratava de um acontecimento "significativo" para os palestinos. O premiê israelense, Ariel Sharon, que acusava Arafat de ter sido responsável por ataques de suicidas palestinos contra civis israelenses, afirmou que o momento era de mudança, sem citar o nome do presidente palestino. Cenas históricas em Ramallah A sexta-feira foi repleta de cenas históricas envolvendo o adeus ao líder palestino. Uma breve cerimônia no Cairo (Egito) ofereceu a líderes estrangeiros a oportunidade de registrar seu gesto de respeito ao papel de Arafat em seu trabalho à frente dos palestinos. Em seguida, o corpo de Arafat foi levado de helicóptero a Ramallah, onde milhares de pessoas já o aguardavam. Assim que a aeronave tocou o solo, os membros das forças de segurança palestinas mostraram-se incapazes de afastar a emocionada multidão.
A impressionante aglomeração de pessoas cercou o helicóptero, enquanto tiros de metralhadora eram lançados para o ar, tanto por policiais tentando abrir caminho como por pessoas que apenas usavam o artifício para homenagear seu líder. Depois de uma difícil passagem do caixão pela multidão, carregado por milhares de palestinos num ritual transmitido ao vivo ao mundo inteiro, Yasser Arafat foi enterrado. Não em Jerusalém, como desejava, mas em Ramallah, onde passou, quase como um prisioneiro em seu escritório, a maior parte dos seus últimos dois anos de vida. E agora? Ao longo da semana, palestinos também discutiam seu futuro político. Já na terça-feira, dois dias antes da morte de Arafat, foi feita uma distribuição provisória dos cargos que ele acumulava. Mas foi na quinta-feira, com a morte do presidente da Autoridade Palestina, que essa divisão foi oficializada. Rawhi Fattouh, presidente do Conselho Legislativo Palestino, assumiu interinamente a presidência da Autoridade Palestina. Mahmoud Abbas passou a comandar a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), e Farouk Kaddoumi assumiu o grupo Fatah. O mais difícil agora, porém, é definir quem assumirá esses postos definitivamente, principalmente o de presidente da Autoridade Palestina. A legislação prevê a realização de eleições para o cargo em 60 dias, o que parece ser quase impossível a não ser que Israel alivie o controle que exerge sobre áreas inteiras e estradas da Cisjordânia.
Quem acredita nessas eleições são o presidente George W. Bush e o primeiro-ministro Tony Blair. Em entrevista coletiva em Washington, na sexta-feira, os dois falaram da importância de haver democracia na Palestina e da escolha de um líder comprometido com princípios democráticas nessas eleições. Mas nenhuma palavra foi dita sobre como essas eleições poderiam ser realizadas. O consenso é de que Israel teria de facilitar esse processo, mas Bush e Blair preferiram poupar o premiê Ariel Sharon de qualquer tipo de recomendação ou pressão. O que Bush fez foi dizer, com todas as letras, que acha possível o surgimento de um Estado palestino até o final do seu segundo mandado, ou seja, dentro de quatro anos. Já segundo Blair, é preciso definir o que é um Estado palestino viável, e para ele isso passa, necessariamente, pelo caráter democrático dessa nova entidade. Blair não ousou falar em tamanho do território, onde seria sua capital ou a abrangência da soberania que teria um Estado palestino, todas questões espinhosas que precisarão ser discutidas em um futuro processo de paz. Guerra aberta em Falluja Bush e Blair não acreditam apenas em eleições na Palestina, um lugar onde o controle militar de Israel dificulta qualquer movimentação de moradores entre uma cidade e outra. Eles também acreditam na realização de eleições gerais no Iraque até o fim de janeiro, apesar de o país ainda ser palco de uma guerra aberta entre americanos, ajudados agora por um pequeno contingente de iraquianos, e iraquianos rebeldes.
O principal palco dos combates é agora a cidade de Falluja, foco central da resistência ao regime do premiê Ayad Allawi e à presença americana no país. Os Estados Unidos dizem ter matado centenas de rebeldes e que estão controlando quase toda a cidade, o que, em tese, abriria caminho para a realização das eleições no país. Mas muitos dos insurgentes, ou novos insurgentes, apareceram em outras cidades, como Ramadi, iniciando outros focos de combate. Alguns já acreditam que a operação em Falluja apenas levou os rebeldes a se reagrupar em outras partes do país. Já os americanos afirmam que estão derrotando a resistência. Na mesma coletiva em Washington, Bush admitiu que a violência no Iraque ainda deve aumentar até as eleições de janeiro. O que ele não soube precisar é quando ela deve diminuir. |
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