|
Exposição em NY tenta levar guerra 'para dentro dos EUA' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Whitney Museum, de Nova York, transformou o seu último andar em uma verdadeira instalação de guerra. Com a aproximação dos 40 anos do conflito do Vietnã e a ocupação americana no Iraque e no Afeganistão, o curador da mostra, David Kiehl, selecionou obras da coleção permanente do museu com um objetivo claro: trazer a guerra para dentro dos Estados Unidos. Três obras do brasileiro Vik Muniz estão entre os destaques da exposição Memorials of War (Memoriais de Guerra, em tradução livre). "Esta exposição é um memorial", diz Kiehl. "Um grande painel para lembrar as pessoas do que é viver o cotidiano de uma guerra." As obras de Vik Muniz que foram selecionadas para a mostra fazem parte da premiada série Best of Life, um estudo sobre fotos publicadas pela revista Life que retratam momentos decisivos da Guerra do Vietnã. Memorial pessoal Muniz, 43 anos, é um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros e vive em Nova York há mais de uma década. Ao interferir em imagens que ganharam o Prêmio Pulitzer e que permanecem no imaginário coletivo, como a de uma criança atingida pela bomba de napalm em Tranbang, no Vietnã, ou o ataque da Guarda Nacional americana aos estudantes da Universidade de Kent, o artista já tratava da necessidade de repensar uma memória da guerra. "Quando decidi fazer a série sobre as imagens da 'Life' eu queria saber qual o espaço que aquelas fotos de guerra ocupavam na minha cabeça", disse Muniz. "A mostra, ao mesclar obras de artistas e períodos de tempo diversos oferece ao espectador a chance de organizar melhor estas imagens e de criar seu próprio memorial da guerra." A exposição conta, entre outros, com instalações e quadros de nomes como Chris Burden (e seu corrosivo "alfabeto atômico"), Sigmund Arbeles e Jon Haddock. Corpos no chão Memorials of War foi aberta ao público na última semana de agosto, juntamente com uma série dedicada ao cinema de protesto contra a guerra do Vietnã, e fica no museu até o final de novembro. Um dos destaques tem sido a instalação The Non-Memorial of War, uma provocação do americano Edward Kienholz (1927-1994), em que corpos de soldados (sacos de areia vestidos com capacetes e uniformes dos marines americanos) se espalham pelo chão, impregnando de morte e derrota a sala de exposições do vetusto museu de Manhattan. O visitante precisa tomar cuidado para não pisar nas vítimas de guerra estilizadas. "Aqui no museu chegou-se a cogitar a idéia de afixar um lembrete na entrada avisando que crianças desacompanhadas de adultos não deveriam entrar na sala", contou Kiehl. "Mas vetei a idéia, pois o que se vê na televisão e nos jornais sobre o Iraque é muito mais forte, ainda que o simbolismo dos soldados abatidos em pleno Upper East Side, onde o museu se localiza, seja intenso." E completou: "Eu imaginei isso mesmo, que esta era uma exposição para fazer as pessoas chorarem. Chorarem e não esquecerem." Imagem duradoura Outros destaques são as belíssimas litografias de Robert Morris, 73 anos, que transfere o campo de batalha do Vietnã para o deserto americano. Curiosamente, as imagens remetem ao conflito do Golfo Pérsico. "A gente fica pensando: será que em 40 anos o Whitney vai vai apresentar uma exposição sobre a memória da guerra centrada no episódio do Iraque?", disse Vik Muniz. "Eu não tenho dúvida de que muita gente boa vai produzir coisas interessantes a partir deste terrível episódio." Para Kiehl, a imagem mais forte da guerra no Iraque, e que certamente será tema de obras mais ou menos emblemáticas do que a Guernica, de Picasso, é a montanha de corpos de prisioneiros iraquianos torturados nos porões de Abu Ghraib. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||