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Festival em Londres celebra Fela Kuti, o 'pai do afrobeat' | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Black President, uma exposição sobre o cantor nigeriano Fela Anikulapo Kuti – considerado por muitos o pai do gênero musical afrobeat e o maior artista africano de todos os tempos – está em cartaz até o dia 24 de outubro no centro cultural Barbican, em Londres. A exposição faz parte de um festival com várias atrações musicais e reúne os desenhos originais das capas criadas pelo artista gráfico Ghariokwu Lemi para vários álbuns de Fela Kuti, além de fotos documentando a trajetória do artista, um vídeo-documentário e – claro – vários exemplos musicais dele e de pessoas influenciadas. A mostra já passou por Nova York e São Francisco e apresenta obras de 34 artistas plásticos contemporâneos de várias nacionalidades, todas inspiradas no legado musical, espiritual, político e cultural de Fela Kuti. Uma das preocupações do idealizador da mostra, Trevor Schoonmaker, foi que a exposição tivesse obras que abordassem todos os aspectos do legado do músico africano. Entre essas obras está uma instalação de Yinka Shonibare – um dos finalistas do prestigiado prêmio britânico Turner de arte contemporânea –, que mostra 27 bonecas africanas sem cabeça, inspiradas na poligamia defendida pelo artista, que em uma única cerimônia se casou com 27 mulheres. Aids Fela Anikulapo Kuti, o auto-intitulado "presidente negro", morreu em 1997 por complicações decorrentes da Aids. No entanto, ao longo dos seus 58 anos, a influência dele ultrapassou em muito as fronteiras da música. Kuti enfrentou abertamente governos autoritários da Nigéria, produzindo discos de forte teor político e social, e chegou a se candidatar à presidência do país em 1979, mas teve a candidatura impugnada pelas autoridades. O conteúdo político da obra de Kuti marcou fortemente a obra do chileno Alfredo Jaar, o único representante sul-americano na mostra Black President. "Eu gostei muito da sua música, do seu conceito, mas também da sua posição política. Ele não tem medo de fazer críticas no seu trabalho. A crítica é a obra. Ele a faz com poesia e genialidade, mas a obra é crítica e a crítica é a obra", disse Jaar à BBC Brasil. Para o chileno, foi a revelação de que o artista pode tomar uma posição política pessoalmente e artisticamente que lhe fascinou no trabalho de Fela Kuti.
A contribuição de Jaar para a mostra questiona a moral e a lógica de um memorando de Lawrence H. Summers, o então economista-chefe do Banco Mundial, vazado para a imprensa. Jaar reproduz a íntegra da nota em que Summers – hoje reitor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, como lembra Jaar – sugere ser mais lógico manter as indústrias poluidoras nos países em desenvolvimento. 'Faltou Brasil' O curador da mostra, Trevor Schoonmaker, afirmou que a exposição apresentada no Barbican finalmente abrange todos os aspectos da obra de fela Kuti. "Temos um grande festival de música acompanhando a exposição de arte e, além disso, temos a mostra cinematográfica. É bem maior e mais próximo daquilo que eu sonhei quando comecei esse projeto." Schoonmaker admite, no entanto, ter uma grande frustração. "Eu queria muito ter incluído uma obra de um artista brasileiro", lamentou o curador, que afirmou não ter conseguido encontrar artistas que tivessem sido genuinamente influenciados pelo cantor africano. "Foi por pura falta de contatos, porque sei que Gilberto Gil e Caetano Veloso tiveram bastante contato com a música de Fela Kuti." Ativismo Fela Kuti chegou a declarar a sua mansão em Lagos, a então capital nigeriana, uma república independente, batizada de Kalakuta. Na mansão, o músico desafiava abertamente o governo nigeriano, afirmando que as leis do país não prevaleciam na Kalakuta.
Insatisfeitas com as críticas políticas de Kuti e com a apologia à igbo – a maconha nigeriana – as autoridades praticamente destruíram a casa em duas ocasiões. Fela Kuti e os outros moradores da "república" foram espancados e presos. Em uma dessas operações de repressão, nada menos que mil militares foram envolvidos, e Kuti chegou a sofrer uma fratura craniana. A mãe do músico, de oitenta e dois anos, quase morreu ao ser atirada do primeiro andar pelos soldados. O lado sexual de Fela Kuti também é destacado em algumas obras na mostra. Uma delas transforma os signos do zodíaco em posições sexuais. O ativismo anticolonialista de Kuti inspirou a série de miniaturas em ouro de colares de escravos, confeccionadas pelos artistas Klaus Bürgel e Kara Walker. Já o artista Fred Wilson usa um vaso de cerâmica montado como uma armadilha que utiliza a música de Fela Kuti como isca. A exposição Black President faz parte de um festival que vai trazer uma série de shows com grandes músicos inspirados por ele, como Manu Dibango e Tony Allen, além do filho de Kuti, Femi Kuti. |
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