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Time de vôlei é mais forte que o da geração de ouro, diz Maurício | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nenhum jogador na história do vôlei internacional tem mais recordes do que o levantador Maurício. Mais de 200 partidas na Liga Mundial, a caminho dos 600 jogos em 18 anos pela seleção brasileira e quatro vezes eleito o melhor do mundo na sua posição, Maurício se prepara para superar outra marca: em Atenas, será o primeiro jogador do esporte a participar de cinco Olimpíadas. Em entrevista à BBC Brasil, o levantador de 36 anos afirmou que o grupo atual é mais forte do que a equipe campeã dos Jogos de Barcelona e se disse confiante sobre a conquista da segunda medalha de ouro. "Agora parece uma seleção bem mais equilibrada com todos os 12 jogadores. Qualquer um pode entrar e dar conta do recado." Em Madri, onde encerrou sua participação na última Liga Mundial, Maurício falou à BBC Brasil sobre sua aposentadoria, as expectativas em Atenas e a geração de ouro. BBC Brasil – Esta será sua quinta Olimpíada. Depois disso já não tem nem mais recordes possíveis dentro do vôlei. Você esperava chegar tão longe? Maurício – Na verdade, não. Eu sempre quis jogar pela seleção brasileira, sonhei em disputar uma Olimpíada, que é o ápice de todo atleta. Fui à primeira em Seul, depois continuei na seleção pelo prazer e pela vontade, e tudo foi indo. Foi a consequência de estar jogando bem, de estar bem fisicamente, de estar em alto nível técnico e agora estou aí, na minha quinta Olimpíada. BBC Brasil – Ultimamente você tem recebido muitas homenagens: levou a bandeira nos Jogos Pan-Americanos, carregou a tocha olímpica no Brasil... Estão querendo lhe aposentar? Maurício – Eu não sei se isso é uma forma de querer me aposentar ou uma homenagem por tudo que eu fiz pelo vôlei. Prefiro pensar que são homenagens. BBC Brasil – Por que os grandes atletas que chegaram ao topo da profissão têm dificuldades em aceitar e reconhecer a hora de parar? Maurício – Não sei. No meu caso, o que posso falar é que o momento para mim está chegando, sei disso. Esta é a minha última Olimpíada, o último grande evento em que jogo pelo Brasil. Estou ciente de que Atenas será um ponto final com a seleção. Acaba uma etapa. Já dei muito pelo vôlei e é claro que o esporte também me deu muito: financeiramente, como homem… Enfim, eu devo muito ao vôlei, claro. Mas agora tenho outros objetivos: minha família, minha mulher, meus filhos. Em clubes quero jogar até quando eu sentir essa vontade e o prazer de estar na quadra. Quero diminuir esse ritmo de viver 18 anos sem folga. Então quero jogar muito bem esta Olimpíada, conseguir este ouro. Será muito difícil, mas a gente está correndo atrás. BBC Brasil – Onde está a sua medalha de ouro conquistada nos Jogos de Barcelona, em 1992? Maurício – Está em um cofre, lá em casa. A camisa da final eu pendurei na parede, em um quadro. As fotos estão espalhadas em um quarto. Agora estou construindo uma sala maior na minha casa em São Paulo só para essas coisas. BBC Brasil – E se vier a segunda, onde vai parar? Maurício – Juntinho da outra, do ladinho, com certeza! BBC Brasil – Você está ansioso, com aquele friozinho na barriga de que vai dar para ganhar esta segunda medalha de ouro? Maurício – Ah, eu acho que vai dar, sim! Estou com a maior fé. Como em qualquer Olimpíada, você chega com essa ansiedade de ganhar uma medalha e de representar bem o país porque é o maior evento do esporte. E mesmo com a experiência de tantos jogos com a seleção, de tantas Olimpíadas, esse é um evento que mexe com você. É só a gente saber controlar essa ansiedade. BBC Brasil – O Brasil é o grande favorito para ganhar o ouro? Maurício – É um dos favoritos. A Rússia, a Sérvia, a Itália e o Brasil, na minha opinião, são os que devem brigar pelas medalhas. Então qualquer coisa pode acontecer, podemos ficar em primeiro, em quarto... Vai depender do momento. Olimpíada é isso, é aquele momento em que você tem que estar bem. BBC Brasil – Você quer se tornar dirigente esportivo depois que deixar de competir. Acha que será o dirigente que finalmente levará os Jogos Olímpicos para o Brasil? Maurício – Já pensou? (risos) Eu acho que a gente tem que batalhar para isso! Temos que galgar os degraus, que são muito difíceis. Há muitos países que, na minha opinião, estão na nossa frente para organizar um evento como este, mas estamos caminhando para isso. Eu espero poder contribuir de alguma forma. Espero que o Pan-Americano no Brasil saia bem, que tenhamos uma grande organização para mostrar ao mundo que nós somos capazes também de, no futuro talvez próximo, levar uma Olimpíada para o Brasil. BBC Brasil – Há pessoas no Brasil, inclusive atletas, que consideram precipitada a candidatura brasileira para sediar os Jogos Olímpicos, argumentando que não há investimento suficiente na preparação dos esportistas nacionais. Você acha que o Brasil pode saltar essa etapa e ir direto para a organização de uma Olimpíada? Maurício – Não, não acho. De qualquer maneira a estrutura no Brasil está mudando. Claro que é bem devagar. Mas posso falar pelo vôlei, onde sempre tive uma condição fantástica de treinamento. Nos outros esportes, a gente está caminhando para que isso ocorra. É lógico que ainda vai demorar um tempo, mas, se colocarmos na cabeça que nós podemos e devemos fazer grandes campeões primeiro, e só depois tentarmos levar uma Olimpíada para o Brasil, então iremos pelo melhor caminho. BBC Brasil – Recordando o melhor momento da sua carreira, a final olímpica em Barcelona, a única medalha de ouro que o Brasil conquistou em um esporte coletivo até agora. Que lembranças você tem daquele momento? Maurício – Pôxa... Vitória, alegria, satisfação… Principalmente porque o Brasil estava passando por um momento muito difícil, a alegria que nós levamos para o povo brasileiro, o time campeão, a medalha de ouro... Só recordações positivas! BBC Brasil – Naquele momento, o time provocou uma febre nacional. Era uma geração de jovens vencedores e carismáticos. Mas vocês também passaram por situações complicadas, embora agora tenha até a sua graça. Maurício – Aquilo lá foi uma loucura mesmo. Cheguei a ter que sair de casa escondido no porta-malas do meu carro, gente acampada na porta da minha casa, e eu sem poder sair à rua. Foi uma loucura! Mas como você falou, agora tem a sua graça, tudo passou. E mesmo se ganharmos mais uma medalha de ouro não vai ser igual. O que aconteceu naquele momento foi único. O momento do país é outro, parece que o povo, em relação ao vôlei, está mais acostumado a grandes conquistas. Aquela foi a inédita, foi a primeira, tudo de positivo aconteceu daquela vez. Claro que a gente vai ficar muito satisfeito com essa também, se chegarmos a ganhar. Mas, com certeza, nada vai ser comparável. Aquela vez foi inesquecível. BBC Brasil – Que fim levou aquele grupo da medalha de ouro? Só você e Giovane continuam na seleção. Que contato vocês têm? Maurício – Nada. Tenho contato com o Giovane e um pouco com o Marcelo Negrão, que está jogando no Japão. Só. Cada um tomou um caminho. A única coisa que eu sinto daquele time é que nós não soubemos ganhar mais coisas. Ganhamos a Olimpíada em 1992 e a Liga Mundial de 1993, mas poderíamos ter conseguido muito mais. BBC Brasil – Por que aquela seleção foi desfeita tão rápido? Maurício – Acho que foi uma geração que se perdeu por vaidade, ego, objetivos fora de foco... E olha que nós fomos muito avisados de que isso poderia acontecer! Tínhamos a experiência da "geração de prata" (Los Angeles em 1984), que não tinha ganho nada em relação ao que nós conquistamos, e aconteceu a mesma coisa. Mas existem situações que só vivenciando para saber. BBC Brasil – O que o time que vai para Atenas tem de diferente em relação ao de Barcelona? Maurício – Acho que o grupo atual é mais forte. Aquele time era muito bom, mas a coisa ficou muito concentrada em seis jogadores porque não houve muito revezamento. Agora parece uma seleção bem mais equilibrada com todos os 12 jogadores. Qualquer um pode entrar e dar conta do recado. BBC Brasil – Em relação a sua situação atual, como um jogador com o seu talento, experiência e prestígio mundial dentro do voleibol encara o momento de não ser mais o titular indiscutível? Maurício – Agora é uma questão de maturidade, sabe? Eu sempre fui titular em toda a minha vida. Foram 18 anos de seleção brasileira – 16 deles como titular. Claro que a gente sente. No começo foi um baque, mas, claro, ninguém é insubstituível, e eu tenho que correr atrás. Mas estou muito mais maduro para enfrentar essa situação e saber que quando o time ganha, é campeão, é uma vitória do grupo, e todo mundo lucra com isso. Eu estou aí para dar conta do recado quando o Bernardo (técnico) precisar. BBC Brasil – O que falta, se é que falta alguma coisa, por conquistar na sua carreira? Maurício – Não falta nada! Ganhei tudo, fui quatro vezes o melhor do mundo... Todo mundo pergunta por que estou até hoje na seleção, e eu falo que é pelo prazer e pela vontade de jogar pelo Brasil. Agora quero mais uma vitória olímpica para fechar com chave de ouro. BBC Brasil – O esporte absorveu tanto a sua vida que todas as cidades que você conheceu foi através do vôlei. Londres, por exemplo, não tem torneios internacionais, e por isso você nunca foi. É estranho, não? Maurício – É, sim. Conheço muitas, muitas cidades mesmo. Mas todos os lugares que eu fui, foi por causa do vôlei, e alguns voltei depois para passear. E agora que você está falando... Realmente nunca fui a um lugar sem ser pelo vôlei! Uma coisa estranha mesmo! |
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