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Palhaços vão à guerra para alegrar crianças | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um grupo de palhaços e acrobatas tem visitado há mais de uma década regiões de conflito, de forma independente, para alegrar as populações atormentas por guerras. No fim do ano passado, em sua segunda viagem ao Afeganistão, o grupo treinou cerca de 400 crianças e adultos para que eles pudessem criar a primeira companhia de circo no Afeganistão depois da queda do Talebã. A iniciativa do grupo, chamado The Serious Road Trip (A Verdadeira Viagem pela Estrada, em tradução livre), deu certo e, em outubro, eles voltam ao país para entregar novos equipamentos para a companhia e treinar mais pessoas. "A idéia é apenas entreter as pessoas, principalmente as crianças, aliviar seu sofrimento. Nós levamos alívio psicológico, e não comida", diz Yoyo, de 32 anos de idade, um dos dois franceses que, ao lado de um irlandês e um inglês, formam o grupo. No início dos anos 90, o grupo concentrava suas atividades na Europa, especialmente na região dos Bálcãs. Com o passar dos anos, passaram a atingir áreas mais remotas como a Chechênia. Em 2001, eles realizaram o Cirkosovo, um documentário das experiências no Kosovo, onde começaram a treinar habitantes locais em técnicas de circo. Hoje, a companhia criada pelos estudantes já é o segundo maior circo da região. Anarquia A Serious Road Trip foi criada em 1992 por um grupo de jovens artistas anarquistas, que compraram um típico ônibus britânico de dois andares e pintaram o veículo com temas artísticos. O objetivo era viajar de Londres à Nova Zelândia, chamando a atenção da mídia para áreas problemáticas.
"As pessoas poderiam se juntar ou deixar o ônibus quando quisessem. Ele foi o primeiro veículo humanitário a entrar em Sarajevo, em 1992", conta Max Reeves, fotógrafo oficial da equipe, desde o início. "Sempre houve a preocupação em estabelecer o contato humano, permanecendo nos locais por uma semana, dando grandes festas. Fizemos ótimos trabalhos na Polônia e na Romênia", lembra Max. O ônibus não chegou à Nova Zelândia ("ficou na Rússia", explica Yoyo), mas a Serious Road Trip continuou fiel à sua proposta inicial, de independência e anarquia. “No início, nos perguntávamos: por que desperdiçar dinheiro com o aluguel, por exemplo, se poderíamos usá-lo para financiar mais uma viagem aos Bálcãs? Então, morávamos em casas ocupadas", diz Yoyo. Palhaçadas À medida que o trabalho se tornou mais conhecido, ficou mais fácil para o grupo angariar fundos para projetos mais ambiciosos. A convivência com outras organizações assistenciais, no entanto, desestimulou o grupo a se tornar maior. "Vi muito dinheiro sendo desperdiçado, por outras organizações, em logísticas exageradas. Nós não contamos com a ONU ou qualquer exército para ir a qualquer lugar", diz Yoyo. "Podemos quebrar as leis por não sermos ligados à nenhuma organização. Na minha profissão, a de palhaço, estamos acostumados a puxar os limites e achamos que essa é a melhor maneira de chegar às pessoas", diz o francês.
Por causa dessa independência, é comum para eles enfrentar problemas com soldados ou guardas de fronteira, "que apenas querem dificultar nossas vidas, nos ameaçando com armas", de acordo com Max. "Mas acreditamos que apenas um idiota completo seria capaz de atirar em um palhaço", afirma o fotógrafo. Yoyo admite que no início de um projeto em um novo país, sempre existe a dúvida se a comunicação com a população local vai funcionar. "Quando chegamos a um lugar, especialmente no Afeganistão, as pessoas estranham e ficam com o pé atrás. Depois, percebem que se trata apenas de um bando de malucos, e não de alguém que vai atirar neles", conta o palhaço. "A reação das crianças é imediata. É como comer algo quando se está faminto. Eles olham fascinados, e ficam malucos muitos dias após o espetáculo." "No fundo, todos são iguais, e as pessoas acabam reagindo de maneira parecida às nossas palhaçadas. Não importa se elas estão na França ou no Paquistão. Todos nós temos necessidade de cometer erros e nos sentirmos ridículos às vezes." "Não acreditamos em vitimizar as pessoas. Nós encontramos gente que tem o orgulho ferido e que recusa comida", afirma Yoko. "Gostaria que nosso trabalho tivesse um efeito a longo prazo. Quem sabe não é uma gota de esperança no oceano?" |
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