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Julgamento de Saddam desvia atenção de americanos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As primeiras imagens de Saddam Hussein no tribunal em Bagdá puderam ser mostradas ao vivo na quinta-feira no noticiário matutino das grandes redes de televisão dos EUA, com os comentários dos principais apresentadores. Quase todos estavam no Iraque. Falar da primeira aparição pública do ex-ditador desde sua prisão em dezembro foi um alívio para as estrelas do jornalismo americano. Elas foram brilhar em Bagdá com a intenção de cobrir a transferência da soberania formal do país dos ocupantes americanos para o governo provisório, programada para a quarta-feira. Surpreendida pela cerimônia secreta e antecipada para a segunda-feira, a televisão americana tinha algo espetacular para reportar na quinta-feira. Para o governo Bush também é um alívio ver a atenção voltada para o ex-ditador e a lista das acusações criminais. Uma guerra parece fazer sentido quando o pivô da história é acusado de crimes contra a humanidade. Em um país dividido sobre seu presidente e com a maioria dos americanos hoje avaliando que a guerra no Iraque não valeu a pena, Saddam Hussein é um ponto de consenso. Praticamente todos concordam que o mundo está melhor com ele na cadeia, à espera do julgamento. Mais do que isto, a derrubada de um tirano é o saldo positivo que a Casa Branca pode apresentar. As outras justificativas para a invasão perderam a legitimidade: as armas de destruição em massa não foram encontradas, a comissão independente que investiga os atentados do 11 de setembro concluiu que não há evidencias de colaboração entre o ex-regime de Saddam e a rede Al-Qaeda, e houve um incremento de incidentes terroristas no mundo desde a invasão de março do ano passado, como o Departamento de Estado foi finalmente forçado a admitir após dizer o contrário. Mas como lembrou o jornal New York Times na edição desta quinta-feira, há muito em jogo com um julgamento de Saddam Hussein. Há promessas e perigos. O julgamento pode dar um grau de legitimidade ao governo do Iraque e levar os americanos a insistir que os iraquianos estão cuidando de suas próprias questões, ou seja, o governo provisório não é uma marionete. O perigo é que Saddam Hussein use o julgamento como sua plataforma política e que o processo judicial seja visto como uma farsa. As estrelas do jornalismo americano não se cansavam de comentar após a aparição pública do ex-ditador nesta quinta-feira que ele parecia cansado, mas o seu tom era desafiante. Evidentemente a Casa Branca estima que tem mais a ganhar do que a perder com um julgamento de Saddam Hussein. É melhor que o mundo e os eleitores americanos se concentrem mais nos crimes de um tirano do que em uma guerra mal explicada e um pós-guerra mal executado. O excesso de cobertura do caso Saddam Hussein e o fascínio da opinião pública, porém, podem ser enganosos. O ex-ditador tem competição cerrada de Michael Jackson e Kobe Briant. Até escândalos relativamente triviais são cobertos de forma exaustiva. Saddam diz que o seu julgamento é teatro. Para os americanos, exatamente dez anos após o caso O.J. Simpson, uma sala de tribunal é o maior espetáculo da Terra. |
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