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Caio Blinder: Desconfiança em Bush não se traduz em entusiasmo por Kerry | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
George W. Bush é um unificador. O presidente americano conseguiu unir 27 ex-embaixadores de carreira e altos oficiais militares da reserva que serviram em governos republicanos e democratas para lançar um ataque frontal contra a política externa da atual Casa Branca. Mais do que argumentar na carta aberta divulgada em Washington na quarta-feira que a política externa de Bush é uma ameaça à segurança nacional e está isolando o país na comunidade internacional, os signatários fazem um apelo aos eleitores para não renovarem o contrato de trabalho de Bush em novembro. Criticas à política externa da Casa Branca são cada vez mais comuns, mas este tipo de iniciativa pouco diplomática é altamente inusitada nos EUA. Funcionários de carreira, mesmo aposentados, raramente denunciam em grupo e publicamente a atuação do presidente de plantão. É ainda mais excepcional pedir a cabeça do comandante-em-chefe. Entre os signatários estão o almirante William Crowe, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, e o general Joseph Hoar, que chefiava o Comando Central (que engloba o Oriente Médio). Desgaste É um sintoma grave de desgaste quando o presidente republicano é alvejado por alguns servidores públicos que já representavam os interesses da política externa americana em um governo tão conservador como o de Ronald Reagan. A ex-embaixador Phillys Oakley disse não ser fácil para funcionários de carreira politizar suas divergências, mas que não havia outra opção agora que o "edifício está desabando". Assessores da Casa Branca e acadêmicos neoconservadores rebateram que o protesto não passa de lágrimas de dinossauros da política externa americana, sem contato com a realidade gerada com os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Argumentaram ainda que a recente resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o Iraque, aprovada de forma unânime, prova que o governo Bush não está isolado internacionalmente. Desilusão Não faltou obviamente a acusação de que a carta aberta é instrumento a serviço da campanha eleitoral do democrata John Kerry. Os signatários não endossaram explicitamente a candidatura do opositor de Bush. O ex-embaixador em Israel, William Harrop – um dos signatários – deu várias entrevistas esta semana lembrando ser essencialmente um eleitor republicano que está profundamente desiludido com o atual governo. Para John Kerry, todo voto de desconfiança em George W. Bush é lucro, mas novamente fica patente que a desilusão de alguns setores da opinião pública e do establishment com o status quo não se traduz automaticamente em confiança na proposta de mudança apresentada pelo candidato democrata. Kerry está se revelando um rolo compressor na arrecadação de fundos (conseguiu US$ 100 milhões de março a maio), congregou o partido em torno do seu nome e está à frente de Bush em muitas pesquisas. Ambivalência Mesmo assim, como lembrou uma reportagem esta semana do jornal Washington Post, muitos militantes democratas, dirigentes partidários e assessores da campanha expressam ambivalência ou angústia com o candidato. Estes democratas reconhecem que o entusiasmo para derrotar Bush de longe abafa a paixão pelo senador por Massachusetts. John Podesta, ex-chefe da Casa Civil do governo Clinton, adverte que a "ambivalência sobre Kerry é perigosa", pois um candidato não pode ser simplesmente contra alguma coisa. Os eleitores querem uma visão positiva e alternativa sobre o destino do país. Em meio à ambivalência, a longa marcha de John Kerry rumo à Casa Branca prossegue cadenciada e cautelosa. Não há mistério no manual de guerrilha eleitoral. O senador democrata é o que é porque não é George W. Bush. Num comício, Jim Hightower, um dos líderes partidários no Texas do presidente, estava cândido e exaltado: "Eu não me importo que John Kerry seja um saco de cimento. Nós vamos carregá-lo para a vitória". |
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