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A Semana: Bush e Blair buscam saída honrosa do Iraque | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Chegou a hora de ir embora, só falta saber como. Esse sentimento ficou ainda mais claro na semana que termina, quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha discutiram os pontos finais da entrega do poder político no Iraque aos iraquianos. A ocupação do Iraque tornou-se um estorvo político para o presidente George W. Bush, principalmente depois do escândalo dos abusos cometidos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib. Como Bush enfrentará a voz das urnas em novembro, precisa resolver esse problema de forma rápida, até porque suas taxas de aprovação caíram significamente. Tony Blair não está em campanha, mas o regime britânico é parlamentarista, e as especulações sobre o futuro do premiê já começaram. É com esse quadro em mente que Bush e Blair correm contra o tempo para planejar uma saída minimamente honrosa do Iraque. Para isso, precisam primeiro concluir uma nova resolução da ONU que defina como se dará a passagem de poder aos iraquianos, prevista para 30 de junho. O problema é que, aparentemente, nem os dois parecem ainda concordar com os termos do texto. Na segunda-feira, Bush tentou retomar a iniciativa sobre o futuro do Iraque com um discurso imponente, o primeiro de uma série sobre o país. Confirmou o cronograma para a entrega do poder aos iraquianos e disse que a prisão de Abu Ghraib, onde soldados americanos posavam rindo diante de iraquianos mortos, será destruída. No dia seguinte, Tony Blair, em entrevista coletiva, disse que a soberania a ser transferida ao Iraque seria real. Mais: segundo ele, o futuro governo iraquiano poderá vetar operações militares da coalizão, como a que deixou centenas de mortos na cidade de Falluja, no mês passado. Foi um pouco demais para o governo americano. Horas depois, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Collin Powell, disse que nos soldados americanos só mandam os comandantes americanos. A assessoria de Blair disse que não havia desentendimento algum, e na quarta-feira o premiê repetiu que os dois países tinham a mesma opinião sobre o futuro das ações militares no Iraque. Mas a impressão de que há uma ligeira diferença de interesses entre Londres e Washington permaneceu. Para dificultar o desafio da saída do Iraque, a aprovação da resolução sobre o país não depende apenas de Bush e Blair. China, França e Rússia, também membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, podem vetar o texto e já pediram mudanças na versão inicial.
Na quarta-feira, a China ofereceu um texto alternativo, com apoio de franceses e russos, que obrigaria as forças da coalizão a pedir autorização ao governo iraquiano antes de qualquer ação militar no país - exceto em ações de defesa. Percebendo as dificuldades de Bush nesse tema espinhoso, o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, John Kerry, começou a discursar sobre política externa. Na quinta-feira, prometeu que, caso chegue ao poder, aproximará mais os Estados Unidos do resto do mundo. As discussões na ONU continuam nesta próxima semana. Antes da guerra, americanos e britânicos, diante da oposição francesa e russa, simplesmente desistiram de tentar a explícita aprovação para a guerra ao Iraque. Mas agora não podem simplesmente ignorar seus companheiros de Conselho de Segurança. O apoio de França, Rússia e China aos planos para o futuro do Iraque tornou-se valioso. E pode obrigar Bush a fazer mais concessões do que imaginava. Novo governo iraquiano Quem vai compor o novo governo iraquiano? A resposta deve sair nesta próxima semana, da boca do enviado especial da ONU ao Iraque, Lakhdar Brahimi. Depois de um longo processo de uma escolha cuidadosa de nomes, Brahimi deverá anunciar uma equipe de 30 pessoas: um presidente, um primeiro-ministro, dois vice-presidentes e 26 ministros. Os cargos de presidente e primeiro-ministro devem ser de um sunita e um xiita, para garantir a representatividade dos dois grupos.
As especulações têm sido muitas, mas a busca por nomes que sejam aceitos por todas as partes envolvidas, incluindo iraquianos e americanos, não parece ser fácil. Na quinta-feira, as buscas tiveram um revés: o cientista xiita Hussein Shahristani, que havia sido preso pelo regime de Saddam Hussein, rejeitou o cargo de primeiro-ministro, para o qual estava sendo cogitado. Mas outro nome apareceu como forte concorrente a um dos principais cargos: Iyad Allawi, que na sexta-feira foi anunciado como primeiro-ministro interino até 30 de junho. Para o posto de presidente, ganhou força nos últimos dias o nome de Adnan Pachachi, um sunita que foi ministro do Exterior na década de 60. Nova tragédia no Haiti A população do Haiti viu-se na semana que termina enfrentando mais uma tragédia de grandes proporções, o que, considerando a sangrenta história recente do país, não surpreende. A novidade é que dessa vez a catástrofe teve causas naturais e, como tal, não viu fronteiras, abraçando também a vizinha República Dominicana. Quase mil pessoas foram mortas nos dois países, que compõem a ilha de Espanhola, no Caribe, nas enchentes que chegaram a alagar cidades inteiras.
Apenas na cidade de Mapou, no Haiti, cerca de 300 corpos foram retirados. Segundo testemunhas, o município tranformou-se num grande lago. A tragédia será mais um desafio para as tropas brasileiras, que, como parte de uma força internacional de paz, começam a desembarcar no país neste sábado. A missão inicial era prevenir confrontos entre quadrilhas de diferentes facções políticas, num país ainda instável desde a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, em fevereiro. Agora, a necessidade maior é distribuir alimentos para as vítimas das enchentes. O cerco a Pinochet Parentes de vítimas do regime do general Augusto Pinochet, no Chile, ainda sonham com a possibilidade de vê-lo um dia no banco dos réus. Na sexta-feira, esse sonho ficou mais próximo de se tornar realidade quando um tribunal chileno, por 14 votos a 9, decidiu derrubar a imunidade de Pinochet. Por ser ex-presidente, ele continuava imune a processos judiciais por crimes, como assassinatos e torturas, cometidos contra civis em nome de seu governo. Resta agora a Pinochet tentará manter o privilégio por meio de um recurso à Suprema Corte do Chile. Líder do golpe que derrubou e levou à morte do presidente Salvador Allende, em 1973, Pinochet está hoje distante daquela poderosa figura que marcou uma das mais repressivas ditaduras latino-americanas. Aos 88 anos, o ex-general estaria enfrentando vários problemas físicos, entre eles diabetes e demência. Mas, para os que sofreram os abusos do seu governo, não resta dúvida: Pinochet será sempre Pinochet. |
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