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Filhos de exilados celebram opção de morar no exterior | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Grupos brasileiros de defesa dos direitos humanos estimam que cerca de 2 mil exilados políticos, vítimas do regime que começou há quarenta anos, começaram a voltar ao Brasil, com a Anistia em 1979. Mas alguns exilados não voltaram. E muitos dos que acabaram voltando preferiram não permanecer no Brasil, retornando ao país no qual foram exilados. Eles vivem nesses países até hoje, e os seus filhos também. Procurando saber mais sobre a vida dos descendentes de exilados que ainda vivem no exterior, percebe-se sentimentos bastante distintos em relação ao Brasil. Bianca Zanini Vasconcellos, cujos pais deixaram o Brasil um pouco depois do Golpe, por exemplo, diz que "é muito difícil se definir como brasileira ou dinamarquesa". Saudades da Dinamarca Aos 19 anos, Bianca nunca morou no Brasil. Seus pais, o artista plástico José Vasconcellos e a pianista Valéria Zanini, moraram no Chile até 1973 e, com a queda do governo de Salvador Allende, foram transferidos para a Dinamarca. A família chegou a voltar ao Brasil, mas sentiu saudade da vida já estabelecida em outro país, regressando mais tarde à Dinamarca onde Bianca nasceu. "Mas sempre procurei ensinar para a Bianca tudo sobre o meu país. Desde o português até detalhes sobre o movimento estudantil e os tempos turbulentos do Brasil. Acho que consegui passar isso para ela", explica José. Bianca concorda e afirma que, um dia, pretende morar no Brasil, nem que seja por apenas um ano. "Preciso ver como é. Economicamente, para mim valeria mais a pena continuar na Dinamarca. Mas o Brasil tem sol, alegria, coisa que aqui não tem", acredita. Muro de Berlim Situação parecida vive o administrador Guarani de Moraes, de 34 anos, que mora em Berlim. Filho de Clodomiro de Moraes, advogado cassado por ser um dos líderes da Liga Camponesa de Francisco Julião, a família de Guarani morou em vários países até estabelecer-se na então Alemanha Oriental. Os pais voltaram para o Brasil definitivamente em 1987, depois de uma breve temporada no Brasil pós-Anistia. Guarani conta que decidiu ficar na Alemanha para terminar os estudos. "Como já tinha morado em tantos países, estava bastante para trás na escola e meu português não era bom o suficiente para encarar um vestibular. Mas a idéia sempre foi entrar na faculdade na Alemanha, e tentar uma transferência para o Brasil", diz Guarani. Só que, em 1989, outro acontecimento importante acabou adiando a volta de Guarani. "O Muro de Berlim caiu e achei que precisava ficar aqui para testemunhar o mundo mudar. Depois, fui ficando", conta. Guarani, no entanto, garante que a velha idéia de morar no Brasil continua. "É engraçado. Tenho 34 anos e nunca comprei um apartamento aqui, procuro não ter muitas raízes porque quero morar no Brasil. Apesar de não poder negar a influência alemã na minha vida e na minha cultura, sou mesmo brasileiro." Adaptação difícil Para a promotora de eventos Rita Calazans Sá Rêgo, o caminho da volta não é tão simples. Rita nasceu em Paris e é filha do músico Ricardo Villas, um dos presos políticos que foi trocado após o seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. A família seguiu para Paris, onde Rita nasceu, em 1970. Com a Anistia, a família voltou. Mas, segundo Rita, os pais não se adaptaram ao Brasil, retornando à França com ela dez anos depois. "Por enquanto não tenho vontade de voltar. Brasil é para passar férias, já tenho uma vida estabelecida aqui", diz Rita. A promotora de eventos, no entanto, afirma que se mantém atualizada com o que acontece no Brasil e diz torcer pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva que, segundo ela, "representa muito para a América Latina". Brasileiro só no futebol Já para o estudante de medicina Magnus Mendez, de 22 anos, a realidade brasileira é muito distante. Desde que nasceu, ele vive em Oslo, na Noruega, onde seu pai, Jorge Baccim Mendez, foi exilado em 1974 depois de viver no Chile. Jorge se casou com uma norueguesa e conta que, por conta disso, Magnus só gosta de ir ao Brasil de férias e nunca aprendeu a falar o português. "A identificação dele com o Brasil acontece apenas quando o assunto é futebol", afirma o pai. Terceira geração Vivendo em Londres, o designer gráfico Pedro Tolipan está prestes a trazer ao mundo um integrante da terceira geração de exilados: espera uma filha. Pedro é afilhado de Vera Sílvia Magalhães, integrante do grupo que seqüestrou Elbrick. Seus pais foram exilados por participarem de movimentos estudantis. A trajetória de Pedro é um pouco diferente. Com a Anistia, a família voltou de Londres, onde Pedro nasceu, para o Rio de Janeiro, onde ele estudou. "Mas depois de formado senti a necessidade de aproveitar a minha cidadania inglesa de alguma forma. Fiz um mestrado aqui e acabei ficando. Estou há seis anos e não penso em voltar por enquanto", conta. Pedro, no entanto, garante que quando a filha for maior, gostaria de viver no Brasil. "Mas tudo dependerá de como estará o país", diz. "Que bom que agora nós podemos escolher." |
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