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Análise: Absolvição de Rusedski provoca crise no tênis | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A decisão do Tribunal Anti-Doping da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP) de inocentar o tenista britânico Greg Rusedski, que testou positivo para um tipo de esteróide, deixou o tênis masculino mundial em crise. A ATP, agora, se vê na seguinte situação: vários dos principais tenistas do mundo testaram positivo para drogas banidas, mas a organização não tem a menor idéia do porquê. Quando traços do esteróide nandrolona foram encontrados na urina de jogadores pela primeira vez, entre 2002 e 2003, a associação disse que isso se devia ao fato de eles tomarem suplementos que, em maio do ano passado, foram banidos. Dois meses depois, Rusedski testou positivo para a mesma droga, o que pode indicar que a teoria dos suplementos contaminados não é a explicação. Criticas à ATP Na sua decisão, o Tribunal Anti-Doping da ATP se referiu ao caso do tenista Bohdan Ulihrach, que, enfrentando as mesmas acusações de Rusedski antes do britânico, havia sido inocentado. O tribunal disse que os treinadores de Ulihrach deram ao jogador os suplementos problemáticos, que depois seriam banidos. Agora, no tocante ao caso de Rusedski, o tribunal disse que a "ATP poderia ter - e deveria ter - tomado providências para notificar os jogadores de uma forma significativa e direta sobre as razões por trás do fim da distribuição" dos suplementos. Ou seja, o tribunal disse que a própria ATP teve culpa no fato de Rusedski ter testado positivo, porque deveria tê-lo esclarecido melhor e a outros jogadores sobre o suplemento. O tribunal também deixou claro que não se sabe ao certo se foram mesmo os suplementos os culpados no caso. O órgão disse que a ATP "criou a situação em primeiro lugar, ao distribuir os suplementos que (...) pareceram ter sido contaminados pelas substâncias proibidas". Desde o início de 2004, 16 jogadores, além de Rusedski, testaram positivo para nandrolona, e outros 43 antes de o ano começar. Isso significa que há quase uma epidemia de nandrolona no circuito mundial de tênis masculino. Ninguém acredita seriamente que todos esses jogadores estavam tomando de forma deliberada os esteróides - especialmente depois do caso Ulihrach. Então, de onde veio a nandrolona? Investigação
A ATP prometeu "redobrar os esforços para identificar a causa desses resultados de testes" e contratou dois peritos para ajudar nas investigações. O órgão precisa de uma resposta plausível, e rápido. O tênis precisa mostrar que é um esporte limpo, para convencer o público a levá-lo a sério. O programa de testes anti-doping é rigoroso - Roger Federer, atual campeão de Wimbledon, foi testado mais de 20 vezes no ano passado - mas tudo isso não significa nada para os fãs, se surgem notícias de escândalos sem explicação envolvendo jogadores. Pessoalmente, para Mark Miles, o diretor-executivo da ATP, a situação também é embaraçosa, devido ao teor crítico do tribunal que avaliou a situação de Rusedski. "O tribunal concluiu que ele (Rusedski) deveria ter recebido uma notificação pessoal sobre o risco de tomar um suplemento eletrolítico previamente distribuído aos jogadores pela ATP, e que não foi suficiente a ATP publicar notas em jornais voltados aos jogadores, em um site dos jogadores e colocar avisos nos vestiários", admitiu Miles nesta quarta-feira. Processo A ATP também precisa esclarecer o que exatamente é seguro para os jogadores tomarem depois dos jogos. Muitos dos 100 primeiros colocados do ranking mundial estão profundamente preocupados com o fato de serem forçados a jogar longas partidas no calor sem poder tomar multivitaminas e bebidas com sais e carboidratos. Para encontrar uma resposta para a questão, a ATP criou uma comissão dirigida pelo ex-tenista do top 10 Jan Leschy e que inclui tenistas como Andre Agassi e Tim Henman - mas o fato de jogadores continuarem testando positivo para nandrolona aumenta a pressão sobre a comissão. A ATP pode ainda ser processada por Rusedski, cuja reputação foi manchada desde que, em janeiro, foi divulgado que ele havia sido flagrado num teste anti-doping. A organização pode argumentar que foi o próprio Rusedski, e não a própria ATP, quem divulgou detalhes sobre o teste. Mas, como Rusedski foi inocentado com base no fato de a ATP não ter sido capaz de provar que não era responsável por ele ter testado positivo, ela estaria em uma posição fraca em caso de processo. Os incidentes dos últimos dois anos deixaram a ATP vulnerável a ser ridicularizada. Rusedski pode estar querendo deixar toda essa bagunça para trás, mas há perguntas demais ainda sem resposta que impedem que a ATP possa fazer o mesmo. *Colaborou Rafael Gomez, de Miami |
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