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O PT está caindo na real, diz Giannetti da Fonseca | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca acha que as acusações de corrupção envolvendo o ex-assessor do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, fazem parte do "doloroso processo de aprendizado" que está sendo vivido pelo Partido dos Trabalhadores desde que chegou ao poder. Ele considera curioso, porém natural, a resistência do partido à instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as denúncias envolvendo o ex-assessor em financiamentos de campanhas eleitorais. "O PT está caindo na real. Ele não é tão diferente dos outros partidos quanto provavelmente gostou de se imaginar no passado", afirma. Giannetti cita o dramaturgo irlandês Oscar Wilde, que disse que "quando querem nos punir os deuses atendem às nossas preces" para explicar a desilusão que vem sendo vivida não só pelos eleitores, mas pelos próprios integrantes do partido. "As preces do PT de chegar ao poder foram atendidas. Agora eles estão sendo punidos com a perda das ilusões acalentadas durante a longa oposição ao regime militar e aos regimes que nós tivemos", afirma. BBC Brasil – Como o senhor vê essa determinação do governo em bloquear a abertura de uma CPI para investigar as denúncias de corrupção envolvendo Waldomiro Diniz, o ex-assessor do ministro José Dirceu? Eduardo Giannetti da Fonseca - Não deixa de ser curioso que o PT, que era tão fanático por CPIs em qualquer motivo quando estava na oposição, adote a postura oposta de tentar contemporizar e evitar a instalação dessa CPI. Mas isso são contingências e circunstâncias da política e uma mudança até esperada de comportamento. BBC Brasil – O senhor acha que o PT, resistindo à CPI, corre o risco de arranhar a reputação de honesto que sempre fez questão de cultivar? Giannetti - Com o tempo isto está fadado a acontecer. Dada a estrutura e o gigantismo do Estado brasileiro, é muito difícil monitorar e impedir que ocorram desvios, que ocorram fraudes, que ocorram comportamentos como esse numa área crítica para todos os partidos no Brasil como essa de financiamento de campanhas políticas. O PT está caindo na real. Ele não é tão diferente dos outros partidos quanto provavelmente gostou de se imaginar no passado. BBC Brasil – À medida que as pessoas, os eleitores, os cidadãos brasileiros passam a ver o PT como um partido como outro qualquer, o senhor vê algum risco para a democracia brasileira? Giannetti - Não vejo. Mas se você observar, de 1985 para cá, todos os partidos brasileiros que se forjaram na oposição ao regime militar foram sucessivamente testados. Primeiro o PMDB, no governo Sarney, depois teve um desvio de rota que foi aquele acidente de percurso do governo Collor, depois o PSDB, que era uma dissidência do PMDB. E agora está tendo o PT, que era o último grande partido gestado na oposição ao regime militar e que ainda não tinha sido testado numa situação de poder em nível federal. De certa maneira, muitas ilusões vão sendo queimadas neste processo. A chegada do PT ao governo federal é a última etapa da queima de ilusões geradas durante a longa oposição ao regime militar. BBC Brasil – E são ilusões de quê? De que poderíamos ter um partido que não fosse tentado por corrupção...? Giannetti - Ilusões de que a mudança na estrutura da desigualdade no Brasil seria um gesto de vontade política, de que o crescimento poderia ser facilmente conquistado apenas mudando o modelo. Ilusões de que as mudanças seriam muito mais fáceis. Ou então de que um partido teria o monopólio da virtude e da honestidade enquanto todos os outros seriam corruptos e aliados ao status quo. A realidade não é assim: tudo ou nada. Há muito mais permanência e muito mais semelhança do que a gente imagina quando passa muito tempo na oposição imaginando que, se estivéssemos lá, tudo seria diferente. BBC Brasil – Mas é uma visão um pouco desiludida, não? Giannetti - É parte do amadurecimento do processo democrático. Essas ilusões de que o voluntarismo e o simples querer mudarão a realidade são típicas de partidos ou segmentos oposicionistas que ficaram muito tempo sonhando com as mudanças que fariam caso estivessem lá. BBC Brasil – Como nunca foram testados, conseguiram vender a imagem de que quando nós estivermos lá tudo vai ser diferente. Giannetti - Eu acho que é um pouco mais grave. Não é que venderam a imagem. De fato eles acreditavam nisso. BBC Brasil – Venderam para os eleitores... Giannetti - E venderam para si mesmos. Só foram tão críveis ao vender para os eleitores porque, antes de mais nada, já tinham acreditado nisso por si mesmos. BBC Brasil – Os eleitores já estão deixando de acreditar nisso. O senhor acha que os petistas, o núcleo de poder do PT, também estão percebendo isso? Ou já perceberam? Giannetti - Não, acho que é um processo de aprendizado e realmente um pouco doloroso para todos os que estão vivendo diretamente essa experiência. Eu me lembrei muito daquele slogan que o Lula usou em outras campanhas, "Sem medo de ser feliz". Eu me lembrei do Oscar Wilde, o dramaturgo irlandês que disse que quando os deuses querem nos punir, eles atendem às nossas preces. As preces do PT de chegar ao poder foram atendidas. Agora eles estão sendo punidos com a perda das ilusões acalentadas durante a longa oposição ao regime militar e aos regimes que nós tivemos. Por isso o medo de ser feliz. Porque no momento em que você é feliz e chega lá você perde aquelas ilusões tão caras, que eram a sua razão de viver. BBC Brasil – E o senhor acha que isso pode ter um custo eleitoral já este ano? Giannetti - Eu não tenho condições de prever isso. Eu acho que vai depender muito da situação municipal. Essa é uma eleição de âmbito municipal e as circunstâncias políticas de cada região do país são muito diferentes. Eu não sei se essa eleição vai virar um plebiscito do governo federal. Eu tenho impressão que não. BBC Brasil – Nem mesmo em São Paulo? Giannetti - Talvez em algumas capitais. Mas de um modo geral acho que não. |
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