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Análise: O candidato e o presidente | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Quando os pretendentes democratas ao Salão Oval da Casa Branca começaram a se enfileirar no ano passado, os estrategistas republicanos os desqualificaram como uma tropa de anões (sete, oito ou nove). A corrida foi deixando para trás alguns anões e do bando emergiu John Kerry. Ele não chega a ser um gigante (apesar do 1,9 metro), mas tem tamanho político, credenciais e está aí o desempenho mais do que respeitável nas 12 prévias estaduais já disputadas. Com as vitórias no fim de semana em Michigan, Washington e Maine, o senador por Massachussetts acumula 10 triunfos. Campanha moribunda Kerry revitalizou uma campanha moribunda e nas últimas semanas melhorou sua atuação pública. Está menos travado e contrasta sua pose de aristocrata com o discurso neopopulista. A fala continua meio enfadonha, mas Kerry ganha vida em particular quando está na companhia do "bando de irmãos", os veteranos da guerra do Vietnã. Os eleitores foram se acostumando com Kerry. É a tal da elegibilidade (ele é o candidato visto como o mais bem equipado para derrotar o presidente republicano George W. Bush). Em geral, mesmo aqueles que não votaram em Kerry nas prévias realizadas até agora, disseram que absorvem bem a idéia de tê-lo como candidato democrata nas eleições em novembro. Kerry ainda tem testes pela frente, alguns imediatos. Em duas disputas que serão realizadas nesta terça-feira (Virginia e Tennessee), o candidato ianque precisa provar seu poder eleitoral no sul americano (memórias da Guerra Civil americana que teve lugar há 140 anos não morrem tão cedo). Dois anões sulistas ainda na corrida (o senador John Edwards e o general da reserva Wesley Clark) garantem que irão crescer e aparecer no seu quintal. As pesquisas dando vantagem de dois dígitos para Kerry mostram que Edwards e Clark provavelmente não estão mais à altura do favorito disparado. Dean E há a cartada desesperada de Howard Dean, o ex-gigante que foi encolhendo mesmo antes do inicio da corrida. Ele diz que jogará suas fichas nas primárias de Wisconsin no dia 17. Já Edwards e Clark prometem seguir adiante pelo menos até março. Mas e o dinheiro para a campanha? E as tropas de ativistas? E os endossos? Bem, todo este capital eleitoral agora está sendo canalizado para John Kerry, o vitorioso. O grandão de Massachussetts se concentra cada vez mais no presidente Bush e menos nos rivais partidários. Kerry não está sendo precipitado. Ele ainda não foi consagrado candidato democrata, mas os estrategistas republicanos também já calibram seus ataques contra Kerry, com a fuzilaria esperada contra o seu liberalismo (que no jargão ideológico americano deve ser entendido como esquerdismo), que é excessivo para o gosto nacional. Kerry diz que sabe revidar e no fim de semana enfatizou que ele é o centrista combatendo uma Casa Branca extremista. Kerry tem argumentos mais picantes. Herói da guerra do Vietnã, ele engrossou o coro de perguntas sobre lapsos no serviço militar de Bush no conflito (que com a ajuda do pai se alistou na Guarda Nacional do Texas). Alguns mais desbocados, como o cineasta e autor Michael Moore, dizem simplesmente que o presidente foi um desertor. A resposta de Bush Em uma rara entrevista face a face, realizada no domingo com o influente jornalista Tim Russert na rede de televisão NBC, Bush sinalizou uma nova fase de sua campanha de reeleição. Obviamente ele não se referiu diretamente a Kerry, mas considerou politicagem o questionamento do seu serviço militar. O fato concreto é que o presidente precisa acelerar seus contra-ataques com a queda de sua taxa de aprovação, a controvérsia sobre armas de destruição em massa no Iraque e o espaço retórico ocupado por políticos democratas de todos os tamanhos. Nos seus comícios, John Kerry diz de forma incontável que os dias de Bush na Casa Branca estão contados. Mas ainda restam muitos dias até a eleição. John Kerry cresceu, mas o presidente não ficará passivamente por baixo. Irá à luta com uma montanha de dinheiro, as prerrogativas do cargo e sua sorte legendária. |
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