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Atualizado às: 06 de fevereiro, 2004 - 02h42 GMT (00h42 Brasília)
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Análise: Por trás das falhas de inteligência sobre o Iraque

O secretário de Estado americano, Colin Powell
Powell defendeu na ONU um ultimato contra o Iraque de Saddam Hussein
Um ano depois de o secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell, ter apresentado ao Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas)os fatos que ajudaram a sustentar a ofensiva contra o Iraque, as atenções estão voltadas para as falhas de inteligência e como elas aconteceram.

No dia 5 de fevereiro de 2003, Powell afirmou: "Toda declaração que eu fizer hoje é baseada em fontes, fontes sólidas. Não são afirmações. O que nós estamos dando a vocês hoje são fatos e conclusões baseados em sólidas fontes de inteligência".

Após um ano, aquela declaração é difícil de se justificar em vários aspectos-chave. Até mesmo Colin Powell diz agora que ele "não sabe" se ele teria apoiado a guerra se ele soubesse que não existiam armas de destruição em massa, como ele afirmou em seu discurso.

O que é grave é a forma de pensar que a declaração demostra que existia. A suspeita natural contra Saddam Hussein significou que muitos documentos de inteligência foram interpretados de maneira desfavorável, mesmo quando outra interpretação estava disponível.

E é essa tendência que alguns especialistas acreditam que está por trás da falha de inteligência. De maneira simples, você vê o que você quer ver.

Isso aconteceu em assuntos de guerra muitas outras vezes.

Stalin se negou a acreditar que Hitler o atacaria em junho de 1941.

Os israelenses não acreditaram no que era evidente até que o Egito cruzou o Canal de Suez, em 1973.

A Grã-Bretanha falhou ao não prestar atenção aos sinais de que a Argentina tomaria as ilhas Malvinas, em 1982.

Medo e ressalvas

No caso do Iraque, se sabia que Saddam Hussein já havia desenvolvido e usado armas de destruição em massa antes.

Os relatórios da inteligência, portanto, se basearam na hipótese de que ele poderia tentar novamente.

As informações que apontaram nessa direção receberam importância. Informações que não apontaram no mesmo sentido suscitaram dúvidas.

David Kay, o ex-chefe do Grupo de Investigação do Iraque, colocou seu dedo em uma das questões centrais ao dizer que o isolamento e a corrupção na sociedade iraquiana significavam que informações de inteligência precisas, vindas de fontes confiáveis, eram muito difíceis de se conseguir.

Ele comparou a falha à impressão errada do sucesso econômico da União Soviética no século 20.

"Nós somos particularmente ruins para entender tendências sociais", disse ele a um comitê do Senado.

Acreditando no pior

O ex-agente da CIA Kenneth Pollack, em uma longa análise na revista Atlantic Monthly sobre o que deu errado, também se refere à atitude de que não se esperava o bem de Saddam.

"Todo mundo fora do Iraque não foi capaz de enxergar a estratégia de Saddam em 1995 e 1996 - ou seja, de ajustar seus programas de armas de destruição em massa para minimizar as chances de futuras descobertas - e assumiu que o antigo comportamento do Iraque persistia."

Olhando para trás, há muitos exemplos dessa forma de pensar na apresentação de um ano atrás de Powell.

1. Material cujo paradeiro simplesmente não foi identificado deve ser arma

O inspetor da ONU Hans Blix sabia que o Iraque não havia explicado completamente o que aconteceu com grandes quantidades de agentes biológicos e químicos, mas nunca poderia ter falado que isso era potencialmente insignificante.

Isso fez com que houvesse uma abertura que poderia ser explorada por aqueles que argumentavam que a ausência de provas não era prova de ausência.

Powell se utilizou dessa abertura. Ele declarou que Saddam Hussein admitiu ter 8,5 mil litros de antraz, mas que ele "poderia ter produzido 25 mil litros".

Não havia evidência de que ele realmente teria feito isso, mas sim a possibilidade de que ele poderia tornar real a probabilidade.

Depois, Powell disse que "o Iraque hoje tem um estoque entre 100 e 500 toneladas de armas químicas". Esse agente nacional então se torna maior na frase seguinte: "Isso é material suficiente para carregar 16 mil armas de batalha".

2. Confiando em fontes homanas potencialmente não-confiáveis: os laboratórios móveis

Powell se apoiou em fontes humanas em sua alegação de que caminhões - representados por "interpretações artísticas" na apresentação que fez ao Conselho de Segurança - eram o que ele descreveu como sendo "laboratórios móveis de agentes biológicos". Ele citou quatro fontes como a origem da informação e disse que o Iraque tinha pelo menos sete desses caminhões.

Dois foram encontrados, mas, o que é crucial, não houve consenso sobre a função deles. O site da CIA na internet ainda insiste que eles eram para produção de agentes para uso em armas de destruição em massa.

Mas David Kay disse ao Comitê do Senado: "Eu acho que a opinião consensual é que, quando você analisa esses trailers, ainda que eles tivessem potencial de uso em várias áreas, seu objetivo original de fato não era a produção de armas biológicas".

3. Assumindo posições em fatos polêmicos de inteligência: os tubos de alumínio

Este é um exemplo claro de evidências físicas de inteligência que, ainda que sem indicar nada de concoreto, foram apresentadas como "confiáveis" no balanço das possibilidades.

Powell de fato mencionou que havia dúvidas quanto à função dos tubos - se eram para uso em centrífugas para enriquecimento de urânio ou se eram para uso em foguetes, como concluíram alguns peritos.

Mas o secretário de Estado permaneceu firme na sua defesa da primeira opção. O tema permanece em aberto até hoje.

4. Inteligência remota: interpretando fotografias aéreas

Muito foi falado sobre as fotos, que aparentemente mostravam depósitos de armas químicas. Como nenhum grande depósito de armas do tipo foi encontrado, a atividade mostrada nas fotos permanece um mistério.

As fotos tiveram um impacto quando foram divulgadas. Mas não foram sustentadas por nenhuma descoberta em terra.

Os pontos fortes

Do outro lado da moeda, outras alegações feitas por Powell permanecem fortes.

As fitas contendo conversas telefônicas entre membros da Guarda Republicana iraquiana contêm referências à remoção de um "veículo modificado" e à necessidade de esconder referências a "agentes nervosos". Elas continuam sendo sugestivas, mas não determinam o paradeiro do veículo ou dos agentes.

A acusação de que o Iraque estava desenvolvendo mísseis com alcance além do permitido pela ONU foi provada.

Também forte foi a descrição feita por Powell de como o Iraque fracassou em provar sua inocência, abrindo seus livros e locais suspeitos para inspeção e permitindo que seus cientistas falassem com fiscais, conforme o previsto na resolução 1441.

As conclusões de Kay

A conclusão de Kay é que o Iraque estava conduzindo "atividades relacionadas a um programa de armas de destruição em massa". Essa foi uma frase que ele mesmo havia usado em um relatório preliminar em outubro de 2003 e que foi usada pelo presidente Bush.

Exemplos disso, explicou Kay ao Comitê do Senado, foram o trabalho iraquiano no desenvolvimento de um gás precursor do VX e na produção de antraz na forma seca. Seu relatório preliminar também continha referências a uma rede clandestina de laboratórios e a trabalhos envolvendo ricina e aflatoxina.

Essa é uma atividade perigosa e ilegal, mas alguns dizem que ela não condiz com a alegação feita por Powell ao Conselho de Segurança de que "Saddam Hussein e seu regime não fizeram nenhum esforço, nenhum esforço, para se desarmar, como pedido pela comunidade internacional."

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