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Atualizado às: 13 de janeiro, 2004 - 04h27 GMT (02h27 Brasília)
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Tensão entre Brasil e EUA deve aumentar, dizem analistas

Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e dos EUA, George W. Bush
Bush e Lula: tensão de 2003 pode ter sido apenas a ponta do iceberg

Marcadas por tensões comerciais e diplomáticas em 2003, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos devem se deteriorar em 2004, disseram analistas durante um evento em Nova York, nesta segunda-feira.

Além de antigas diferenças que deverão persistir, como as que envolvem a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a invasão americana no Iraque, Brasília e Washington têm demonstrado crescente dificuldade em se entender em questões como as políticas de imigração e as inspeções do programa nuclear brasileiro.

"Acho que o Brasil não deve gastar o tempo do (secretário de Estado americano) Colin Powell em temas que não são importantes, como é o que tem acontecido no caso do fichamento dos turistas americanos nos aeroportos brasileiros," disse Peter Hakim, presidente do instituto de pesquisas Inter-American Dialogue.

"Desde setembro do ano passado, o governo Bush, que demonstrou uma surpreendente boa vontade com o governo Lula no começo de 2003, demonstra uma crescente frustração com Brasília," acrescentou.

Reação

As declarações de Hakim foram feitas durante o evento Brazil 2004 Economic Forum, promovido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos nesta segunda-feira.

Falando à BBC Brasil, um outro membro do painel de debate do evento, o cientista social Murillo de Aragão, disse que concorda com a previsão de crescimento de tensão entre Brasil e Estados Unidos feita por Hakim.

Na platéia, o cônsul brasileiro em Nova York, Julio César Santos, também não discordou da visão do presidente do instituto Inter-american Dialogue, mas ressaltou que não concorda com alguns dos pontos levantados por ele.

"A decisão de fichar os cidadãos norte-americanos não partiu do governo federal brasileiro, e sim de um juiz do estado do Mato Grosso," disse Santos. "E no caso das inspeções nucleares, não faz sentido comparar o Brasil a países como Coréia do Norte, Líbia ou Irã."

"Justamente porque o programa nuclear brasileiro é para fins pacíficos, o Brasil deveria assumir a liderança de convidar a ONU (Organização das Nações Unidas) a realizar quaisquer inspeções que julgar necessárias," disse Hakim.

"Isso acabaria com qualquer comparação indevida entre os Brasil e esses demais países."

"O Brasil tem demonstrado que pode ser um líder na América Latina e como tal, precisa eleger questões importantes, como comércio e multilateralismo, e não criar ou alimentar dificuldades desnecessárias, como é o caso do fichamento dos turistas ou das inspeções," disse.

Troca de postos

De acordo com os participantes do evento, como Hakim e Aragão, as relações entre Brasil e EUA também deverão ser negativamente afetadas pela saída do embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, e da embaixadora americana em Brasília, Donna Hrinak.

Ambos devem deixar seus postos nos próximos meses. Credita-se à habilidade de Barbosa e de Hrinak a superação de tensões entre os governos Lula e Bush no ano passado.

Nomeado pelo governo Fernando Henrique Cardoso em 1999, Barbosa, que deve se aposentar no próximo mês de março, deverá ser substituído por Roberto Abdenur, ex-embaixador brasileiro em Viena, e mais afinado com o atual chanceler brasileiro, Celso Amorim.

O nome do sucessor de Hrinak ainda não foi divulgado pelo governo americano.

Mas acredita-se que o novo embaixador terá um perfil mais conservador do que Hrinak, que jamais escondeu sua simpatia pelo Brasil e também demonstrou habilidade em contornar questões delicadas, como as diferenças entre os dois países em relação ao Iraque.

Graças em parte a Hrinak, os Estados Unidos demonstraram maior tolerância com o Brasil do que com demais países contrários à política de Washington em relação a Saddam Hussein.

Lula foi o primeiro chefe de Estado a ser recebido na Casa Branca por Bush mesmo depois de ter criticado abertamente a política americana para o Iraque.

Risco Brasil

Já do ponto de vista econômico, segundo os palestrantes, o atual cenário americano, marcado por alta liquidez e uma taxa de juro historicamente baixa – de 1% ao ano – deverá favorecer a queda do dólar, do risco Brasil, além de acelerar o crescimento da economia brasileira.

"Estamos vivendo o maior choque positivo da história econômica do Brasil," disse o economista Affonso Celso Pastore, presidente da consultoria Pastore e Associados.

"Acredito que, num futuro visível, o Brasil – assim como todas as demais economias emergentes – deverá contar com uma taxa baixa para o risco-país, possivelmente na casa dos 400 pontos."

Assim como Pastore, o economista inglês John Williamson, do Institute for International Economics, acredita que ainda existe espaço para que o real se recupere diante do dólar nos próximos meses.

"O real poderia ficar entre 2,50 e 2,70 diante do dólar e ainda assim manter as exportações brasileiras num nível confortável de competitividade," disse Williamson.

"Agora, o grande desafio para o governo Lula é não cair na tentação de abandonar a austeridade econômica e adotar políticas populistas. O Brasil não deve se esquecer que sua dívida pública continua bastante alta, atingindo quase 60% de seu Produto Interno Bruto," acrescentou.

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