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'Quando meu filho nasceu, deixei o tráfico', afirma jovem
S. C. S. F., 23 anos de idade, trabalhou no tráfico de drogas dos 14 aos 21 anos. Começou como olheiro, virou vapor – aquele que vende a droga para os consumidores – e chegou a “soldado”, participando de confrontos armados com a polícia e facções rivais. “Quase todos os meus amigos morreram”, diz ele, “agora, é a nova geração que está no tráfico, já nem conheço mais esses meninos”. Ele conta que, para o traficante, a vantagem de usar menores de idade no tráfico é que eles ficam presos por menos tempo que os adultos. De acordo com as leis do tráfico, o “chefe” do morro manda dinheiro para os seus “soldados” enquanto eles estiverem na prisão. “O crime é realmente organizado”, conta S.”Há mais crianças e jovens no tráfico do que adultos. Mas são as crianças que procuram o traficante.” S. decidiu entrar para o tráfico por causa de dinheiro. Ele afirma que, se sua mãe tivesse melhores condições para sustentar os dois filhos, não teria procurado esse caminho. O jovem largou o tráfico quando seu filho nasceu, há cerca de dois anos, porque brigou com alguns companheiros da facção em que atuava e porque não queria essa vida para o filho dele. Depoimento Leia abaixo o depoimento exclusivo de S. à BBC Brasil. "Quando entrei para o tráfico, eu era menor de idade, não tinha maldade e não entendia muito sobre o tráfico ou sobre a vida. Tinha 14 para 15 anos e entrei por causa de um amigo, que me chamou. Numa comunidade carente, quando você não tem dinheiro para comprar um tênis, uma roupa, muitas vezes procura esse caminho. Minha mãe sabia que eu estava no tráfico, mas ela não podia fazer nada, só sofrer. Ela é separada, tinha eu e meu irmão para criar, tinha que pagar aluguel, ganhava salário mínimo... sofria, mas ficava calada. Ela não tinha o que fazer, para onde me levar. Às vezes não está faltando nada dentro de casa, mas aí você vê um colega com um tênis que você não tem e quer comprar um igual. Você arruma um trabalho, mas o dinheiro do trabalho não paga. Aí você vai e parte para aquela vida. A maior parte dos jovens que entram para o tráfico entra por causa do dinheiro. Muitos chegaram a trabalhar antes de entrar para o tráfico, mas não ganharam dinheiro suficiente, então procuram esse caminho. É mais difícil para esses saírem dessa vida. Quando era pequeno, meu sonho era ser o dono da favela. Agora só penso em trabalhar, arrumar dinheiro para sustentar meu filho. Eu estudei até a sexta série, quando ainda estava no tráfico. Muitos dos jovens envolvidos no tráfico vão à escola, eles têm a esperança de conseguir uma coisa melhor. No tráfico, você ganha dinheiro fácil, vem mulher fácil, você começa a comprar uma roupa aqui, ouro, quando vê, aquela é a tua vida. Se não tiver outros amigos, que trabalhem em outros lugares, fica difícil sair. Quando você tem esses amigos, eles te incentivam, te chamam para mudar de vida. Muitas vezes, muitos jovens querem sair, mas não conseguem porque já estão fissurados naquilo. Muito dinheiro fácil, mulheres. Hoje eu sei que é tudo ilusão. Prefiro usar o mesmo tênis a semana toda, no fim de semana, mas estar tranqüilo. Conforme os anos foram passando, a situação foi ficando pior. Quando eu era menor, era tudo tranqüilo. Eu não tinha medo, se fosse preso, iria para uma dessas instituições para crianças e depois de poucos meses estaria na rua, mas quando fiz 16, 17 anos, foi ficando mais perigoso. Comecei a participar dos confrontos armados, a trocar tiros com a polícia, com facções rivais, vi meus companheiros caindo do meu lado, aí fui ficando com medo. Eu sabia que, se a polícia me pegasse, iria me matar. Isso deixa os caras ainda mais psicopatas, com a mente mais terrorista, como os grandes traficantes, tipo Fernandinho Beira-Mar. Nessa idade, ainda cheguei a sair do tráfico porque queria me alistar, servir ao Exército. Fiquei fazendo uns bicos, tirei meu título de eleitor... Mesmo trabalhando no tráfico, eu não tinha ficha na polícia, nunca tinha sido preso. Eu me preparei para o Exército, mas acabei sobrando, então, voltei. Com 19 anos, eu tinha essa idéia de sair, mas não consegui. Aí arrumei uma mulher, companheira, que depois de um tempo engravidou. Nove meses depois, eu continuava no tráfico, mas com vontade de sair. Se você não estiver devendo nada para o traficante, você pode sair. O problema é se tiver dívida. Quando saí, enteguei tudo, eu tinha duas armas de fogo, duas pistolas, pente de munição, granada, radinho de comunicação, desses que aparecem na televisão. Entreguei tudo e saí. Foi depois disso, quando eu estava em casa, de bobeira, tentando arrumar um biscate, um emprego de servente de obra, que conheci o projeto "Luta pela Vida" e comecei a assistir às aulas de cidadania e a treinar boxe. Acho que foi o nascimento do meu filho que me tirou dessa vida. Se ele não tivesse nascido, estaria nessa vida até hoje." |
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