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De trabalhadora doméstica a representante internacional
A jovem Marcela Luisa Arcanjo Pereira, de 21 anos, começou a trabalhar como empregada doméstica aos 11 anos de idade. Assim como milhares de crianças que ingressam no mercado de trabalho precocemente, Marcela buscou um emprego por dificuldades financeiras. "Minha mãe estava com problemas de saúde, internada no hospital, meu pai passava a maior parte do tempo com ela. Nós somos seis irmãos, se eu não trabalhasse não poderia continuar estudando", conta Marcela. Depois de ter ingressado a organização não-governamental Circo de Todo Mundo, Marcela se tornou ativista do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) e representou o Brasil num encontro internacional, no Senegal. Ela contou sua história à BBC Brasil. "Quando eu conheci o Circo de Todo Mundo, eu tinha 12 anos de idade e foi num momento meio complicado da minha vida. Eu vim do trabalho infantil doméstico, eu trabalhava desde os 11 anos de idade e quando completei 12 anos tive um problema sério de coluna e fiquei afastada do emprego. O problema foi consequência de fazer faxina, carregar móveis pesados... pelo menos foi o que o médico disse, porque eu não sofri nenhum acidente, não caí nem nada. A causa foi o trabalho precoce mesmo. Eu comecei a fazer fisioterapia nesse período e o circo tinha um trailer, do Projeto de Recreação do Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua. O MNMMR luta pela garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes, e a parte pedagógica é feita através dos núcleos de base. É o momento que os meninos têm para discutir seus direitos, construir sua cidadania. Eu freqüentei o circo no final de 1994, e em 1995 foi aberto um núcleo na minha comunidade. Aí os meninos me elegeram representante do núcleo básico do movimento e também para ir para Brasília, para os encontros nacionais que acontecem a cada três anos. É quando os meninos do movimento se encontram para discutir um assunto abrangente em nível nacional. Nesse mesmo ano, também fui eleita para ir para o Senegal, na África, representando o MNMMR e o Brasil na primeira reunião preparatória de crianças e adolescentes trabalhadores. A gente lutava para dar emprego para os pais. Eu dizia que estava no mercado de trabalho, mas não por que eu queria. Eu queria era estudar. Quando procurei emprego, foi para continuar na escola, para pagar meu material escolar, uniforme, eu achei que conseguiria conciliar escola e trabalho. Eu tinha 12 anos, era doméstica. fazia tudo. Lavava, passava, cozinhava, faxinava, cuidava de cachorro, tudo. Eu ia para a escola de manhã e trabalhava de meio-dia às seis. À noite eu estudava. O meu nível na escola caiu muito nessa época, mas a minha vontade era continuar estudando, não perder a escola. Eu passava madrugadas estudando. Consegui completar o segundo grau e neste ano vou fazer vestibular para serviço social. Eu perdi a infância e a adolescência. Antes de ir para o mercado de trabalho formal, já trabalhava em casa, levava meu irmão para o jardim... era muito filho, eu fazia isso, fazia aquilo e aí acabei perdendo toda a infância e adolescência, porque me tornei um adulto precoce. Eu acho que resgato parte desse tempo no trabalho que faço hoje com os meninos e meninas do circo, que têm entre 7 e 17 anos de idade. Eu hoje faço um trabalho de cidadania com as crianças. Construir e resgatar. Eu debato com eles os direitos das crianças e dos adolescentes, temas do dia-a-dia, como drogas, Aids." |
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