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'Não sei o que seria de mim se não fosse o circo'
O jovem Euler Batista da Silva, de 18 anos, começou a trabalhar aos oito anos de idade, num abatedouro de frango. "Eu comecei ajudando minha tia. Eu ajudava a empacotar os frangos e, depois de um certo tempo, comecei a matar os frangos e a vender também." Euler é o exemplo típico de uma criança que começou a trabalhar desde cedo e em seguida largou a escola, por razões financeiras. Mas, contrariando as estatísticas, ele entrou para a organização Circo de Todo Mundo, onde conseguiu mudar sua trajetória. Leia aqui o depoimento de Euler à BBC Brasil. "Minha tia já trabalhava no abatedouro havia muitos anos e me levava sempre porque não tinha com quem me deixar. Aí eu fui aprendendo até começar. Nos fins de semana eu ia para o serviço, durante a semana ia para a escola, mas só completei a sétima série. Quando eu tinha 12 anos comecei a trabalhar também numa fábrica de pão de queijo. Eu escaldava a massa e empacotava os pães de queijo. O mais difícil no pão de queijo é que os meus braços doíam muito, porque eu escaldava a massa com a mão, o escaldo era muito quente, às vezes queimava. Eu ficava mexendo muito tempo, ficava com medo de ter algum problema no braço. No frango eram os cortes na mão. Eu sempre cortava a mão, acho que tenho cicatrizes até hoje de quando eu mexia com frangos. Eu tive muitas perdas porque trabalhava nos fins de semana e, sempre, na minha escola, as excursões eram nos fins de semana. Também sempre havia festas nos fins de semana e eu nunca pude comparecer. Era difícil, eu ficava na rua, conversando com os amigos e era muito difamado, diziam que eu roubava, mexia com drogas. Um dia, minha tia e minha prima falaram isso de mim e eu comecei a batucar na minha cabeça e comecei a trabalhar mais ainda. Eu tinha dez anos de idade. Até hoje, quando entro num supermercado ou vou a outro lugar, se estiver mal vestido as pessoas começam a olhar torto para mim. Eu não aceito, acho um desrespeito. Em 1999 entrei para o Circo de Todo Mundo. Hoje faço de tudo aqui, tenho domínio de todas as atividades. O meu cargo aqui no circo é de assistente de professor, ganho um salário para isso. Mudou muita coisa desde que entrei para cá, tanto na vida social, quanto na minha educação, no meu jeito de conversar com os outros. Quando entrei para o circo já não estava estudando. Depois de um ano voltei a estudar. Eu pretendo me capacitar ao máximo e ir para fora do Brasil. Meu sonho é trabalhar fora do Brasil, mexendo com o circo mesmo, seja apresentando ou sendo professor. Acho que isso não está muito longe de acontecer. O conselho que dou para uma criança que trabalha é que ela entre num curso, se capacite mais. Não é para ela achar que vai perder porque não está trabalhando, porque no futuro ela vai ter uma profissão. E vai estar mais capacitada para exercê-la. E eu nem sei o que seria de mim se o circo não tivesse aparecido. Acho que iria passar o resto da vida matando frango, ganhando R$ 22 por semana." |
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