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Atualizado às: 18 de outubro, 2003 - 16h05 GMT (13h05 Brasília)
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EUA poderiam ter evitado crise na Bolívia, dizem analistas

Política de Sánchez de Lozada gerou descontentamento popular no país
Política de Sánchez de Lozada gerou descontentamento popular no país

Os Estados Unidos e entidades como a Organização dos Estados da América (OEA) expressaram apoio ao ex-presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada quando teve início a atual revolta social no país.

No entato, o governo americano poderia ter feito mais para evitar a crise?

De acordo com a maioria dos analistas entrevistados pela BBC, Washington e instituições multilaterais poderiam ter agido antes da crise ter estourado.

"O apoio esperado foi dado verbalmente, mas a hora de ajudar a Bolívia passou. Passou em fevereiro, quando a comunidade internacional poderia ter dado dinheiro para estabilizar o governo e não o fez", afirma Miguel Díaz, diretor do projeto Mercosul do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos.

Ainda em abril, Jeffrey Sachs, consultor da ONU e um acadêmico conceituado, advertiu os Estados Unidos sobre a situação na Bolívia.

"A adminstração (americana) não está reconhecendo sequer o desastre que está ajudando a criar" escreveu Sachs há seis meses em um artigo no jornal Financial Times.

Em fevereiro deste ano, logo após os incidentes que deixaram vários mortos na Bolívia, o ministro das Relações Exteriores boliviano, Carlos Saavedra Bruno, foi a Washington para pedir ajuda e até pôs um preço para "salvar a democracia".

Durante a visita, Saavedra Bruno pediu US$ 50 milhões (cerca de R$ 143,5 milhões) para pagar professores, policiais e funcionários da área de saúde, a fim de aliviar as tensões sociais no país.

Mas dos US$ 50 milhões pedidos, Washington só concordou em emprestar US$ 10 milhões, que não eram sequer fundos novos, como explicam analistas.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, chegou em a um acordo com a Bolívia em fevereiro de US$ 123 milhões (cerca de R$ 353 milhões).

O empréstimo deve ter sido estimulado pelo fato de que o FMI havia sido duramente criticado pelas condições que impôs a um governo que tinha pouca margem de negociação com a oposição.

Paradoxo

O mais paradoxal é que Sánchez de Lozada foi um grande parceiro da administração Bush, tendo, inclusive apoiado a guerra contra o Iraque, ainda que outros países da região tenham preferido se manter à margem do conflito.

De acordo com Miguel Díaz, do Centro de Estudos Estratégicos, o governo de Sánchez de Lozada "foi um bom amigo dos Estados Unidos. Ele nos apoiou na guerra contra as drogas, sacrificando vidas, tempo, recursos e energia para lutar uma guerra que interessa mais a Washington do que à Bolívia, porque lá, o consumo de cocaína processada é mínimo".

Não eram estes, no entanto, os únicos itens que aproximavam o governo do presidente que acaba de renunciar e os EUA. O ex-presidente defendia o controverso projeto de gás que causou polêmica na Bolívia e que supostamente beneficiava os Estados Unidos.

Por isso, diz Gary Payne, professor de sociologia do Center Lake College, no Estado americano do Minesota e autor de uma tese sobre a Bolívia, o apoio do ex-presidente aos Estados Unidos teve um "efeito bumerangue".

"Ele (Sánchez de Lozada) foi perfeito para a administação Bush, apoiou o plano de erradicação da coca e, além do mais, estava de acordo com o projeto de gás. Foram exatamente esses fatores que levaram à sua impopularidade", disse.

Guerra contra as drogas

Para todos os analistas, está claro que o projeto de exportar mais gás natural foi o catalizador da crise, mas eles destacam ainda que a erradicação do cultivo de coca foi o que alimentou por vários meses o descontentamento social.

Em seu artigo no Financial Times, Jeffrey Sachs explica que a vontade dos bolivianos em erradicar o tráfico de drogas é até maior que a dos americanos, mas, afirma o analista, eles sabem que a erradicação sem alternativas significa "exclusão e tensão social".

Para Eileen Rosin, analista do Washington Office on Latin America (WOLA) está claro que a Bolívia é um exemplo de país no qual a política de Bush contra o narcotráfico foi contraproducente.

"Não foi dada margem de negociação para Sánchez de Lozada. Com sua política de tolerância zero com os cultivos de coca e com o sistema de erradicação que deixa os camponeses sem nenuma outra opção, os Estados Unidos imobilizaram o presidente boliviano", afirma.

"Se houvessem compreendido melhor a situação e a cultura da Bolívia, os americanos teriam compreendido que esta política só iria piorar as coisas e agravar a crise", acrescenta.

Para Miguel Díaz, foi um erro marginalizar Evo Morales, candidato derrotado à presidência boliviana e líder dos produtores de coca do país.

"Foi um equívoco grave não ter sido estabelecido um diálogo construtivo com a oposição, sobretudo devido à política antidrogas de Washington. E não ter estabelecido qualquer tipo de trato com Evo Morales foi uma falta de sabedoria política", diz o analista do CSIS.

"Vareta mágica"

Peter Hakim, diretor do Diálogo Interamericano, em Washington, diz que é fato que os Estados Unidos poderiam ter feito mais, mas que não adianta buscar um único fator como bode expiatório.

"Os Estados Unidos poderiam ter ajudado a consolidar o governo de Sánchez de Lozada, mas é preciso levar em conta a fragilidade do sistema político da Bolívia. Há muitos fatores, entres eles, anos de pobreza, a frustração da população e ninguém tem uma vareta mágica", diz Hakim.

"É difícil dizer se, levando em conta os problemas que existem na Bolívia, a crise teria sido evitada com o empréstimo de mais dinheiro para o país", acrescenta Hakim.

Ninguém duvida que agora é difícil dizer o que se passou e o que acontecerá, mas a grande pergunta que paira no ar é se a comunidade internacional e Washington podem ainda fazer algo agora ou se tudo terminará no "apoio verbal".

"O que fazer agora? O importante é evitar o derramento de sangue, e os Estados Unidos e a OEA devem apoiar uma solução que envolva um processo eleitoral pacífico", diz Hakim.

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