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EUA poderiam ter evitado crise na Bolívia, dizem analistas
Os Estados Unidos e entidades como a Organização dos Estados da América (OEA) expressaram apoio ao ex-presidente boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada quando teve início a atual revolta social no país. No entato, o governo americano poderia ter feito mais para evitar a crise? De acordo com a maioria dos analistas entrevistados pela BBC, Washington e instituições multilaterais poderiam ter agido antes da crise ter estourado. "O apoio esperado foi dado verbalmente, mas a hora de ajudar a Bolívia passou. Passou em fevereiro, quando a comunidade internacional poderia ter dado dinheiro para estabilizar o governo e não o fez", afirma Miguel Díaz, diretor do projeto Mercosul do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos. Ainda em abril, Jeffrey Sachs, consultor da ONU e um acadêmico conceituado, advertiu os Estados Unidos sobre a situação na Bolívia. "A adminstração (americana) não está reconhecendo sequer o desastre que está ajudando a criar" escreveu Sachs há seis meses em um artigo no jornal Financial Times. Em fevereiro deste ano, logo após os incidentes que deixaram vários mortos na Bolívia, o ministro das Relações Exteriores boliviano, Carlos Saavedra Bruno, foi a Washington para pedir ajuda e até pôs um preço para "salvar a democracia". Durante a visita, Saavedra Bruno pediu US$ 50 milhões (cerca de R$ 143,5 milhões) para pagar professores, policiais e funcionários da área de saúde, a fim de aliviar as tensões sociais no país. Mas dos US$ 50 milhões pedidos, Washington só concordou em emprestar US$ 10 milhões, que não eram sequer fundos novos, como explicam analistas. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, chegou em a um acordo com a Bolívia em fevereiro de US$ 123 milhões (cerca de R$ 353 milhões). O empréstimo deve ter sido estimulado pelo fato de que o FMI havia sido duramente criticado pelas condições que impôs a um governo que tinha pouca margem de negociação com a oposição. Paradoxo O mais paradoxal é que Sánchez de Lozada foi um grande parceiro da administração Bush, tendo, inclusive apoiado a guerra contra o Iraque, ainda que outros países da região tenham preferido se manter à margem do conflito. De acordo com Miguel Díaz, do Centro de Estudos Estratégicos, o governo de Sánchez de Lozada "foi um bom amigo dos Estados Unidos. Ele nos apoiou na guerra contra as drogas, sacrificando vidas, tempo, recursos e energia para lutar uma guerra que interessa mais a Washington do que à Bolívia, porque lá, o consumo de cocaína processada é mínimo". Não eram estes, no entanto, os únicos itens que aproximavam o governo do presidente que acaba de renunciar e os EUA. O ex-presidente defendia o controverso projeto de gás que causou polêmica na Bolívia e que supostamente beneficiava os Estados Unidos. Por isso, diz Gary Payne, professor de sociologia do Center Lake College, no Estado americano do Minesota e autor de uma tese sobre a Bolívia, o apoio do ex-presidente aos Estados Unidos teve um "efeito bumerangue". "Ele (Sánchez de Lozada) foi perfeito para a administação Bush, apoiou o plano de erradicação da coca e, além do mais, estava de acordo com o projeto de gás. Foram exatamente esses fatores que levaram à sua impopularidade", disse. Guerra contra as drogas Para todos os analistas, está claro que o projeto de exportar mais gás natural foi o catalizador da crise, mas eles destacam ainda que a erradicação do cultivo de coca foi o que alimentou por vários meses o descontentamento social. Em seu artigo no Financial Times, Jeffrey Sachs explica que a vontade dos bolivianos em erradicar o tráfico de drogas é até maior que a dos americanos, mas, afirma o analista, eles sabem que a erradicação sem alternativas significa "exclusão e tensão social". Para Eileen Rosin, analista do Washington Office on Latin America (WOLA) está claro que a Bolívia é um exemplo de país no qual a política de Bush contra o narcotráfico foi contraproducente. "Não foi dada margem de negociação para Sánchez de Lozada. Com sua política de tolerância zero com os cultivos de coca e com o sistema de erradicação que deixa os camponeses sem nenuma outra opção, os Estados Unidos imobilizaram o presidente boliviano", afirma. "Se houvessem compreendido melhor a situação e a cultura da Bolívia, os americanos teriam compreendido que esta política só iria piorar as coisas e agravar a crise", acrescenta. Para Miguel Díaz, foi um erro marginalizar Evo Morales, candidato derrotado à presidência boliviana e líder dos produtores de coca do país. "Foi um equívoco grave não ter sido estabelecido um diálogo construtivo com a oposição, sobretudo devido à política antidrogas de Washington. E não ter estabelecido qualquer tipo de trato com Evo Morales foi uma falta de sabedoria política", diz o analista do CSIS. "Vareta mágica" Peter Hakim, diretor do Diálogo Interamericano, em Washington, diz que é fato que os Estados Unidos poderiam ter feito mais, mas que não adianta buscar um único fator como bode expiatório. "Os Estados Unidos poderiam ter ajudado a consolidar o governo de Sánchez de Lozada, mas é preciso levar em conta a fragilidade do sistema político da Bolívia. Há muitos fatores, entres eles, anos de pobreza, a frustração da população e ninguém tem uma vareta mágica", diz Hakim. "É difícil dizer se, levando em conta os problemas que existem na Bolívia, a crise teria sido evitada com o empréstimo de mais dinheiro para o país", acrescenta Hakim. Ninguém duvida que agora é difícil dizer o que se passou e o que acontecerá, mas a grande pergunta que paira no ar é se a comunidade internacional e Washington podem ainda fazer algo agora ou se tudo terminará no "apoio verbal". "O que fazer agora? O importante é evitar o derramento de sangue, e os Estados Unidos e a OEA devem apoiar uma solução que envolva um processo eleitoral pacífico", diz Hakim. |
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