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Atualizado às: 14 de outubro, 2003 - 16h50 GMT (13h50 Brasília)
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Furlan diz que G-20 pode ser aliança temporária

Ele diz que não está preocupado com as negociações
O ministro Luiz Fernando Furlan

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan acredita que o G-20, formado por países em desenvolvimento para negociações comerciais internacionais, pode se dissolver após a conclusão da rodada de negociações de Doha.

"Possivelmente, essa aliança seja temporária", disse Furlan durante visita à China.

O Ministro do Desenvolvimento falou ainda que não acredita em esvaziamento do grupo, apesar de vários dos países não terem comparecido a uma reunião realizada em Buenos Aires.

Furlan ainda culpou os Estados Unidos pelas dificuldades de avanço nas negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e disse que o Brasil deve priorizar indústria leve e de alimentos no comércio com a China. Leia na seqüências os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil – O Grupo dos 20 chegou a ter 22 países e depois baixou para menos de 15. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, chegou a dizer que o número de países é flutuante. O G-20 é cirscunstancial e já acabou? Qual é o futuro desse grupo?

Luiz Fernando Furlan – Durante a reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Cancún, no México, conversei com a grande maioria dos ministros que representavam os países do G-20. É um grupo de países com algumas características comuns entre si. Eles têm boa parte de suas economias dependente da agropecuária, enfrentam restrições de acesso a mercado nos países mais ricos e uma competição desleal de subsídios a exportação. Além disso, uma grande parcela de suas populações dependem desse setor. Possivelmente, essa aliança seja temporária, porque ela está sendo formada para as discussões na OMC, no âmbito da rodada de negociações de Doha. E o grupo tem protagonistas como China, Índia, África do Sul, o próprio Brasil e Argentina.

BBC Brasil – Mas muitos países estiveram ausentes no encontro de Buenos Aires. O que aconteceu?

Furlan – A imprensa está confundido uma reunião informal feita na Argentina com uma reunião plenária do G-20. A reunião plenária deverá acontecer provavelmente às vésperas da continuação das negociações da OMC, que serão realizadas em novembro, em Genebra, na Suíça.

BBC Brasil – Qual é a posição da China no G-20?

Furlan – A China tem se manifestado positivamente em relação ao grupo. É o país com o maior número de pessoas trabalhando na área agrícola em todo o mundo: tem mais de 600 milhões que dependem da agricultura. Eles têm muito mais em comum com o G-20 do que com a Europa, o Japão ou os Estados Unidos. A rodada do desenvolvimento foi criada para beneficiar os países que têm economias em transição. Mas, após algum tempo, percebeu-se uma certa intransigênca dos países ricos em fazer concessões. Isso é um erro estratégico muito grande. As grandes oportunidades de crescimento da economia mundial estão nos países em desenvolvimento. Mas isso precisa acontecer pelo incremento da renda, que só pode crescer com a melhora de oportunidades. Na maioria dos países, elas estão vinculadas ao agronegócio. Os agricultores dos países ricos têm um lobby extraordinário para criar obstáculos à entrada de produtos de países em desenvolvimento.

BBC Brasil – Que tipo de impacto essas barreiras têm na economia mundial?

Furlan – A falta de crescimento de renda, que poderia beneficiar alguns bilhões de habitantes reduzindo a pobreza, inibe o consumo de muitos outros produtos feitos pelos própros países mais ricos. Ao longo do tempo, a posição de blocos como a União Européia, Estados Unidos e Japão é insustentável. Não vai ser possível construir cercas tão altas para separar o mundo rico do mundo pobre.

BBC Brasil – Esse discurso é bem recebido em países em desenvolvimento. Mas ele tem êxito em países como os Estados Unidos e os europeus? O Brasil não teria que ser um pouco mais diplomático?

Furlan – Uma negociação, mal comparando, é como a compra de um tapete persa. O vendedor diz que é 100, você oferece 30 e a negociação vai em frente até se encontrar o ponto de equilíbrio. É muito fácil dizer que o outro é radical, mas os países têm que fazer concessões recíprocas. Não faz nenhum sentido que qualquer lado radicalize. Além disso, não conheço negociações entre países que sejam resolvidas através de declaração pela imprensa. As negociações bem sucedidas geralmente são feitas nos locais apropriados e, em geral, com portas fechadas.

BBC Brasil – Quais são os objetivos dessa sua vinda à China?

Furlan – O Brasil elegeu a China como prioridade na parceria comecial. São dois países parecidos, com grande extensão e com posições de muito destaque nas suas regiões. Ao mesmo tempo, a China também escolheu o Brasil como prioridade. Então, compete a nós, do Ministério do Desenvolvimento, proporcionar oportunidades para o setor privado conheça melhor seus parceiros chineses e também receber as missões chinesas no Brasil.

BBC Brasil – Quais são os destaques nessa relação?

Furlan – Temos algumas prioridades na indústria leve eletrônica. Cada vez mais, a China vem se tornando um fornecedor de componentes para a indústria brasileira . Do lado brasileiro, há também um grande potencial no fornecimeto de alimentos para a China. Com acordos firmados no ano passado na área de sanidade animal, já começaram as exportações brasilerias de carne bovina e de aves.

BBC Brasil – A China não é também um concorrente para os produtos brasileiros?

Furlan – É verdade, mas por outro lado há matérias-primas em que o Brasil tem uma posição privilegiada e a indústia brasileira será competitiva ao longo do tempo. Principalmente em alimentos, mas também em outras áreas que demandam grandes recursos naturais. O Brasil também pretende se tornar um grande exportador de software. Por causa do passado inflacionário, temos uma das melhores tecnologias bancárias do mundo. Na área de tecnologia espacial, também há um bom espaço para cooperação. As empresas brasileiras têm demonstrado grande capacidade de competir internacionalmente e a China tem um programa espacial, que pode apoiar o lançamento de satélites e outras atividades nesse setor.

BBC Brasil – Com uma mão-de-obra barata, a China produz a custo muito baixo. Países como México Estados Unidos e Itália dizem que isso causa desemprego nas suas economias. O Brasil teme o mesmo?

Furlan – É natural que países que iniciam seu processo de desenvolvimento tenham salários mais baixos. Mas também é natural que, com o crescimetno da prosperidade, os salários também cresçam. É uma situação de transição. Esses países não têm uma mão-de-obra barata por vontade própria, mas por falta de oportunidade, falta de crescimento econômico. Desde que haja uma competição com lealdade, com respeito às regras, não deve haver nenhuma dificuldade.

BBC Brasil – Então, o Brasil não está preocupado?

Furlan – Estamos preocupados em relação à competitividade de produtos brasileiros. Mas também temos plena consciência de que os países não devem ser auto-suficientes em todos os produtos. Somos contra o protecionismo, e a favor da abertura de mercados. Nos anos 90, o Brasil abriu unilateralmente seu mercado. Temos uma tarifa média de importação de 13% e uma máxima de 35% para alguns poucos produtos. O Brasil não tem barreiras tarifárias, como as que existem hoje em muitos países.

BBC Brasil – Como o Brasil poderia avançar mais na questão da Alca?

Furlan – Podemos ter uma Alca bastante compreensiva, se os demais países assim o quiserem. Mas temos sentido que alguns países – principalmente os Estados Unidos – preferem discutir questões de subsídios agrícolas, ou de regulamentos internos de anti-dumping, em outros fóruns. Por isso, o Brasil e os demais países do Mercosul acabam fazendo ofertas menos abrangentes. De qualquer forma, acreditamos que vai ser possível chegarmos a um final positivo.

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