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Atualizado às: 06 de outubro, 2003 - 14h13 GMT (11h13 Brasília)
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Privatização 'pode não ser melhor alternativa'

desempregados fazem fila em bagdá

Economista e professor da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Moshe Adler critica a proposta de privatização das estatais no Iraque e argumenta que essa decisão deveria ser deixada aos próprios iraquianos.

Segundo ele, um dos primeiros impactos dessa proposta poderia ser o aumento do desemprego no país. Ele também põe em dúvida o próprio modelo, e diz que a privatização e a liberalização econômica podem ser boas para um país, mas não para outro.

Adler diz que nos países europeus ainda há empresas com forte participação estatal, e que, na comparação, a economia européia tem melhor desempenho do que a americana.

BBC Brasil - Por que o senhor considera que a privatização no Iraque agora não seria uma boa iniciativa?

Moshe Adler - Não há dúvidas de que há enorme necessidade de investimentos no Iraque no momento. A questão é como obtê-los. Dado que não há um governo eleito democraticamente no Iraque, o objetivo deve ser reconstruir, mas não determinar o que será o futuro do Iraque. Isso deve ser deixado para os iraquianos. Quando se privatiza, está se decidindo pelos iraquianos. E deveria ser uma prerrogativa fundamental dos iraquianos decidir o que querem.

BBC Brasil- Mas há outra alternativa, na medida em que o país não tem recursos necessários para investir?

Adler – Certamente. A alternativa proposta pelo Congresso americano é um empréstimo de longo prazo para o Iraque. Isso foi o que aconteceu com o Plano Marshall (empréstimos dos Estados Unidos para reconstrução da Europa depois da 2ª Guerra Mundial). Seriam empréstimos e, uma vez que a economia estiver recuperada e funcionando, os iraquianos poderiam pagar esses empréstimos de longo prazo. É para que eles tenham a chance de pagar sem estrangular sua economia.

BBC Brasil - Críticos argumentam que não há espaço para o Estado empresário no mundo atual. O que o senhor acha?

Adler- Há muitos países no mundo hoje, com governos eleitos democraticamente, que escolhem ter muitas empresas de propriedade do Estado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a TMobile se anuncia como a maior fornecedora de telefones celulares no país. Mas 35% do capital da TMobile são de propriedade do governo alemão. Então estamos falando de uma empresa que opera nos EUA e é de propriedade do governo alemão. Muitas das empresas aéreas européias são de propriedade dos governos ou os governos detêm uma grande parcela de seu capital. Governos europeus são donos de lojas de bebidas. As pessoas que elegeram esses governos querem empresas públicas. Então, não é verdade que universalmente as pessoas escolhem a economia de mercado. Boa parte dessas economias estão em mãos privadas, mas uma parcela substancial é de propriedade dos governos. Não se sabe o que os iraquianos querem e não podemos escolher por eles.

BBC Brasil – A privatização não é uma boa alternativa para atrair investimentos estrangeiros?

Adler – É certamente muito atraente para investimentos estrangeiros, mas isso é algo que deve ser deixado para que os iraquianos decidam. Se um dos objetivos dessa guerra é a democratização, então deve se deixar para que os iraquianos decidam. O Plano Marshall era totalmente aberto. O próprio general Marshall disse que a decisão deveria ser dos alemães, eles é que deveriam decidir que Alemanha queriam e como queriam investir o dinheiro que viria como um empréstimo do povo dos Estados Unidos. Não vejo por que deveria ser diferente para o Iraque. A questão sobre que tipo de economia eles vão ter, se será de propriedade do governo ou não, é fundamental. O que é uma empresa privada também é um conceito diferente de país para país. Na Alemanha, por exemplo, toda empresa privada deve ter um colegiado de diretores (board of directors) composto de 50% de trabalhadores, de pessoas que trabalham nessa empresa. É essa a privatização que haverá no Iraque? Ou será a idéia dos Estados Unidos em que os trabalhadores não são representados na maioria dos boards of directors? E temos esses grandes problemas de controle das empresas, porque verdadeiramente elas estão fora de controle. Tudo isso são perguntas sérias que devem ser respondidas pelo povo iraquiano, uma vez que eles tenham um governo funcionando.

BBC Brasil - A falta de segurança é um impedimento para que investidores estrangeiros comprem as estatais no Iraque?

Adler- Se o preço for baixo o bastante, eles estariam dispostos a correr o risco de comprar esses ativos. É uma questão dos termos em que eles estarão entrando na economia. Por exemplo, uma das questões é se eles poderão tirar seus lucros do Iraque e quais serão outras condições que vão determinar a atracão dos empresários pelas empresas. A questão é se isso é do melhor interesse do povo iraquiano, deixar que eles mandem os lucros para fora do país para atrair investidores agora. Não se sabe o que o povo iraquiano quer.

BBC Brasil - Qual o impacto da privatização sobre o desemprego no Iraque?

Adler – A privatização poderia piorar essa situação, porque um investidor privado pode chegar e concluir que essa é uma forma ineficiente de fazer as coisas, muitas pessoas estão na folha de pagamentos dessa empresa pública. Novas máquinas, novas métodos de administração. Não há dúvidas de que no curto prazo é muito mais provável que um investidor privado, que vai querer racionalizar a empresa que está comprando, vai demitir e não empregar pessoas.

BBC Brasil – Há dúvidas sobre o desenho da privatização e se ele seria feito para atrair empresas americanas. O que o senhor acha?

Adler – Sempre que se privatiza, há um problema inerente, porque não há total transparência, as pessoas não são totalmente informadas, não há tempo de monitorar essas coisas. E essa é uma das razões pela qual muitos países decidem não privatizar. Em privatização há possibilidade de fraudes, acordos secretos entre funcionários do governo e os empresários que vão assumir uma empresa. Esse é um problema básico e, por isso, é uma das razões pela qual se deveria deixar para os iraquianos decidirem. Devem as empresa americanas ter vantagens porque foram os americanos que lutaram essa guerra? Como economista não posso responder a essa pergunta. Essa é uma questão política, moral. Mas como economista eu sei que esses acordos entre governo e empresas privadas leva à possibilidade de corrupção.

BBC Brasil – O senhor acha que agora começam a surgir dúvidas sobre esse modelo em que a privatização e a liberalização são a única saída para economias emergentes?

Adler – Não posso dar uma resposta universal. Povos em diferentes países dão respostas diferentes. Nos Estados Unidos, algumas pessoas questionam esses acordos internacionais, como o Nafta (acordo de livre comércio entre EUA, Canadá e México). Muitas pessoas começam a achar que o Nafta foi um fracasso para os trabalhadores americanos e que se deveria ter mais protecionismo. Se isso é verdade ou não, não se sabe. Mas em geral, há uma percepção dominante que uma solução igual para todos não funciona, que a privatização pode ser boa em alguns setores, não outros. Na Europa, por exemplo, apesar da União Européia, muitos países continuam proprietários de largas parcelas do capital de suas economia e não estão desistindo delas, apesar do euro ou da unificação. Acho que existe um entendimento de que para que o governo proteja os interesses dos trabalhadores, nem tudo deveria ser deixado para o mercado. Porque quando os governos são proprietários de empresas, nessas empresas as negociações de ganhos e salários dos trabalhadores são entre o governo e os trabalhadores e não entre as empresas privadas e os trabalhadores. E isso dá o tom para o resto da economia, mesmo para o setor privado. Quando muitos trabalhadores estão trabalhando para empresas públicas e estão ganhando bons salários, bons benefícios, isso põe uma pressão tremenda sobre outras empresas para fazer algo semelhante. E essa é uma das razões pelas quais os europeus não desistem delas.

BBC Brasil - Mas alguns iriam argumentar que essa é uma das razões pela quais a economia européia não cresce tanto quanto a americana...

Adler – Nos Estados Unidos, estamos nos dando conta que não sabemos o que crescimento significa. Temos tremendo crescimento econômico, mas a maioria das pessoas vê sua situação econômica em deterioração. Agora, o desemprego está aumentando quando a economia está crescendo. Talvez algo esteja errado na definição do que seja crescimento econômico. Quando as pessoas podem estar em pior situação quando a economia está com desempenho melhor. Há um problema com o crescimento da economia que não produz empregos, que é o que temos nos EUA. Depende de quem você é. Se você é um trabalhador de classe média, a questão é, tenho seguro saúde, meu seguro saúde está protegido, minha aposentadoria está protegida, tenho garantia de que meus filhos vão a uma boa escola e etc. Penso que se se compara nesses termos, temos que dizer que as economias européias estão crescendo com menor velocidade, mas estão em situação muito melhor. A economia americana está crescendo muito mais rapidamente, mas as condições de vida das pessoas nessa economia estão se deteriorando, exceto para aqueles 10% no topo.

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