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Futebol feminino se destaca, mas continua agonizando no Brasil
Não adianta dizer não. O brasileiro não rejeita, mas apenas engole o futebol feminino. Isso pode ser visto na reação das pessoas quando você toca no assunto. Aqui mesmo entre nós, jornalistas da BBC Brasil, há quem torça o nariz quando se começa a falar do assunto. Isso é retrato fiel da forma omissa com que a modalidade esportiva é tratada no Brasil. Atuais campeãs pan-americanas, as brasileiras, em sua maioria, jogam mesmo dentro da mentalidade do "amor à arte". A maioria não tem contrato e nem time, dividindo o tempo com outras atividades. Eu conversei com o técnico Paulo Gonçalves, que está treinando a seleção há um ano. Nem parecia estar falando com treinador de uma seleção do chamado país do futebol e um medalhista pan-americano. Gonçalves contou que, para escalar a seleção, precisa rodar o Brasil, montando amistosos de favor para garimpar novos talentos. "Em cada Estado, nós dávamos uma olhada. E, como não existem campeonatos ou times, foi preciso sair atrás de indicações que recebo, pedindo para que organizassem jogos, e assim, conseguir descobrir novas jogadoras. E isso só é feito porque contamos com o apoio da CBF. E nada mais." E é nada mais mesmo. Não há patrocínio, ninguém briga para fazer publicidade junto à equipe, e a imprensa em geral só da destaque quando o time vence. Mesmo assim, Paulo Gonçalves conseguiu descobrir 18 talentos, e 12 deles, com idades entre 17 e 19 anos, estão nessa nova seleção. Mas se você pensa que o Pan mudou a imagem do futebol feminino em alguma coisa, se enganou completamente. Mesmo com a medalha no peito, as jogadoras voltaram ao Brasil com elogios, mas na pendura de sempre. O time se dispersou, e Paulo Gonçalves teve novamente que garimpar para montar a equipe 20 dias antes do Mundial, o que já foi uma vitória, perto do que costuma encontrar. E é essa seleção que conseguiu, com sua estrutura mambembe, ganhar o Pan, deixando as profissionais americanas para atrás e batendo a Noruega, velha rival brasileira. Me lembro do torneio mundial de futebol feminino, realizado na China, em 1988, como preparatório para o primeiro campeonato mundial, a ser realizado três anos depois. A seleção brasileira chegou também com seu estilo mambembe, mas, pela conversa que tive com Paulo Gonçalves, me pareceu até mais "profissional" do que atualmente. Só para se ter uma idéia, quando chegamos à China as brasileiras tinham na bagagem apenas o uniforme de treino, sem a opção dos uniformes de gala. Resultado: mesmo sem chegar a campo, as meninas já enfrentavam o constrangimento de chegar às recepções parecendo que estavam saindo de um treino. Enquanto isso, a maioria das seleções desfila de terno, saia e até meia fina! Mesmo com cara de time de quinta divisão a seleção saiu de lá com o terceiro lugar, tendo perdido justamente para a Noruega. Agora, quando ouço o treinador contar os esforços que precisa fazer para montar uma equipe, vejo novamente as imagens do Brasil de 15 anos atrás. O mundo gira, o Brasil é pentacampeão e o futebol feminino continua no limbo. É isso, é uma vergonha, um vexame, uma indecência... |
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