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México: dois exemplos distintos de luta contra a pobreza
Um empréstimo de 8 mil pesos mexicanos (o equivalente a R$ 2.400) foi o empurrão que faltava para Maria Hernandez Collin ampliar sua pequena empresa, uma fábrica de fantasias para crianças que funciona em Ajusco, um dos bairros mais pobres da Cidade do México. Por ter baixa renda, Maria não se enquadra no perfil típico de tomadores de empréstimo desejado pelos bancos. Mas ela não desistiu. Recorreu ao Fin Comun, uma instituição que funciona como uma união de crédito e que, desde sua fundação, em 1991, já emprestou dinheiro para 32 mil pessoas, ou sócios, como prefere chamar. A empresa é um dos bons exemplos de responsabilidade social do México, segundo o Centro Mexicano de Filantropia (Cemefi), que distribui selos para empresas socialmente responsáveis no país. “É um bom negócio, é lucrativo e as pessoas pagam em dia”, diz o presidente da Fin Comun, Vicente Fenoll. Mudança de vida “O serviço está ajudando as pessoas a mudarem de vida. Estamos ajudando no seu desenvolvimento.” As parcelas da dívida são pagas semanalmente, com juros de 3,3% ao mês. Um empréstimo de 5.000 pesos, por exemplo, é pago em 16 parcelas semanais de 350 pesos, somando o principal e juros. “Um banco não empresta menos de 50 mil pesos, o que afasta muita gente. Os juros nos bancos são 65% dos nossos. Já os agiotas cobram juros de 10% a 15% por mês”, afirma Fenoll. Outra empresa que recebeu o selo do Cemefi foi a Nokia, que se destaca especialmente por dar a seus trabalhadores um tratamento diferente daquele comum em outras maquilas, alvo de críticas de organizações de direitos humanos. As maquilas (ou maquiladoras) são fábricas que importam matéria-prima, sem pagar impostos, e exportam toda a produção. John Cropper, gerente regional no México da Oxfam, uma ONG que se dedica a lutar contra a pobreza no mundo, explica que, em geral, as condições de trabalho nas maquilas são muito ruins. “Nas maquilas que fabricam tecidos, por exemplo, há muita poeira. Depois de sete anos de trabalho, as mulheres têm que se aposentar com problemas nos pulmões. Elas também costumam ter problemas nas costas, porque trabalham em pé, ou nos olhos, porque o ambiente é muito escuro. Se ficam grávidas, são demitidas.” Desemprego Com a recessão nos Estados Unidos, o principal mercado para os produtos feitos nas maquilas, o México enfrenta uma grande onda de desemprego nesse tipo de indústria. Pelos dados da Oxfam, 501 maquilas foram fechadas no México em 2002. “A premissa aqui e em outros países é que o mercado é o rei e dita todas as regras. Ele é visto como uma entidade que não pode ser tocada, o que não é verdade”, diz. Na bem refrigerada e quase silenciosa fábrica da Nokia em Reynosa, na fronteira do México com os Estados Unidos, os funcionários trabalham em condições que passam longe das descritas como insalubres. O secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores da Nokia, Jesus Martinez, afirma que está satisfeito, mas, diz, sempre dá para melhorar. “Aqui temos de 60% a 70% de jovens e creio que boa parte quer estudar. Peço bolsas de estudos para os trabalhadores e para seus filhos. Se o trabalhador pode aliviar um pouco o peso econômico representado por seus filhos, acho que se sente melhor.” Expulsão Outro lado dos programa de responsabilidade social da Nokia é o projeto Cámara Ahí nos Vemos. O estudante Daniel Flores Ceja, de 19 anos, por exemplo, levou sua vida para as telas, mostrando com tintas duras como era o seu cotidiano antes e depois de receber uma câmera de vídeo e passar a integrar o projeto, como outros jovens de bairros pobres mexicanos.
“Antes eu tinha muitos problemas. Fui expulso de minha última escola por agredir o diretor. Agora estou gostando de estudar. Antes, me divertia incomodando aos outros”, diz. “Agora sou mais responsável. O projeto me fez ver que a violência não é a solução para tudo e que posso oferecer ajuda a alguém”, afirma ele, que pensa em ser advogado, mas não descarta a possibilidade de seguir uma carreira ligada à produção de filmes. O Cámara Ahí nos Vemos faz parte do programa Make a Connection, desenvolvido pela empresa em 13 países, incluindo o Brasil. Mas como fazer filmes ajuda a mudar o dia-a-dia de jovens de famílias pobres? Quem responde é Rosario Gutierrez, do Cámara Ahí nos Vemos. “Eles entram em contato com outros jovens e com a comunidade de seu bairro. Passam a ter presença e confiança e desenvolvem habilidades como líderes sociais. Aprendem a trabalhar em grupo, a respeitar o outro a ter disciplina e compromisso.” Cinquenta mil jovens participam do programa Make a Connection em todo o mundo. Na China, por exemplo, os jovens editam um jornal que tem circulação de um milhão de exemplares. Outros projetos envolvem a limpeza de áreas degradadas na Austrália e o ensino de inglês para órfãos na Coréia do Sul. |
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