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Diretor de instituto critica padrões de consumo e produção
Uma das medidas usadas para saber como está o movimento de responsabilidade social no Brasil é o crescimento do Instituto Ethos, criado em 1998 para difundir a então novidade entre os empresários. Das 11 empresas associadas inicialmente, o Ethos pulou para 765 em 2003. Quando somados, os faturamentos dessas empresas equivalem a 30% do PIB brasileiro. E a tendência, segundo Paulo Itacarambi, diretor-executivo do instituto, é crescer ainda mais. Ele afirma que o instituto propõe uma mudança na forma como a atividade econômica é gerida no Brasil. Segundo Itacarambi, o país não suporta mais ter crescimento econômico associado ao crescimento da pobreza. BBC Brasil - Quem se beneficia mais quando uma empresa decide ser responsável socialmente: a própria empresa ou a sociedade? Paulo Itacarambi - Todos. A sociedade, os públicos que estão relacionados com o negócio da empresa se beneficiam e a própria empresa. À medida que a empresa cria uma relação de maior confiança com seus diversos públicos, ela se beneficia dessa maior confiança. À medida que a empresa se destaca no mercado, aumentando a sua competitividade, à medida que a empresa tem uma relação de melhor qualidade com seus funcionários, aumenta a produtividade desses funcionários. Com isso a empresa se beneficia. E a sociedade também se beneficia à medida que a empresa começa a ter práticas buscando uma sociedade sustentável, saindo de um caminho que é apenas o da acumulação. Ela continua buscando o lucro, mas não apenas para o acionista e sim compartilhado por todas as partes que se envolvem no negócio. BBC Brasil - As empresas que investem em projetos sociais não estão desempenhando um papel que seria do governo? Itacarambi - O governo deve continuar o seu papel de investimento social, de cuidar da sociedade, de regular a atividade econômica. Mas a atividade econômica precisa mudar o paradigma. Ela não pode continuar sendo feita da forma que vem sendo feita. O atual padrão de consumo e produção não pode continuar. Nós estamos acabando com nossos recursos naturais, estamos tendo crescimento econômico com crescimento da desigualdade, com o crescimento da pobreza. Essa linha de condução da atividade econômica não pode permanecer. A responsabilidade social é uma proposta de alteração da forma como a atividade econômica é feita. BBC Brasil - Foi por isso que o Ethos foi criado? Itacarambi - Sim. Um grupo de empresários criou o Ethos para fazer esse trabalho junto a empresas. Temos que trilhar outro caminho. Isso não tem futuro para os negócios, nem do ponto de vista ambiental, nem do social. BBC Brasil - Como o Ethos trabalha? Itacarambi - A grande contribuição do Ethos é determinar parâmetros para a avaliação da qualidade das relações com os stakeholders (o conjunto formado por acionistas, empregados, comunidade e meio ambiente). Isso está servindo de inspiração para outros países da América Latina. Três elementos fazem com que essa estratégia seja bem-sucedida: o Ethos não dá consultoria, e isso nos garante credibilidade; é um movimento inclusivo, ou seja, não vamos alijar uma empresa que tenha práticas que não são de responsabilidade social; o Ethos não dá selos de responsabilidade social. BBC Brasil - O que ainda falta ser feito na área de responsabilidade social aqui no Brasil? Itacarambi - Falta muita coisa. Há um engajamento claro das empresas, há um envolvimento. Agora, dentro da empresa nós temos algumas áreas envolvidas, em geral ligadas à direção da empresa. É necessário que esse comportamento seja do conjunto dos funcionários da empresa. Então, esta filosofia que orienta a gestão do negócio precisa ser internalizada pela empresa como um todo. Esse é um longo trabalho. Isso significa ter uma nova cultura de gerenciamento dos negócios. BBC Brasil - Você disse que a responsabilidade social é um caminho inevitável para as empresas. O que pode acontecer com aquelas que não adotarem essa prática? Itacarambi - Elas perderão competitividade. Hoje está cada vez mais evidente que cuidar da qualidade da relação com seus diversos públicos passa a ser um terceiro fator de diferenciação da empresa no mercado. O primeiro fator é o preço, o segundo é a qualidade do produto ou do serviço. O terceiro é a qualidade das relações que essa empresa mantém com seus diversos públicos. A empresa que cuida da qualidade dessas relações se diferencia. Aumenta sua competitividade tanto por essa diferenciação no mercado e acesso aos diversos mercados mais facilitados, quanto pelo aumento da produtividade. |
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