|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
EUA decepcionam população iraquiana
Uma pequena e fétida lagoa de esgoto inundou a rua em frente à casa de Ali Muhammad, um operário desempregado que vive em Sadr City, um subúrbio de Bagdá. As visitas têm que encontrar um caminho para alcançar os portões de ferro da casa dele, onde apagões e falta d'água são problemas freqüentes. Por décadas, o governo de Saddam negligenciou os moradores deste subúrbio, batizado, ironicamente, antes de chamar Sadr se chamava Saddam City, até antes da chegada dos americanos à cidade, em abril. Jornalistas dificilmente tinham acesso à região, habitada principalmente por muçulmanos xiitas, que eram duramente reprimidos pelo governo de Saddam. No entanto, nos últimos cinco meses, com a tomada de Bagdá pelos americanos, pouca coisa parece ter mudado lá. E talvez, para pior. "Eles não fizeram muita coisa por nós", diz Muhammad. "Não houve melhoras, mas pelo menos podemos dormir à noite sem nos preocupar com alguém batendo na nossa porta para nos levar para o quartel. Pelo menos, podemos falar livremente." Realmente os iraquianos estão falando bastante. "Não está melhor do que sob Saddam", afirma Fatimeh, a irmã de 26 anos de Muhammad, que – como incontáveis iraquianos – não se cansa de reclamar sobre a insegurança que tomou o país depois da queda de Saddam. Reclamações Zainab Hussein perdeu o marido, um militar da reserva, nos porões do regime de Saddam, em 1998. Ela perdeu a confiança no governo, conta, quando testemunhou o primo de Saddam, o Ali Químico, incendiando uma criança com uma mangueira de gasolina em 1991, na época em que os xiitas foram massacrados no sul do Iraque.
O marido de Zainab foi preso em 1996, enquanto tentava encontrar meios de abandonar o país, e foi enforcado dois anos depois. "Você não imagina como eu fiquei feliz quando Saddam caiu", conta Zainab, uma iraquiana secular que trabalha na lanchonete de um hotel para sustentar seus cinco filhos. "Pensei que o futuro iria ser totalmente diferente. Vi os americanos na TV e observei como eles tratam até os seus bichos de estimação. Achávamos que as ruas seriam limpas, que novas modas viriam dos Estados Unidos. Até agora, nada, nada", reclama. Zainab acrescenta: "Foi tudo um sonho". 'Libertadores' No entanto, a viúva de 36 anos ainda vê os americanos mais como libertadores do que invasores. "Acho bom terem nos livrado de Saddam, mas o problema é que eles não mudaram nada. Só quero que eles cumpram as suas promessas." Ela está considerando tirar as duas filhas da escola porque, com os altos índices de criminalidade na cidade, ela teme que as meninas sejam seqüestradas no caminho à escola. Os hospitais de Sadr City testemunham diariamente as conseqüências da onda de crimes em Bagdá. "Na época de Saddam, eu costumava tratar três pessoas por dia com ferimentos a bala. Hoje, são uns 50", afirma o médico Muhammad Zaid. No entanto, o doutor Zaid também acha que o país está melhor hoje do que na época de Saddam, cujos opositores costumavam desaparecer. "É uma coisa difícil para nós, muçulmanos, ser governados por americanos, mas nós nunca teríamos nos livrado de Saddam sem eles. Ele é um criminoso que achávamos que teríamos que aturar para sempre", afirma o médico. Desconfiança Apesar das desconfianças acerca dos motivos dos Estados Unidos ao depor Saddam, apenas uma minoria o quer de volta. No entanto, os iraquianos tampouco querem os americanos no país por muito tempo. "Somos um povo orgulhoso que não gosta de ser subjugado por ninguém", diz Zainab. "Acho que, se as coisas não melhorarem, os ataques contra americanos e bombardeios vão aumentar." A violência que assola o Iraque pós-guerra já chocou o mundo. Depois do bombardeio das instalações da ONU em Bagdá, os funcionários da organização ainda tentam se acostumar com a tragédia. Saddam, em seu esconderijo, deve estar pensando na ironia de os Estados Unidos, que o derrubaram do poder em nome de uma guerra contra o terrorismo, estarem agora admitindo que o Iraque virou um "campo de batalha" na guerra contra o terror – um ímã para os militantes islâmicos que querem lutar contra os americanos. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||