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'Iraquianos vivem sob clima de medo em Bagdá'
O correspondente da BBC no Oriente Médio está de volta a Bagdá descrita por ele como uma cidade insegura e aterrorizada. No depoimento a seguir, ele avalia as perspectivas reais de paz para o país. Do lado de fora de uma loja de televisões em Bagdá, dois homens discutem fervorosamente. Um dos aparelhos colocado no topo de uma pilha de caixas cai no chão. Um soldado americano passando em um jipe Humvee olha para os lados e abre fogo. Um dos homens é atingido e morre. O Humvee segue em frente. Tensão Essa é uma história bastante comum em Bagdá hoje em dia. Um cinegrafista estrangeiro estava lá, então a maioria dos detalhes pode ser confirmada. Ele mostra a tensão que impera por toda a cidade. Na semana passada, no final da nossa rua, quatro pessoas foram mortas em uma tentativa de roubo de carro. Pais iraquianos não deixam suas filhas saírem sozinhas, temerosos de estupros ou seqüestros. Houve quatro explosões com carros-bombas no último mês. Ocidentais foram mortos ao sair de restaurantes. No tristonho bar do Sheraton, o hotel em Bagdá onde a maioria dos estrangeiros se hospeda, protegida por arame farpado e barreiras contra bombas, o grupo de jornalistas com quem eu estava bebendo decidiu que era muito arriscado sair para comer naquela noite. A segurança parece pior agora do que quando estive aqui em julho. A situação em julho, por sua vez, parecia pior do que em abril, depois da chegada dos americanos. Ordem Antes da guerra, havia ordem na sociedade iraquiana, mas não havia liberdade. Agora há liberdade, mas não há ordem. Você freqüentemente ouve falar sobre os soldados britânicos ou americanos que morreram nas guerrilhas diárias ou nos ataques "terroristas", mas para a população civil daqui, Bagdá tem o maior índice de mortalidade no mundo. Em um dia típico, o necrotério da cidade pode receber 40 cadáveres apresentando ferimentos a bala. Os iraquianos tendem a fazer longas listas de coisas que eram melhores, ou pelo menos estavam disponíveis, durante o governo de Saddam: energia elétrica, gasolina e segurança em geral aparecem no topo. Isso não quer dizer que eles gostariam de ter Saddam de volta. Ele sempre governou pelo medo e com o apoio de apenas uma minoria. Talvez algumas estatísticas possam ajudar a explicar a natureza do conflito atual. Cerca de 65 soldados americanos e 11 britânicos foram mortos em ataques desde que o presidente Bush declarou o fim da guerra, no dia 1º de maio. Cerca de 50 membros das forças de segurança iraquianas foram mortos nesses mesmos ataques. Estranhamente, mas não ilogicamente, alguns se confortam com esta última estatística. Resistência Isso quer dizer que as forças da coalizão não estão lutando sozinhas contra uma resistência iraquiana unificada. A luta também é dos iraquianos. De fato, hoje, cerca de 60 mil iraquianos portam armas sob o comando da coalizão. Isso inclui 37 mil policiais do Ministério do Interior, hoje sob liderança de seu próprio ministro iraquiano. Mas isso também acentua um novo perigo para os americanos. Cada vez mais, ao invés de perseguir membros remanescentes do partido Baath, eles se vêem perdidos entre as diferentes facções iraquianas, cada uma delas com idéias bastante diferentes sobre o futuro do país. Parece que os seguidores de Saddam - com a ajuda de militantes inspirados na Al-Qaeda - conseguiram aumentar as tensões ao matar mais de 120 pessoas na ocasião do assassinato do aiatolá Hakim em Najaf. O funeral foi uma avalanche de emoção, com centenas de milhares de pessoas nas ruas, os gritos de dor se misturando às promessas de vingança. Cada uma das pessoas com quem conversei no funeral era contra os americanos, culpando-os por permitir que o atentado acontecesse. O que é um tanto quanto injusto, uma vez que os americanos vêm tentando ficar fora do centro de Najaf em deferência aos xiitas, que são zelosos de seus monumentos sagrados. As exigências dos manifestantes são que as milícias xiitas recebam mais armas e mais poderes, e que passem a cuidar da segurança no lugar dos americanos. "Os americanos não fazem nada pelo povo de Najaf", um homem me disse, gritando e balançando os braços enquanto as pessoas faziam um círculo à sua volta. "Eles não prenderam os que colocaram a bomba. Talvez eles até soubessem sobre a bomba antes do atentado acontecer." Há dois caminhos que o Iraque pode tomar: um é o do conflito entre as seitas, num cenário semelhante ao do Líbano. O outro, é o da democracia estável, que seria uma luz guia para os povos de todo o Oriente Médio - "autonomia que é irreversível e, uma vez alcançada, será um exemplo para todos no mundo islâmico que desejam a liberdade", como disse o vice-secretário da Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz. |
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