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Atualizado às: 03 de setembro, 2003 - 15h14 GMT (12h14 Brasília)
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Egípcios usam internet para discutir tabus
Rua do Cairo
As ruas da capital egípcia estão cheias de cafés onde se pode usar a internet

O aumento maciço do uso da internet no Egito tem sido festejado tanto pelo governo quanto pela iniciativa privada, mas ele poderá ter repercussões amplas na sociedade local.

Apesar de oficialmente estar há 22 anos em estado de emergência com restrições à liberdade de imprensa e a reuniões públicas, o Egito vem emergindo rapidamente como um dos países do Oriente Médio com cultura de internet mais aberta.

Cerca de 2,5 milhões de egípcios são usuários registrados e muitos outros lotam cafés de internet que estão surgindo em várias cidades do país.

Segundo estimativas, até 6 milhões de egípcios podem ser usuários da rede mundial de computadores.

Mudanças sociais

O ex-ministro de Informática do Egito, Rafart Radwan, disse que 51% da população tem menos de 20 anos de idade. Para ele, essa é a geração da internet.

"Esses garotos estão se tornando maníacos pela internet. Eles precisam sentar diante de um computador para usá-lo a maior parte do tempo", disse Radwan, pioneiro no uso da rede mundial de computadores no país há oito anos.

Ele acredita que a internet vai transformar a economia egípcia nos próximos cinco anos.

O impacto positivo da internet na economia do Egito já está sendo sentido em algumas áreas. Líderes empresariais dizem que o país está numa excelente posição para atrair investidores estrangeiros.

O crescimento explosivo da internet é resultado de um esforço maciço do governo para expandir a internet, oferecendo acesso gratuito, estimulando a venda de computadores mais baratos, instalando máquinas em todas as escolas e incentivando o surgimento de provedores de acesso privados.

Mas a rede mundial de computadores também está mudando a vida particular dos egípcios, ampliando as tradicionais fronteiras políticas e sociais.

Uma das seções mais procuradas do popularíssimo site Islam Online é uma página com cartas de egípcios e outros cidadãos do mundo árabe falando sobre seus problemas pessoais e com conselhos para resolvê-los.

"Nós temos problemas de adolescentes, problemas pré e pós-casamento, problemas psicológicos, sexuais", disse Ahmad, co-fundador do Islam Online e que cuida da página de troca de idéias e aconselhamento.

"Se você tem um problema social ou sexual, você pode procurar (...) um xeque ou um psiquiatra. Mas num nível coletivo, para todas as audiências e usuários verem problema e resposta, isso é algo novo", afirmou Ahmad.

Ele disse que recebe cerca de 400 e-mails semanalmente, em que pessoas falam com franqueza de questões como homossexualismo, impotência e divórcio.

Mas esse novo espaço virtual está criando novos problemas para os muçulmanos.

"Há um debate entre estudiosos islâmicos. Será que eles deveria impedir ou permitir que se desenvolvam relacionamentos na internet?", explicou Ahmad.

"É uma situação complexa."

"Nós temos uma norma de que um homem e uma mulher não devem ficar sozinhos, juntos, em um espaço fechado. Será que a internet é um espaço fechado? É um espaço público ou privado? Essas são algumas das muitas questões."

Questões políticas

E não são só as fronteiras da sexualidade que estão sendo ampliadas no Egito. Grupos políticos também estão se beneficiando com a possibilidade de fornecer informações sem restrições à população do país.

Grupos de oposição que tiveram suas publicações fechadas e atividades restringidas estão encontrando uma nova liberdade de informação online.

A Fraternidade Muçulmana, o principal grupo de oposição no Egito e que atua na clandestinidade, está entre esses beneficiários.

"A internet é muito importante, especialmente porque o governo não tem controle sobre quem informa o quê", disse o fundador do site do grupo. "O governo não está satisfeito."

Radwan, que hoje chefia um órgão consultivo da internet no governo egípcio, disse que não acredita que os diversos movimentos online vão levar a um radicalismo político generalizado.

"A internet ainda é usada pelo que chamamos de egípcios acima da média", afirmou ele. "O movimento islâmico no Egito está muito ligado à situação econômica."

Polícia virtual

Alguns egípcios alegam que o acesso à internet não é tão livre quanto parece.

"Agora está claro que há uma unidade especializada, uma polícia da internet, no Egito", disse Gamal Aieed, um advogado dedicado à defesa de direitos humanos no Cairo.

Ele disse que a polícia do Egito tem uma forma de "lidar" com os cafés de internet.

"Os policiais encarregados da área em que o café funciona costumam obter de seus gerentes fotocópias da carteira de identidade dos usuários."

"Eles também identificam certas páginas acessadas que sejam relacionadas a determinadas questões políticas, religiosas e sexuais - especialmente sites homossexuais", explicou Aieed.

Muita gente na comunidade gay do Egito acredita que as autoridades os reprimiram por causa de sua utilização da internet.

Mohammed, que é homossexual, alega que combinou um encontro com um "turista estrangeiro" pela internet. Mas quando ele chegou ao local acertado, encontrou vários policiais que o agrediram antes de colocá-lo na prisão por 15 dias.

Tendo se comprometido com a internet e a prosperidade que ela traz, o principal desafio do Egito será lidar com o impacto cultural e social que ela terá sobre toda uma geração.

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