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Tentativa de matar Ali Químico fez 10 vitimas civis
No início de abril, as tropas britânicas e americanas bombardearam uma casa nos arredores de Basra e depois anunciaram que Ali Hassan Al-Majid, o primo de Saddam Hussein conhecido como "Ali Químico", tinha sido morto. Já no mês de julho, autoridades americanas começaram a levantar a hipótese - agora confirmada - de que o general iraquiano ainda estaria vivo. Mas, se a revelação não diminuiu, por outro lado não deixa zerada a contagem de mortos do bombardeio de abril. Naquele dia, pelo menos dez pessoas foram mortas, todas da família de um engenheiro de 72 anos - entrevistado em Basra pela BBC Brasil semanas depois do ataque - que vivia numa casa vizinha atingida por um dos mísseis que tinha Alí Químico como alvo. Outra guerras A guerra para depor Saddam Hussein foi a pior, mas não a primeira para Haber Hassam Hamudi e sua família. Durante a guerra Irã-Iraque, toda a família teve de sair da cidade de Basra por causa dos bombardeios iranianos que atingiram duas vezes sua casa – por sorte, vazia. Na Guerra do Golfo, em 1991, nenhuma bomba os atingiu, mas a família – de classe alta, com vários membros educados em universidades estrangeiras – assistiram ao mesmo caos e aos saques que tomaram conta da cidade nas últimas semanas. Mas nada se compara ao que aconteceu na manhã do último dia 5 de abril, quando um míssil americano atingiu a casa de Hamudi por engano. 'Construção firme' "Perdi minha esposa, meu filho, minha filha, um neto e uma neta que estava na universidade, outro neto que estava na escola secundária e outros três ainda crianças", relatou com voz baixa e pausada, depois de um longo suspiro. Hamudi contou que, poucos dias antes da guerra, seus filhos e netos haviam se mudado para a sua casa, perto do centro de Basra, "porque era uma construção firme, que poderia nos proteger da guerra". Mas o concreto reforçado não foi o suficiente para salvar a família de Hamudi. O míssil atingiu a casa por volta das seis horas da manhã, meia hora depois de outro ataque ter atingido uma casa na vizinhança. "Acordamos com a primeira explosão e, meia hora depois, ouvimos o avião voltando", contou. "Depois disso, só ouvi a explosão no fundo da minha casa, onde estavam dormindo 13 pessoas", disse. Escombros O engenheiro diz que imediatamente se levantou para abrir a porta do cômodo e ver as três paredes caídas e seus parentes cobertos por poeira e escombros. "Consegui tirar dali minha filha e dois dos filhos dela, mas por mais que eu tentasse não conseguia mexer os escombros para tirar os outros", contou. A mulher de Hamudi já estava morta, abraçada a um dos netos. Outros que dormiam no quarto ainda resistiram por alguns minutos, mas acabaram morrendo soterrados antes que a ajuda chegasse. "Minha nora correu tentando buscar ajuda, mas ainda era muito cedo e não havia ninguém na rua." Inocentes Hamudi conta que os militares americanos lhe disseram que, na verdade, queriam atingir Alí Químico, que estaria em uma casa vizinha. O engenheiro não duvidava destas intenções, mas também não aceita que sua família tivesse de morrer por este motivo. "Precisavam ter matado tanta gente para tentar pegar um canalha?", perguntou. "Eles já estavam quase dentro de Basra e não precisavam ter continuado bombardeando a cidade e matando inocentes." Saque Enquanto ainda chorava a morte dos parentes, Hamudi também foi vítima de ladrões. Num prenúncio dos saques que dois dias depois tomariam conta de Basra, algumas pessoas aproveitaram o desespero da família para entrarem na casa semidestruída e carregarem o que pudessem encontrar. "Levaram três malas: uma com as jóias da família, outra com US$ 25 mil e duas com roupas novas que eu havia comprado em uma viagem." Hamudi vai muito à Grã-Bretanha – dois de seus filhos moram na cidade de Manchester – mas não cogita a possibilidade de deixar o Iraque para sempre. "Eu amo o meu país e ainda tenho aqui uma família e muitas propriedades", disse. "Mas agora vou ter de ficar aqui sozinho no que sobrou da casa que antes estava cheia com a minha gente." |
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