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Análise: Quem está por trás da violência no Iraque?
Quatro meses após o início da era pós-Saddam Hussein, a violência contra as forças da coalizão no Iraque parece ser causada por uma grande variedade de fatores. Enquanto a maioria dos iraquianos não apóia a política da violência, eles também não se opõem a ela - um dos vários paradoxos do quebra-cabeças iraquiano. Desde que começou a ocupação, tem havido uma constante onda de ataques, tendo como alvos a infra-estrutura, poços de petróleo e, sobretudo, tropas dos Estados Unidos. O secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld, inicialmente disse se tratar de atos isolados. Mas, em julho, o novo responsável pelo Comando Central dos Estados Unidos, John Abizaid, afirmou que as forças da coalizão enfrentam o que parece ser uma sistemática guerra de guerrilha. Organizada e contínua A violência parece ser bem organizada e contínua. Ela se beneficia de um clima geral de descontentamento, orgulho nacional ferido, grupos marginalizados, agitação da mídia árabe e iraniana, bom patrocínio e o isolamento do público que a Autoridade Provisória da Coalizão se impôs.
A cobertura sensacionalista no mundo árabe e no mundo da violência no Iraque a qualifica como um forte movimento nacional de resistência. Mas, na verdade, ela fica confinada a dois encraves: o retângulo formado por Fallujah-Balad-Dloiya-Yusufiya na província de Anbar, a oeste e noroeste de Bagdá; e na região ao redor de Baquba, na província de Diyala, a leste da capital. A província de Anbar tem muito a perder na era pós-Saddam. Ela já teve dois presidentes, vários primeiros-ministros e muitos ministros, centenas de comandantes militares e milhares de empresários ricos. A província contém uma mistura explosiva de arabismo, islamismo radical (wahhabismo salafita) e uma estrutura tribalista muito rígida. Tudo isso, somado a uma profunda sensação de perda. Ela se fortaleceu sob o poder do Partido Baath e agora sente-se marginalizada. Há, porém, uma maioria silenciosa em Anbar que se opõe à violência e gostaria de continuar tocando a vida normalmente. Tribos Diferentemente de Anbar, a província de Diyala conta com uma mistura de etnias. Além de árabes, há curdos e turcomenos vivendo na parte leste dessa província pobre e camponesa.
A sua parte árabe, entretanto, é quase uma réplica de Anbar em termos culturais. Há um forte fervor sunita e forte espírito tribal, combinados em seitas sufistas. As tribos eram apoiadas pelo presidente deposto, que as ajudava com dinheiro e prestígio. O partido islâmico iraquiano também está ativo nas ruas cidades da província de Diyala, principalmente Baquba. Rumores dizem que Saddam Hussein às vezes buscava refúgio entre integrantes das tribos na zona rural dessa província. O número de ataques na região aumentou desde a eliminação dois dois filhos de Saddam, em 22 de julho. Um ou dois bastiões de resistência podem existir também na cidade de Mosul, ao norte, enquanto o sul permanece tranqüilo, com a exceção de alguns incidentes em Al-Majar Al-Kabeer, na província de Omara, no começo de julho. Já o Curdistão se tornou uma espécie de colônia de férias para os soldados da coalizão: pacífico e com temperaturas moderadas. Lealdade a Saddam Quem, então, está por trás da violência? Uma resposta ampla, mas vaga, é dizer que são aqueles leais a Saddam Hussein. Mas quem são e estão eles sozinhos? As antigas organizações de segurança e inteligência, com quadros estimados em 30 mil a 50 mil pessoas, foram dissolvidas em abril e foram para a clandestinidade. Eles sabem como organizar operações clandestinas, têm motivação e recursos para tal, isso sem mencionar bilhões de dólares.
A decisão do administrador americano do Iraque, Paul Bremer, de desmantelar o Exército e o Ministério do Interior alienou os membros desses departamentos e levou muitos deles a se reagrupar clandestinamente. Saques e incêndios destruíram arquivos preciosos que poderiam ajudar a identificar agentes dos antigos serviços de segurança. Escritórios do governos foram queimados propositalmente para que a trilha deles não pudesse ser seguida. De acordo com uma carta secreta assinada pelo diretor-geral do escritório de inteligência (Mukhabarat al-Amma) antes da queda de Bagdá, oficiais foram instruídos a destruir documentos, escritórios e todas as provas que os pudessem incriminar. Também foram orientados "aderir aos partidos islâmico". Antiamericanismo Um segundo grupo que estaria organizando ataques é composto pelos salafitas, ou wahhabis. Trata-se de um grupo islâmico radical com forte ideologia antiamericana. Seu conceito de jihad, ou guerra santa, é único. A sua visão é que qualquer kafir, ou não-muçulmano, que entre em território islâmico por terra à força é um invasor ilegítimo a ser combatido. Lutar contra o invasor, argumentam eles, é um imperativo para todo muçulmano adulto com boa saúde física e mental. Os salafitas iraquianos têm bons contatos com seus companheiros ideológicos da Arábia Saudita e nas montanhas do Curdistão.
Um terceiro grupo conta com os voluntários árabes - fundamentalistas islâmicos jordanianos, palestinos, sírios e possivelmente iemenitas. Centenas deles (de um total de 6 mil a 7 mil) ficaram no Iraque. Eles gostariam de abandonar o país para fugir, mas não conseguem passar nos postos de controle de fronteira. Eles já não têm mais dinheiro e são agora hospedados por famílias que não simpatizam com sua causa, mas se solidarizam ao vê-los em dificuldades. Esses guerreiros desafortunados estão procurando uma saída segura. Vingadores Um quarto tipo de combatente contra a coalizão são vingadores não-ideológicos, cuja razão para agir é a retaliação. São integrantes de famílias civis que são atingidas sem razão e perdem membros durante operações da coalizão liderada pelos americanos. Muitos civis foram mortos assim em cidades como Fallujah, Mosul e Baquba. Outra fonte de combatentes são os clãs e famílias de soldados iraquianos que morreram na guerra. Segundo um comandante militar iraquiano, cerca de 6 mil soldados do país morreram durante as hostilidades. Até 20% deles teriam fortes conexões tribais. Algumas tribos chegaram a contatar as autoridades da coalizão pedindo dinheiro em compensação pela morte de seus membros, mas escutaram que nenhum tipo de indenização será paga por soldado do Iraque mortos no conflito. Ainda se pode identificar um quinto grupo, formado por mercenários. Um número significativo de jovens se mostram tentados a ganhar a vida por meio das armas. Assim, a violência no Iraque pós-guerra tem fontes variadas e muitas vezes conflitantes. Sua origem é política, ideológica, cultural e econômica. * Faleh A. Jabar é um sociólogo iraquiano que vive em Londres. É pesquisador do Birkbeck College, da Universidade de Londres. Entre suas últimas publicações estão The Shia Movements of Iraq, Ayatollahs, Sufis and Ideologues, State, Religion and Social Movements in Iraq e Tribes and Power in the Middle East. |
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